antigas Publicado: 5/12/2007 | 09:16

Diretoria velha mantém juros

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Diretores aprovados pelo Senado não participam da reunião de hoje do Copom que deve decidir pela manutenção da taxa Selic em 11,25% ao ano. Banco Central teme que inflação fuja ao controle
 
A diretoria do Banco Central (BC) que baterá hoje o martelo pela manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 11,25% ao ano será a mesma que interrompeu o processo de queda do índice em outubro. Havia uma grande expectativa de que a última reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) já contasse com os três diretores aprovados pelo Senado — Maria Celina Arraes (Assuntos Internacionais), Anthero de Moraes Meirelles (Administração) e Alvir Alberto Hoffmann (Fiscalização), todos funcionários de carreira do BC. Mas, por problemas operacionais e do fato de Celina e Hoffmann estarem residindo no exterior, não houve tempo hábil para as posses nos respectivos cargos. “Portanto, a chamada diretoria velha é que confirmará que nada muda na Selic”, disse um técnico do governo. A posse de Anthero está marcada para amanhã.

Da diretoria antiga, serão substituídos Paulo Vieira da Cunha (Assuntos Internacionais) e Paulo Cavalheiro (Fiscalização). Anthero assumirá a diretoria de Administração, que vinha sendo acumulada por Gustavo Matos do Vale, diretor de Liquidações e Desestatização. Segundo interpretações de dentro do governo, o presidente do BC, Henrique Meirelles, decidiu preencher as vagas na instituição com funcionários de carreira para não ter de acomodar indicações de economistas não alinhados com a ala mais conservadora do banco.

É visível dentro do BC que a instituição está isolada do debate econômico travado no governo. Atualmente, as vozes dominantes são do ministro da Fazenda, Guido Mantega, da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, defensores do aumento de gastos públicos como forma de sustentar o crescimento econômico. Para o BC, o forte aumento nas despesas do Tesouro de quase um ponto percentual do PIB entre 2003 e 2007 é uma ameaça ao controle da inflação.

Consumo e inflação
Na avaliação de Roberto Padovani, estrategista de investimentos sênior para a América Latina do Banco WestLB, além do aumento dos gastos do governo, há várias outras razões para o BC não mexer na Selic. Entre elas, os eventuais desequilíbrios entre oferta e demanda — a Confederação Nacional da Indútria (CNI) informou ontem que o uso da capacidade instalada da indústria está em 84,3%, o nível mais alto desde 2003, início da série — e a instabilidade do mercado internacional, devido aos sinais de recessão da economia dos EUA. Nesse rol de preocupações, acrescentou o economista Carlos Thadeu Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), deve ser incluído o vigoroso aumento dos preços dos alimentos, que está empurrando os índices de inflação para cima.

Para Joel Bogdanski, economista do Banco Itaú, não será fácil para o Copom definir os rumos da Selic, devido às incertezas que rondam a economia. Segundo Gian Barbosa, da Consultoria Tendências, os juros só voltarão a cair no segundo semestre de 2008. Até lá, os críticos do conservadorismo do BC vão chiar. Mas a inflação e a volatilidade dos mercados serão suficientes para comprovar que a cautela é necessária. 
 
Servidor reage a esvaziamento do BC
Os servidores do Banco Central decidiram reagir ao isolamento da instituição no debate econômico travado dentro do governo. Em um documento de 32 páginas, que está sendo distribuído pelo Sindicato Nacional dos Funcionários do BC (Sinal) e tem como título O valor do Banco Central do Brasil, eles acusam as autoridades de não reconhecerem a importância da instituição para a estabilidade econômica do país, que, neste ano, permitirá crescimento de quase 5% do Produto Interno Bruto (PIB) e inflação próxima de 4%. “Há um total desrespeito em relação ao BC. E isso não pode continuar”, afirmou o presidente do Sinal, Davi Falcão.

Para comprovar a importância do banco no cenário econômico do país, os servidores transformaram em números ações que são desenvolvidas pela instituição. Apenas com o controle dos preços, disse Falcão, o BC eliminou R$ 64 bilhões por ano correspondentes ao imposto inflacionário. Ele destacou ainda que, com a criação do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), pelo qual circulam R$ 90 trilhões do sistema financeiro, o BC eliminou a possibilidade de um rombo de R$ 10 bilhões, já que essa era a quantia que os bancos rolavam diariamente no mercado sem ter os recursos para cobrir. E mais: com o expressivo aumento das reservas internacionais, que já encostaram nos US$ 180 bilhões, o Brasil está conseguindo rendimentos de R$ 11,6 bilhões por ano, dinheiro usado para abater a conta de juros pagos ao exterior. “São dados que poucas pessoas conhecem”, afirmou Falcão.

No seu entender, é justamente o desconhecimento do BC pela sociedade e dentro do próprio governo que levou a instituição a perder prestígio e a ser o alvo preferido dos críticos da atual política econômica. “Calculamos, em reais, o valor das ações executadas pelo BC. E elas são muitas, inclusive a economia do Tesouro Nacional com a redução das taxas de juros e o aumento do volume de crédito ofertado a empresas e consumidores — que já representa 34% do PIB”, assinalou.

O presidente do Sinal reconheceu, porém, que, apesar das pressões, o BC ainda está protegido do aparelhamento político. Somente os cargos de diretoria são ocupados por indicações do Palácio do Planalto. Todas as demais funções são exercidas por funcionários de carreira, concursados. “O desprestígio se reflete até nos salários. Em 2001, a remuneração média dos servidores do BC era a sexta maior entre as carreira dos serviço público. Agora, ocupa a 19ª posição”, frisou.

