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Publicado: 21/01/2008 | 08:51
Um reflexo do perfil dos eleitores
Daniela Lima
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Distritais ocupam o 10º lugar no quesito escolaridade se comparados a deputados estaduais do resto do país. Especialistas acreditam que níveis educacionais diferentes dos políticos retratam a sociedade
Enquanto a população do Distrito Federal celebra o título de unidade da federação onde há o maior percentual de eleitores com acesso ao ensino superior — mais de 12,2% ingressaram ou concluíram a faculdade —, o índice de escolaridade dos representantes escolhidos para a Câmara Legislativa não alcança os mesmos resultados se comparado a outras assembléias estaduais. Dos 24 distritais, um terço (33,4%) não tem graduação em faculdade.
No quesito educação, levantamento do Correio mostra que os políticos candangos perdem para os do Rio Grande do Norte (83,3%), Piauí (76,6%), Minas (74%), Ceará (73%), Paraíba (71,7%), Bahia (69,2%), São Paulo (69,14%), Pará (68,29%) e Mato Grosso do Sul (66,6%). Para chegar aos percentuais, a reportagem buscou o índice de escolaridade de cada um dos parlamentares nos sites oficiais das assembléias estaduais. Conseguiu dados em 16 casos. Os sites das outras assembléias não apresentam o perfil educacional dos políticos.
Mesmo com o 10º lugar no quesito educacional, especialistas em Ciência Política consideram que, de certa forma, o grau de escolaridade dos distritais é um reflexo do perfil dos eleitores. No DF — segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na última quarta-feira —, apesar de o índice de eleitores que chegaram a ingressar no ensino superior ser o mais alto do país, a maioria da população apta ao voto (27,55%) não completou o ensino fundamental. O segundo maior percentual dá conta dos que interromperam os estudos antes de concluir o ensino médio: 20,56%. Além disso, quase 10% declarou que apenas lê e escreve. “Nós temos na Câmara Legislativa uma reprodução do perfil do eleitorado. Portanto, se há grupos com diferentes níveis de escolaridade entre a população, também teremos isso entre os distritais”, analisou o professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer.
Entre os 26 distritais, dois deles suplentes, que circularam pela Casa desde o início desta legislatura, nove não possuem graduação em nível superior. Desses, quatro retomaram os estudos após conquistarem mandato: Batista das Cooperativas (PRP) e Aguinaldo de Jesus (PL) — que hoje comanda a Secretaria de Esportes — estão cursando Direito, Cabo Patrício (PT) é aluno de Ciência Política, e Paulo Tadeu (PT) faz Letras. “Eu só entrei na faculdade depois que me elegi, antes não tinha condições. Acho importante investir nisso para exercer o mandato com mais qualidade. Além disso, ninguém é deputado. Eu estou deputado. A política não pode ser a profissão da minha vida”, justificou Patrício.
Trabalho
Já os deputados Wilson Lima (PR), Paulo Roriz (DEM), Raad Massouh (DEM), Aylton Gomes (PMN) – que no final do ano passado assumiu a Administração de Planaltina — e seu suplente, Pedro do Ovo (PMN), deixaram os estudos assim que concluíram o ensino médio. “Fiz o segundo grau completo e vários cursos para me aperfeiçoar. Mas acho que o importante para o deputado é a intenção e a capacidade de trabalho. É lógico que uma pessoa sem o mínimo de preparo não funciona. Mas alguém acima do segundo grau, se tiver interesse, pode ajudar mais do que um deputado com diploma de magistrado”, sustentou Raad.
No entanto, o deputado avalia de maneira diferente a importância da escolaridade quando a análise é feita sobre o eleitorado. “Os índices em Brasília me assustaram. Essa falta de condição facilita a escolha de um candidato ruim”, enfatizou.
Mas há consenso entre os distritais de que a ausência de diploma universitário pregado na parede não é sinônimo de uma atuação política ruim. “O fato de o parlamentar não ter curso superior não faz dele incapaz ou inferior. Mas é a educação que vai lhe fornecer ferramentas para avaliar e atender as demandas de forma global, sem que apenas a sua base de atuação seja prestigiada”, opinou a deputada Eurides Brito (PMDB), ex-secretária de Educação e gerente de erradicação do analfabetismo do DF.
TSE revela grau de instrução
Os índices nacionais do levantamento divulgado pelo Superior Tribunal Eleitoral (TSE) sobre a escolaridade do eleitorado mostram que 51,5% dos eleitores não conseguiram completar o primeiro grau até o final de 2007 e quase 6,5% se declararam analfabetos.
