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Publicado: 10/10/2007 | 08:48
Renan abandonado
Leandro Colon e Fernanda Odilla
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Nenhum aliado subiu à tribuna para defender o presidente do Senado, que enfrentou um ataque de discursos por duas horas. Nem o afastamento de Francisco Escórcio aliviou a artilharia contra o senador
O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) é um homem solitário no Senado. Ontem, nem mesmo seus poucos aliados o defenderam. Os líderes do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), e do PMDB, Valdir Raupp (RO), se calaram. Até a líder do PT, Ideli Salvatti (SC), de sua tropa de choque, mudou o discurso e defendeu a saída do presidente do Senado. Outros três, Roseana Sarney (PMDB-MA), José Sarney (PMDB-AP) e Almeida Lima (PMDB-SE), nem apareceram.
Abandonado pelos colegas, Renan teve que ouvir senadores de partidos aliados e da oposição pedirem, mais uma vez, sua cabeça. Mostrou descontrole ao se irritar com Aloizio Mercadante (PT-SP). Saiu da tribuna e deu as costas para o petista. Depois, pediu desculpa pela “deselegância”.
O peemedebista repetiu o discurso de inocência, disse que continua no cargo e anunciou o afastamento do ex-senador e assessor Francisco Escórcio, acusado de tentar criar um esquema de espionagem contra os senadores Demostenes Torres (DEM-GO) e Marconi Perillo (PSDB-GO). Renan disse que pediu sindicância para apurar as denúncias de bisbilhotagem.
Mas a oposição achou pouco. Protocolou na Mesa Diretora o pedido de abertura de processo no Conselho de Ética contra o senador (leia mais na página 4). Se os integrantes da Mesa autorizarem a investigação, será a quinta contra ele no Senado. Renan já foi absolvido de uma, e não esconde a preocupação com as demais.
A oposição deu até o dia 2 de novembro para o Conselho encerrar todos os processos. Caso contrário, promete parar os trabalhos do Senado. A data foi até uma promessa feita pelo presidente do colegiado, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), na semana passada. O problema é que Quintanilha, aliado de Renan, ainda nem indicou o relator do processo sobre o suposto uso de laranjas, por parte do alagoano, para comprar veículos de comunicação em Alagoas. O processo está há 55 dias parado no Conselho.
Apelos
A estratégia de pressionar Renan em plenário foi traçada em reunião no gabinete do presidente do PSDB, o senador Tasso Jereissati (CE). Vinte senadores de seis partidos, alguns da base do governo, decidiram aproveitar a sessão da tarde para apelar pelo afastamento do presidente da Casa.
Ciente da pressão que sofreria, Renan preparou um discurso em seu gabinete. Antes de lê-lo, ainda teve que assistir a uma dura fala de Jefferson Peres (PDT-AM). “O senador Renan Calheiros não tem mais condições políticas de continuar na Presidência. Espero que ele entenda isso. É um sentimento generalizado na Casa”, afirmou Peres, sondado para relatar o processo sobre o uso de laranjas por Renan em rádios e jornais.
O discurso de Renan pouco convenceu os colegas. O senador alagoano se disse vítima do “mau jornalismo” e de mentiras de uma “cooperativa da calúnia”. E negou qualquer ligação com a suposta tentativa de espionar senadores. “Bisbilhotar a vida alheia não é uma prática que eu aprove, muito menos incentive”, disse.
Durante o discurso, Renan foi interrompido por três senadores: Perillo, Mercadante e Pedro Simon (PMDB-RS). Ouviu de todos que sua insistência em ficar no cargo prejudica o Senado. Sem esconder o nervosismo, o peemedebista perdeu a paciência com Mercadante, deu as costas ao petista, mas se retratou.
A fala de Mercadante, aliás, mostrou a ferida aberta na bancada do PT. A líder do partido, Ideli Salvatti, não gostou quando o colega disse a Renan que seu afastamento era um “sentimento da bancada” do PT. No microfone, Ideli disse ao presidente do Senado que, embora ache que sua licença ajudaria o Senado, a bancada não fechou qualquer questão sobre o assunto.
