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Publicado: 31/03/2009 | 10:52
Boa notícia: ainda restam 3/4 de 2009
A última semana trouxe algumas notícias promissoras e interessantes: 1) o ilustre ministro Meirelles, presidente do Banco Central, disse, no Senado da República, que na sua opinião "as projeções de crescimento feitas pelos analistas financeiros parecem muito pessimistas", o que nos deu a esperança de que ele, finalmente, iria usar a musculatura de que ainda dispõe para restabelecer o crédito interbancário abruptamente interrompido em setembro. No dia seguinte abriu (com seis meses de atraso!) um novo guichê no BC confirmando aquela expectativa. Trata-se de um bom começo para restabelecer o circuito econômico interrompido pelo "apagão" creditício importado por nosso hígido sistema bancário; 2) A despeito de todas as dificuldades do governo com ele mesmo (meio ambiente, Ministério Público, Tribunal de Contas etc.) é inegável que, com o aprendizado desde 2006, a execução do PAC se acelera e já produz resultados visíveis. De 2006 a 2008, os investimentos públicos vêm crescendo a taxas reais superiores a 25% ao ano. Por outro lado, podemos acelerar o processo de concessão das obras de infraestrutura, o que, com o suporte do BNDES, ajudará a cooptar o setor privado nacional e estrangeiro para se encarregar de mais de uma dúzia de projetos com magníficas taxas de retorno: podemos mostrar rentáveis e seguras oportunidades de investimento aos fundos de pensão do mundo. Estes perderam com a queda do valor dos ativos (como, aliás, perdeu o Fundo Soberano norueguês, que andou na moda há poucas semanas) boa parte das reservas que financiariam as aposentadorias dos seus participantes; 3) Liberou-se a importação de equipamentos usados, o que dará trabalho ao setor de bens de capital e melhorará a produtividade industrial, reforçando os estímulos fiscais já concedidos e que irão adquirindo maior potência à medida que diminuir a constrição do crédito e reduzir-se a taxa de juros real; 4) Há sinais de menor resiliência da demanda em alguns setores de consumo de massa que sustentam o mercado interno, e de uma acomodação pacífica nas relações entre os trabalhadores e as empresas, que minorarão os desastrosos efeitos sociais e econômicos do desemprego; 5) O programa "Minha casa, Minha vida" parece perfeitamente sustentável do ponto de vista fiscal e atende a uma das mais angustiantes necessidades das famílias. Como usará o setor privado, será extremamente competitivo e eficiente. Grosseiramente, hoje, cada R$ 1 bilhão investido no setor gera no ano cerca de 15 mil empregos diretos e 11 mil indiretos, o que mostra sua importância. É certamente ambicioso como convém neste momento. É bom lembrar, entretanto, que entre 1979 e 1982 o antigo BNH financiou e o setor privado construiu quase 500 mil casas por ano, sendo 30% para baixa renda. Ao contrário do que se diz, o programa não é um desafio ao governo, mas ao setor privado, para o qual, aliás, este vem se preparando há algum tempo. Temos hoje mais de 100 mil pequenas, médias e grande empresas construtoras, em todos os "estados da arte". Se o governo honrar seus solenes compromissos com a Caixa Econômica Federal (e não há razão para que não o faça), a formatação do programa tem tudo para levar o setor privado a cumpri-lo num prazo que surpreenderá os mais otimistas. Fez bem o governo em não fixá-lo: o que o determinará será a resposta dos empresários às pressões da demanda. E, finalmente, mas não menos importante para o quadro geral, que informará as políticas fiscal e monetária e a aceitação que lhes dará o setor privado nos três trimestres que nos restam de 2009, assistimos: 6) A uma nova redução das expectativas inflacionárias (talvez abaixo de 4%) e a um movimento tranquilizador da taxa cambial. Esta não respondeu com uma desvalorização à "ousada" redução da taxa Selic, contrariando o que "deveria acontecer, necessariamente", na opinião dos "sacerdotes" do mercado. A redução dos juros, por mais significativa que seja, não é a mais importante tarefa que resta ao Banco Central. Esta é o restabelecimento do crédito interbancário, que todos os dias se afirma, sem provar, "estar melhorando". Com o novo guichê agora aberto, talvez ele melhore mesmo. Há mil razões pelas quais a taxa de câmbio não obedeceu a "previsão", mas uma delas apenas é suficiente: a realidade tem mais dimensões escondidas do que supõe a melhor e mais sofisticada de nossas teorias; e 7) As contas externas de fevereiro levaram o Banco Central a rever suas expectativas para 2009. Reduziu a estimativa de exportação para US$ 158 bilhões (20% menor do que 2008), da importação para US$ 141 bilhões (9% menor do que 2008) e o saldo comercial para US$ 17 bilhões (queda de 32%). Cortou, também, o déficit previsto da conta corrente para US$ 16 bilhões (45% menor do que o de 2008). Parece confirmar-se, assim, o que muitos economistas haviam antecipado durante a avalanche "terrorista" dos analistas em setembro. Mesmo esperando o pior em matéria de crescimento, tal déficit não será muito diferente de 1% do PIB, que deve ser comparado com a assustadora "ameaça" de 3% ou 4% que frequentou muitos "informes do mercado" em dezembro. Esses fatos sugerem fortemente que o ano não está terminado. Temos ainda três trimestres para trabalhar com inteligência e construir 2009. Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras E-mail [email protected]
Brasil - Claudio de Moura Castro
Brasil