A região Nordeste teve o pior desempenho: 70% dos 34,3 milhões não havia concluído o ensino fundamental. “Não investir na educação foi uma opção política. Lidar com eleitor de baixa escolaridade, que muitas vezes funciona como massa de manobra, é mais fácil. Foi uma escolha: não investir em educação para obter benefício próprio”, analisou o professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer.
Segundo o especialista, o comprometimento da capacidade crítica é o maior inimigo do eleitor iletrado. “Esses dados mostram que quase 60% da população do Brasil é analfabeta funcional. Toda essa parcela tem pouca capacidade de analisar o que lhe é apresentado. Isso limita muito a capacidade eleitoral. Esse cidadão fica muito mais suscetível às promessas, regalos e presentes”, ponderou Fleischer.
Levantamento feito pelo Correio, com base em dados divulgados pelos próprios parlamentares nos sites das assembléias legislativas, mostra que, em pelo menos cinco dos nove estados que compõem a região Nordeste, o índice de deputados que declaram ter feito faculdade ultrapassa a casa dos 69%. Dos 24 deputados estaduais do Rio Grande do Norte, 20 (83,3%) declaram ter curso superior completo. O mesmo acontece com 76,6% dos deputados estaduais do Piauí, 73% dos do Ceará, 71,7% dos parlamentares da Paraíba e 69,2% dos da Bahia.
Para justificar a disparidade, especialistas afirmam que a análise da escolaridade de quem vota não é único fator de influência sobre o perfil dos deputados. “O grau de instrução do eleitorado é um fator importante, mas não é o único. A tradição de políticas assistencialistas e paternalistas também influi. Quem vota em alguém por conta de uma promessa de emprego vai fazê-lo, tenha ele baixa escolaridade ou não”, explicou o cientista político Leonardo Barreto.
Entre as 16 assembléias legislativas que publicam o perfil dos parlamentares, os estados que apresentaram o pior percentual de escolaridade dos políticos são: Tocantins, onde menos da metade (41,6%) dos parlamentares afirma ter curso superior, Mato Grosso (45,8%) e Alagoas (51,8%).
Daniela Lima
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Distritais ocupam o 10º lugar no quesito escolaridade se comparados a deputados estaduais do resto do país. Especialistas acreditam que níveis educacionais diferentes dos políticos retratam a sociedade
Enquanto a população do Distrito Federal celebra o título de unidade da federação onde há o maior percentual de eleitores com acesso ao ensino superior — mais de 12,2% ingressaram ou concluíram a faculdade —, o índice de escolaridade dos representantes escolhidos para a Câmara Legislativa não alcança os mesmos resultados se comparado a outras assembléias estaduais. Dos 24 distritais, um terço (33,4%) não tem graduação em faculdade.
No quesito educação, levantamento do Correio mostra que os políticos candangos perdem para os do Rio Grande do Norte (83,3%), Piauí (76,6%), Minas (74%), Ceará (73%), Paraíba (71,7%), Bahia (69,2%), São Paulo (69,14%), Pará (68,29%) e Mato Grosso do Sul (66,6%). Para chegar aos percentuais, a reportagem buscou o índice de escolaridade de cada um dos parlamentares nos sites oficiais das assembléias estaduais. Conseguiu dados em 16 casos. Os sites das outras assembléias não apresentam o perfil educacional dos políticos.
Mesmo com o 10º lugar no quesito educacional, especialistas em Ciência Política consideram que, de certa forma, o grau de escolaridade dos distritais é um reflexo do perfil dos eleitores. No DF — segundo dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na última quarta-feira —, apesar de o índice de eleitores que chegaram a ingressar no ensino superior ser o mais alto do país, a maioria da população apta ao voto (27,55%) não completou o ensino fundamental. O segundo maior percentual dá conta dos que interromperam os estudos antes de concluir o ensino médio: 20,56%. Além disso, quase 10% declarou que apenas lê e escreve. “Nós temos na Câmara Legislativa uma reprodução do perfil do eleitorado. Portanto, se há grupos com diferentes níveis de escolaridade entre a população, também teremos isso entre os distritais”, analisou o professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer.