Tensão
O discurso de Demostenes Torres silenciou o plenário. O senador goiano reafirmou que o empresário Pedro Abrão o informou sobre a suposta tentativa de chantagem armada por Francisco Escórcio. Demostenes chegou a mostrar, durante a sessão, o áudio de uma entrevista entre o advogado Heli Dourado e um jornalista da Folha de S. Paulo. Nela, Dourado confirma o encontro com Escórcio e Abrão em Goiânia, mas não fala sobre espionagem.
Renan atacou Demostenes. “Colocou uma fita aqui, transformou o Senado em delegacia de polícia”, disse. O senador goiano retrucou. “Exatamente. Essa é uma frase que está sendo muito utilizada para tentar abafar a situação.” Cansado de ouvir críticas e sem nenhum apoio em plenário, Renan deixou a sessão durante a fala do líder do DEM, José Agripino (RN).
O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), e o também tucano Álvaro Dias (PR) aproveitaram ainda para criticar um e-mail que estaria circulando pela internet com informações contra os dois. Os senadores não culparam Renan pelo conteúdo, mas o responsabilizam pelo clima de perseguição no Senado. Alguns parlamentares acusam o peemedebista de preparar um dossiê para intimidá-los. “Tenho convicção absoluta de que chegamos a um ponto do qual não podemos ir mais além”, disse Virgílio.
A tensão do plenário também passou para o lado de fora. Sete integrantes da juventude do PPS foram detidos pela polícia do Senado depois de iniciarem uma manifestação contra a crise na Casa. Eles se vestiram de frades fransciscanos e tentaram distribuir chinelos aos senadores do PMDB (leia mais na página 5). O protesto foi uma referência à declaração do senador Wellington Salgado (PMDB-MG) de que bastava apenas um “chinelo usado” do governo para acalmar a bancada do partido no Senado.
PERSONAGEM DA NOTÍCIA
Chato e pegajoso
O ex-senador Francisco Escórcio, assessor especial de Renan Calheiros e suplente de deputado federal pelo PMDB do Maranhão, não foi apenas afastado ontem. A suspeita de que ele teria ido a Goiânia para tentar espionar senadores da oposição lhe valeu uma coleção de críticas no plenário do Senado. Chato, pegajoso, baixo nível e bisbilhoteiro. Não faltaram adjetivos para execrar o assessor, que fica fora do cargo até que uma sindicância esclareça se ele tinha a intenção de flagrar os passos de Demostenes Torres (DEM-GO) e Marconi Perillo (PSDB-GO) fora do Congresso.
Aos 62 anos, Escórcio ocupou uma cadeira do Senado por poucos meses, em duas oportunidades. Afilhado de José Sarney (PMDB-AP), sempre ficou como suplente. Mas nunca deixou de transitar no Congresso ou no Palácio do Planalto. Antes de ir para a Presidência do Senado, trabalhou na Casa Civil com o então ministro José Dirceu. Hoje é dono de um patrimônio notável: R$ 2,4 milhões declarados à Justiça Eleitoral em 2006. Ainda assim continua como assessor especial, participando das conversas nas rodinhas de parlamentares e acompanhado o tramitar de seu polêmico projeto que cria o estado do Planalto Central com Taguatinga como capital. Em 1987, a Paulista Construções, uma das empresas de Escórcio, foi contratada pelo Senado para fornecer e instalar forros de gesso para a Casa.
Ontem, o plenário sinalizou que Escórcio não tem muitos amigos no Senado. Quem usou o microfone não defendeu o assessor, mas sim sua demissão sumária do cargo. Perillo afirmou que o ex-senador “fica transitando, bisbilhotando e ouvindo conversas”. O tucano Arthur Virgílio (AM) foi mais duro: “Ele é muito chato”. Para Demostenes Torres, Escórcio é “alguém de baixíssimo nível” que sempre lhe pedia favores. A líder do PT, Ideli Salvatti (SC), argumentou que ele precisa ser demitido porque pode ter quebrado a confiança prevista no cargo.