Autor(es): Antonio Delfim Netto
Valor Econômico - 31/03/2009
A última semana trouxe algumas notícias promissoras e interessantes: 1) o ilustre ministro Meirelles, presidente do Banco Central, disse, no Senado da República, que na sua opinião "as projeções de crescimento feitas pelos analistas financeiros parecem muito pessimistas", o que nos deu a esperança de que ele, finalmente, iria usar a musculatura de que ainda dispõe para restabelecer o crédito interbancário abruptamente interrompido em setembro. No dia seguinte abriu (com seis meses de atraso!) um novo guichê no BC confirmando aquela expectativa. Trata-se de um bom começo para restabelecer o circuito econômico interrompido pelo "apagão" creditício importado por nosso hígido sistema bancário; 2) A despeito de todas as dificuldades do governo com ele mesmo (meio ambiente, Ministério Público, Tribunal de Contas etc.) é inegável que, com o aprendizado desde 2006, a execução do PAC se acelera e já produz resultados visíveis. De 2006 a 2008, os investimentos públicos vêm crescendo a taxas reais superiores a 25% ao ano. Por outro lado, podemos acelerar o processo de concessão das obras de infraestrutura, o que, com o suporte do BNDES, ajudará a cooptar o setor privado nacional e estrangeiro para se encarregar de mais de uma dúzia de projetos com magníficas taxas de retorno: podemos mostrar rentáveis e seguras oportunidades de investimento aos fundos de pensão do mundo. Estes perderam com a queda do valor dos ativos (como, aliás, perdeu o Fundo Soberano norueguês, que andou na moda há poucas semanas) boa parte das reservas que financiariam as aposentadorias dos seus participantes; 3) Liberou-se a importação de equipamentos usados, o que dará trabalho ao setor de bens de capital e melhorará a produtividade industrial, reforçando os estímulos fiscais já concedidos e que irão adquirindo maior potência à medida que diminuir a constrição do crédito e reduzir-se a taxa de juros real; 4) Há sinais de menor resiliência da demanda em alguns setores de consumo de massa que sustentam o mercado interno, e de uma acomodação pacífica nas relações entre os trabalhadores e as empresas, que minorarão os desastrosos efeitos sociais e econômicos do desemprego; 5) O programa "Minha casa, Minha vida" parece perfeitamente sustentável do ponto de vista fiscal e atende a uma das mais angustiantes necessidades das famílias. Como usará o setor privado, será extremamente competitivo e eficiente. Grosseiramente, hoje, cada R$ 1 bilhão investido no setor gera no ano cerca de 15 mil empregos diretos e 11 mil indiretos, o que mostra sua importância. É certamente ambicioso como convém neste momento. É bom lembrar, entretanto, que entre 1979 e 1982 o antigo BNH financiou e o setor privado construiu quase 500 mil casas por ano, sendo 30% para baixa renda. Ao contrário do que se diz, o programa não é um desafio ao governo, mas ao setor privado, para o qual, aliás, este vem se preparando há algum tempo. Temos hoje mais de 100 mil pequenas, médias e grande empresas construtoras, em todos os "estados da arte". Se o governo honrar seus solenes compromissos com a Caixa Econômica Federal (e não há razão para que não o faça), a formatação do programa tem tudo para levar o setor privado a cumpri-lo num prazo que surpreenderá os mais otimistas. Fez bem o governo em não fixá-lo: o que o determinará será a resposta dos empresários às pressões da demanda. E, finalmente, mas não menos importante para o quadro geral, que informará as políticas fiscal e monetária e a aceitação que lhes dará o setor privado nos três trimestres que nos restam de 2009, assistimos: 6) A uma nova redução das expectativas inflacionárias (talvez abaixo de 4%) e a um movimento tranquilizador da taxa cambial. Esta não respondeu com uma desvalorização à "ousada" redução da taxa Selic, contrariando o que "deveria acontecer, necessariamente", na opinião dos "sacerdotes" do mercado. A redução dos juros, por mais significativa que seja, não é a mais importante tarefa que resta ao Banco Central. Esta é o restabelecimento do crédito interbancário, que todos os dias se afirma, sem provar, "estar melhorando". Com o novo guichê agora aberto, talvez ele melhore mesmo. Há mil razões pelas quais a taxa de câmbio não obedeceu a "previsão", mas uma delas apenas é suficiente: a realidade tem mais dimensões escondidas do que supõe a melhor e mais sofisticada de nossas teorias; e 7) As contas externas de fevereiro levaram o Banco Central a rever suas expectativas para 2009. Reduziu a estimativa de exportação para US$ 158 bilhões (20% menor do que 2008), da importação para US$ 141 bilhões (9% menor do que 2008) e o saldo comercial para US$ 17 bilhões (queda de 32%). Cortou, também, o déficit previsto da conta corrente para US$ 16 bilhões (45% menor do que o de 2008). Parece confirmar-se, assim, o que muitos economistas haviam antecipado durante a avalanche "terrorista" dos analistas em setembro. Mesmo esperando o pior em matéria de crescimento, tal déficit não será muito diferente de 1% do PIB, que deve ser comparado com a assustadora "ameaça" de 3% ou 4% que frequentou muitos "informes do mercado" em dezembro. Esses fatos sugerem fortemente que o ano não está terminado. Temos ainda três trimestres para trabalhar com inteligência e construir 2009. Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras E-mail [email protected]
Brasil - Claudio de Moura Castro
Brasil
Autor(es): Antonio Delfim Netto
Valor Econômico - 31/03/2009