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Diretores aprovados pelo Senado não participam da reunião de hoje do Copom que deve decidir pela manutenção da taxa Selic em 11,25% ao ano. Banco Central teme que inflação fuja ao controle
 
A diretoria do Banco Central (BC) que baterá hoje o martelo pela manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 11,25% ao ano será a mesma que interrompeu o processo de queda do índice em outubro. Havia uma grande expectativa de que a última reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom) já contasse com os três diretores aprovados pelo Senado — Maria Celina Arraes (Assuntos Internacionais), Anthero de Moraes Meirelles (Administração) e Alvir Alberto Hoffmann (Fiscalização), todos funcionários de carreira do BC. Mas, por problemas operacionais e do fato de Celina e Hoffmann estarem residindo no exterior, não houve tempo hábil para as posses nos respectivos cargos. “Portanto, a chamada diretoria velha é que confirmará que nada muda na Selic”, disse um técnico do governo. A posse de Anthero está marcada para amanhã.

Da diretoria antiga, serão substituídos Paulo Vieira da Cunha (Assuntos Internacionais) e Paulo Cavalheiro (Fiscalização). Anthero assumirá a diretoria de Administração, que vinha sendo acumulada por Gustavo Matos do Vale, diretor de Liquidações e Desestatização. Segundo interpretações de dentro do governo, o presidente do BC, Henrique Meirelles, decidiu preencher as vagas na instituição com funcionários de carreira para não ter de acomodar indicações de economistas não alinhados com a ala mais conservadora do banco.

É visível dentro do BC que a instituição está isolada do debate econômico travado no governo. Atualmente, as vozes dominantes são do ministro da Fazenda, Guido Mantega, da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, defensores do aumento de gastos públicos como forma de sustentar o crescimento econômico. Para o BC, o forte aumento nas despesas do Tesouro de quase um ponto percentual do PIB entre 2003 e 2007 é uma ameaça ao controle da inflação.

Consumo e inflação
Na avaliação de Roberto Padovani, estrategista de investimentos sênior para a América Latina do Banco WestLB, além do aumento dos gastos do governo, há várias outras razões para o BC não mexer na Selic. Entre elas, os eventuais desequilíbrios entre oferta e demanda — a Confederação Nacional da Indútria (CNI) informou ontem que o uso da capacidade instalada da indústria está em 84,3%, o nível mais alto desde 2003, início da série — e a instabilidade do mercado internacional, devido aos sinais de recessão da economia dos EUA. Nesse rol de preocupações, acrescentou o economista Carlos Thadeu Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), deve ser incluído o vigoroso aumento dos preços dos alimentos, que está empurrando os índices de inflação para cima.

Para Joel Bogdanski, economista do Banco Itaú, não será fácil para o Copom definir os rumos da Selic, devido às incertezas que rondam a economia. Segundo Gian Barbosa, da Consultoria Tendências, os juros só voltarão a cair no segundo semestre de 2008. Até lá, os críticos do conservadorismo do BC vão chiar. Mas a inflação e a volatilidade dos mercados serão suficientes para comprovar que a cautela é necessária. 
 
Servidor reage a esvaziamento do BC
Os servidores do Banco Central decidiram reagir ao isolamento da instituição no debate econômico travado dentro do governo. Em um documento de 32 páginas, que está sendo distribuído pelo Sindicato Nacional dos Funcionários do BC (Sinal) e tem como título O valor do Banco Central do Brasil, eles acusam as autoridades de não reconhecerem a importância da instituição para a estabilidade econômica do país, que, neste ano, permitirá crescimento de quase 5% do Produto Interno Bruto (PIB) e inflação próxima de 4%. “Há um total desrespeito em relação ao BC. E isso não pode continuar”, afirmou o presidente do Sinal, Davi Falcão.

Para comprovar a importância do banco no cenário econômico do país, os servidores transformaram em números ações que são desenvolvidas pela instituição. Apenas com o controle dos preços, disse Falcão, o BC eliminou R$ 64 bilhões por ano correspondentes ao imposto inflacionário. Ele destacou ainda que, com a criação do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), pelo qual circulam R$ 90 trilhões do sistema financeiro, o BC eliminou a possibilidade de um rombo de R$ 10 bilhões, já que essa era a quantia que os bancos rolavam diariamente no mercado sem ter os recursos para cobrir. E mais: com o expressivo aumento das reservas internacionais, que já encostaram nos US$ 180 bilhões, o Brasil está conseguindo rendimentos de R$ 11,6 bilhões por ano, dinheiro usado para abater a conta de juros pagos ao exterior. “São dados que poucas pessoas conhecem”, afirmou Falcão.

No seu entender, é justamente o desconhecimento do BC pela sociedade e dentro do próprio governo que levou a instituição a perder prestígio e a ser o alvo preferido dos críticos da atual política econômica. “Calculamos, em reais, o valor das ações executadas pelo BC. E elas são muitas, inclusive a economia do Tesouro Nacional com a redução das taxas de juros e o aumento do volume de crédito ofertado a empresas e consumidores — que já representa 34% do PIB”, assinalou.

O presidente do Sinal reconheceu, porém, que, apesar das pressões, o BC ainda está protegido do aparelhamento político. Somente os cargos de diretoria são ocupados por indicações do Palácio do Planalto. Todas as demais funções são exercidas por funcionários de carreira, concursados. “O desprestígio se reflete até nos salários. Em 2001, a remuneração média dos servidores do BC era a sexta maior entre as carreira dos serviço público. Agora, ocupa a 19ª posição”, frisou.