Leandro Colon e Fernanda Odilla
Correio Braziliense
Correio Braziliense
Nenhum aliado subiu à tribuna para defender o presidente do Senado, que enfrentou um ataque de discursos por duas horas. Nem o afastamento de Francisco Escórcio aliviou a artilharia contra o senador
O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) é um homem solitário no Senado. Ontem, nem mesmo seus poucos aliados o defenderam. Os líderes do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), e do PMDB, Valdir Raupp (RO), se calaram. Até a líder do PT, Ideli Salvatti (SC), de sua tropa de choque, mudou o discurso e defendeu a saída do presidente do Senado. Outros três, Roseana Sarney (PMDB-MA), José Sarney (PMDB-AP) e Almeida Lima (PMDB-SE), nem apareceram.
Abandonado pelos colegas, Renan teve que ouvir senadores de partidos aliados e da oposição pedirem, mais uma vez, sua cabeça. Mostrou descontrole ao se irritar com Aloizio Mercadante (PT-SP). Saiu da tribuna e deu as costas para o petista. Depois, pediu desculpa pela “deselegância”.
O peemedebista repetiu o discurso de inocência, disse que continua no cargo e anunciou o afastamento do ex-senador e assessor Francisco Escórcio, acusado de tentar criar um esquema de espionagem contra os senadores Demostenes Torres (DEM-GO) e Marconi Perillo (PSDB-GO). Renan disse que pediu sindicância para apurar as denúncias de bisbilhotagem.
Mas a oposição achou pouco. Protocolou na Mesa Diretora o pedido de abertura de processo no Conselho de Ética contra o senador (leia mais na página 4). Se os integrantes da Mesa autorizarem a investigação, será a quinta contra ele no Senado. Renan já foi absolvido de uma, e não esconde a preocupação com as demais.
A oposição deu até o dia 2 de novembro para o Conselho encerrar todos os processos. Caso contrário, promete parar os trabalhos do Senado. A data foi até uma promessa feita pelo presidente do colegiado, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), na semana passada. O problema é que Quintanilha, aliado de Renan, ainda nem indicou o relator do processo sobre o suposto uso de laranjas, por parte do alagoano, para comprar veículos de comunicação em Alagoas. O processo está há 55 dias parado no Conselho.
Apelos
A estratégia de pressionar Renan em plenário foi traçada em reunião no gabinete do presidente do PSDB, o senador Tasso Jereissati (CE). Vinte senadores de seis partidos, alguns da base do governo, decidiram aproveitar a sessão da tarde para apelar pelo afastamento do presidente da Casa.
Ciente da pressão que sofreria, Renan preparou um discurso em seu gabinete. Antes de lê-lo, ainda teve que assistir a uma dura fala de Jefferson Peres (PDT-AM). “O senador Renan Calheiros não tem mais condições políticas de continuar na Presidência. Espero que ele entenda isso. É um sentimento generalizado na Casa”, afirmou Peres, sondado para relatar o processo sobre o uso de laranjas por Renan em rádios e jornais.
O discurso de Renan pouco convenceu os colegas. O senador alagoano se disse vítima do “mau jornalismo” e de mentiras de uma “cooperativa da calúnia”. E negou qualquer ligação com a suposta tentativa de espionar senadores. “Bisbilhotar a vida alheia não é uma prática que eu aprove, muito menos incentive”, disse.
Durante o discurso, Renan foi interrompido por três senadores: Perillo, Mercadante e Pedro Simon (PMDB-RS). Ouviu de todos que sua insistência em ficar no cargo prejudica o Senado. Sem esconder o nervosismo, o peemedebista perdeu a paciência com Mercadante, deu as costas ao petista, mas se retratou.
A fala de Mercadante, aliás, mostrou a ferida aberta na bancada do PT. A líder do partido, Ideli Salvatti, não gostou quando o colega disse a Renan que seu afastamento era um “sentimento da bancada” do PT. No microfone, Ideli disse ao presidente do Senado que, embora ache que sua licença ajudaria o Senado, a bancada não fechou qualquer questão sobre o assunto.