Entre os 26 distritais, dois deles suplentes, que circularam pela Casa desde o início desta legislatura, nove não possuem graduação em nível superior. Desses, quatro retomaram os estudos após conquistarem mandato: Batista das Cooperativas (PRP) e Aguinaldo de Jesus (PL) — que hoje comanda a Secretaria de Esportes — estão cursando Direito, Cabo Patrício (PT) é aluno de Ciência Política, e Paulo Tadeu (PT) faz Letras. “Eu só entrei na faculdade depois que me elegi, antes não tinha condições. Acho importante investir nisso para exercer o mandato com mais qualidade. Além disso, ninguém é deputado. Eu estou deputado. A política não pode ser a profissão da minha vida”, justificou Patrício.
Trabalho
Já os deputados Wilson Lima (PR), Paulo Roriz (DEM), Raad Massouh (DEM), Aylton Gomes (PMN) – que no final do ano passado assumiu a Administração de Planaltina — e seu suplente, Pedro do Ovo (PMN), deixaram os estudos assim que concluíram o ensino médio. “Fiz o segundo grau completo e vários cursos para me aperfeiçoar. Mas acho que o importante para o deputado é a intenção e a capacidade de trabalho. É lógico que uma pessoa sem o mínimo de preparo não funciona. Mas alguém acima do segundo grau, se tiver interesse, pode ajudar mais do que um deputado com diploma de magistrado”, sustentou Raad.
No entanto, o deputado avalia de maneira diferente a importância da escolaridade quando a análise é feita sobre o eleitorado. “Os índices em Brasília me assustaram. Essa falta de condição facilita a escolha de um candidato ruim”, enfatizou.
Mas há consenso entre os distritais de que a ausência de diploma universitário pregado na parede não é sinônimo de uma atuação política ruim. “O fato de o parlamentar não ter curso superior não faz dele incapaz ou inferior. Mas é a educação que vai lhe fornecer ferramentas para avaliar e atender as demandas de forma global, sem que apenas a sua base de atuação seja prestigiada”, opinou a deputada Eurides Brito (PMDB), ex-secretária de Educação e gerente de erradicação do analfabetismo do DF.
TSE revela grau de instrução
Os índices nacionais do levantamento divulgado pelo Superior Tribunal Eleitoral (TSE) sobre a escolaridade do eleitorado mostram que 51,5% dos eleitores não conseguiram completar o primeiro grau até o final de 2007 e quase 6,5% se declararam analfabetos.
A região Nordeste teve o pior desempenho: 70% dos 34,3 milhões não havia concluído o ensino fundamental. “Não investir na educação foi uma opção política. Lidar com eleitor de baixa escolaridade, que muitas vezes funciona como massa de manobra, é mais fácil. Foi uma escolha: não investir em educação para obter benefício próprio”, analisou o professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer.
Segundo o especialista, o comprometimento da capacidade crítica é o maior inimigo do eleitor iletrado. “Esses dados mostram que quase 60% da população do Brasil é analfabeta funcional. Toda essa parcela tem pouca capacidade de analisar o que lhe é apresentado. Isso limita muito a capacidade eleitoral. Esse cidadão fica muito mais suscetível às promessas, regalos e presentes”, ponderou Fleischer.
Levantamento feito pelo Correio, com base em dados divulgados pelos próprios parlamentares nos sites das assembléias legislativas, mostra que, em pelo menos cinco dos nove estados que compõem a região Nordeste, o índice de deputados que declaram ter feito faculdade ultrapassa a casa dos 69%. Dos 24 deputados estaduais do Rio Grande do Norte, 20 (83,3%) declaram ter curso superior completo. O mesmo acontece com 76,6% dos deputados estaduais do Piauí, 73% dos do Ceará, 71,7% dos parlamentares da Paraíba e 69,2% dos da Bahia.
Para justificar a disparidade, especialistas afirmam que a análise da escolaridade de quem vota não é único fator de influência sobre o perfil dos deputados. “O grau de instrução do eleitorado é um fator importante, mas não é o único. A tradição de políticas assistencialistas e paternalistas também influi. Quem vota em alguém por conta de uma promessa de emprego vai fazê-lo, tenha ele baixa escolaridade ou não”, explicou o cientista político Leonardo Barreto.
Entre as 16 assembléias legislativas que publicam o perfil dos parlamentares, os estados que apresentaram o pior percentual de escolaridade dos políticos são: Tocantins, onde menos da metade (41,6%) dos parlamentares afirma ter curso superior, Mato Grosso (45,8%) e Alagoas (51,8%).