Tensão
O discurso de Demostenes Torres silenciou o plenário. O senador goiano reafirmou que o empresário Pedro Abrão o informou sobre a suposta tentativa de chantagem armada por Francisco Escórcio. Demostenes chegou a mostrar, durante a sessão, o áudio de uma entrevista entre o advogado Heli Dourado e um jornalista da Folha de S. Paulo. Nela, Dourado confirma o encontro com Escórcio e Abrão em Goiânia, mas não fala sobre espionagem.
Renan atacou Demostenes. “Colocou uma fita aqui, transformou o Senado em delegacia de polícia”, disse. O senador goiano retrucou. “Exatamente. Essa é uma frase que está sendo muito utilizada para tentar abafar a situação.” Cansado de ouvir críticas e sem nenhum apoio em plenário, Renan deixou a sessão durante a fala do líder do DEM, José Agripino (RN).
O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), e o também tucano Álvaro Dias (PR) aproveitaram ainda para criticar um e-mail que estaria circulando pela internet com informações contra os dois. Os senadores não culparam Renan pelo conteúdo, mas o responsabilizam pelo clima de perseguição no Senado. Alguns parlamentares acusam o peemedebista de preparar um dossiê para intimidá-los. “Tenho convicção absoluta de que chegamos a um ponto do qual não podemos ir mais além”, disse Virgílio.
A tensão do plenário também passou para o lado de fora. Sete integrantes da juventude do PPS foram detidos pela polícia do Senado depois de iniciarem uma manifestação contra a crise na Casa. Eles se vestiram de frades fransciscanos e tentaram distribuir chinelos aos senadores do PMDB (leia mais na página 5). O protesto foi uma referência à declaração do senador Wellington Salgado (PMDB-MG) de que bastava apenas um “chinelo usado” do governo para acalmar a bancada do partido no Senado.
PERSONAGEM DA NOTÍCIA
Chato e pegajoso
O ex-senador Francisco Escórcio, assessor especial de Renan Calheiros e suplente de deputado federal pelo PMDB do Maranhão, não foi apenas afastado ontem. A suspeita de que ele teria ido a Goiânia para tentar espionar senadores da oposição lhe valeu uma coleção de críticas no plenário do Senado. Chato, pegajoso, baixo nível e bisbilhoteiro. Não faltaram adjetivos para execrar o assessor, que fica fora do cargo até que uma sindicância esclareça se ele tinha a intenção de flagrar os passos de Demostenes Torres (DEM-GO) e Marconi Perillo (PSDB-GO) fora do Congresso.
Aos 62 anos, Escórcio ocupou uma cadeira do Senado por poucos meses, em duas oportunidades. Afilhado de José Sarney (PMDB-AP), sempre ficou como suplente. Mas nunca deixou de transitar no Congresso ou no Palácio do Planalto. Antes de ir para a Presidência do Senado, trabalhou na Casa Civil com o então ministro José Dirceu. Hoje é dono de um patrimônio notável: R$ 2,4 milhões declarados à Justiça Eleitoral em 2006. Ainda assim continua como assessor especial, participando das conversas nas rodinhas de parlamentares e acompanhado o tramitar de seu polêmico projeto que cria o estado do Planalto Central com Taguatinga como capital. Em 1987, a Paulista Construções, uma das empresas de Escórcio, foi contratada pelo Senado para fornecer e instalar forros de gesso para a Casa.
Ontem, o plenário sinalizou que Escórcio não tem muitos amigos no Senado. Quem usou o microfone não defendeu o assessor, mas sim sua demissão sumária do cargo. Perillo afirmou que o ex-senador “fica transitando, bisbilhotando e ouvindo conversas”. O tucano Arthur Virgílio (AM) foi mais duro: “Ele é muito chato”. Para Demostenes Torres, Escórcio é “alguém de baixíssimo nível” que sempre lhe pedia favores. A líder do PT, Ideli Salvatti (SC), argumentou que ele precisa ser demitido porque pode ter quebrado a confiança prevista no cargo.