antigas Publicado: 11/09/2007 | 09:24

Esforço pelos votos dos envergonhados

Gustavo Krieger
Correio Braziliense

A poucas horas da votação que vai decidir seu futuro, Renan investe pesado para convencer colegas a absolvê-lo no plenário. Aos adversários, manda um recado: não renuncia à Presidência do Senado
 
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), passou o dia ontem longe do Congresso. Fez da residência oficial o quartel-general da luta para preservar o mandato. A escolha de local é estratégica. Renan aposta no voto secreto para conseguir a absolvição na sessão plenária de amanhã. E para ganhar os votos que precisa, a discrição é fundamental. Ele baseia suas esperanças em dois tipos de eleitores envergonhados. O primeiro, são senadores da base governista que temem desgastar-se com suas bases se for revelado que votaram pela absolvição. O segundo, parlamentares da oposição que terão de trair a orientação das lideranças , que indicam o voto pela cassação.

Renan não revela sua lista de votos, embora não tenha trabalhado em outras coisa nas últimas semanas. Teme que qualquer vazamento reforce a pressão sobre os senadores. Seus aliados prevêem a vitória, mas por uma margem apertada. E também se preocupam com a possibilidade de traições. Reservadamente, reconhecem que o clima piorou muito nos últimos dias.

Ontem o senador mandou avisar mais uma vez que não pretende renunciar ou mesmo licenciar-se da Presidência do Senado. “Renunciar (à Presidência) seria uma confissão de culpa e uma traição aos 51 votos que recebi dos senadores quando fui reeleito para comandar a Casa”, avisou. As pressões pela renúncia aumentaram muito nos últimos dias e vieram também de senadores aliados. Parte da bancada do PT e mesmo senadores do PMDB temem que a crise continue caso Renan seja absolvido. Já há mais três representações contra Renan no Conselho de Ética e a imprensa mantém investigações, à procura de novas denúncias. Aos poucos, a crise respinga em outros senadores e ameaça a agenda legislativa do Palácio do Planalto. O afastamento dele da Presidência poderia desviar o foco do Senado e esfriar a crise.

Até aqui, Renan não quer discutir o assunto. Acha que a renúncia seria um sinal de fraqueza e poderia prejudicá-lo no julgamento. A aliados, tem dito que só continua vivo politicamente porque não se afastou da Presidência. Nas conversas de ontem com senadores, deixou clara sua preocupação com o resultado. Acha que mais que vencer, precisa fazê-lo com uma margem que lhe garanta condições de permanecer à frente do Senado e encerrar as outras representações.

Discursos
Para sobreviver, o presidente do Senado adotou diferentes estratégias e discursos para cada tipo de eleitor. Uma de suas preocupações é o PT. O partido tem 12 senadores e é fundamental para a definição do resultado. Pelo menos dois petistas votarão pela cassação e as especulações são que esse número poderá chegar a cinco. Ontem, a líder do partido, Ideli Salvatti (SC), admitiu que as defecções são inevitáveis. “Os únicos partidos que votarão unidos no julgamento de Renan são os que só têm um senador”, disse. Mas ela não quer que o PT seja considerado o fiel da balança nessa decisão. “Se vai haver traições em todos os partidos, por que são as do PT que vão decidir?”

Renan aposta na influência do Palácio do Planalto para dobrar os petistas mais resistentes. Argumenta que seu caso tornou-se uma disputa da oposição contra o governo. Confia que os petistas vão apoiá-lo no voto secreto. Espera que eles estejam jogando para a platéia. Aceitou que o senador João Pedro (AM) apoiasse sua condenação em voto aberto no Conselho de Ética em troca da promessa de ter o apoio dele no voto secreto.

Ao mesmo tempo em que pede apoio do Planalto contra a oposição, cultiva votos entre os oposicionistas. Nessa situação, o argumento não é político. Em alguns casos, baseia-se em relações pessoais, como as que mantém com Heráclito Fortes (DEM-PI). Em outros, no apoio de aliados, como a influência do senador José Sarney (PMDB-AP) junto a senadores do DEM, como Edson Lobão (MA) (leia mais na página 3). Outra aposta é no espírito de corpo. Confia que alguns senadores da oposição não vão sacrificá-lo porque correm o risco de ser alvos de denúncias mais adiante e precisarão do apoio do PMDB. 
 
Ameaças e palavrões

O clima de nervosismo contamina a família de Renan Calheiros. Ontem, Rodolfo, um dos filhos do senador, deu várias demonstrações de descontrole diante dos repórteres fotográficos que faziam plantão em frente à residência oficial da Presidência do Senado. Ao chegar em casa, virou o carro em direção aos fotógrafos que estavam sentados no meio-fio. Só desviou na última hora. Mais tarde, ao sair novamente, ofendeu os jornalistas com palavras e gestos obscenos. 
 
Análise da notícia
Todos de olho no painel

Todos os prognósticos sobre o julgamento de Renan Calheiros amanhã do Senado não passam de palpites. A verdade é que ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. Nem mesmo Renan ou seus adversários. O voto secreto é um convite à traição e os motivos que podem pesar na hora da decisão são muitos. Tome-se o instinto de sobrevivência, por exemplo. Um senador pode achar que o melhor é um acordo de proteção mútua pelo qual ninguém cassa ninguém, tanto faz quais sejam as acusações. Outro pode pensar que a melhor forma de preservar-se é livrar-se logo de Renan e mandar a crise e os holofotes para longe do Senado.

Um velho ditado no Congresso diz que lá “o mais bobo elegeu-se senador”. Com tantos suplentes em evidência, a frase foi atualizada. Diz-se que “o mais bobo virou senador sem ter nenhum voto”. Na verdade, os bobos estão longe do Senado. Quem julgará Renan são políticos experientes e cada um apertará o botão que achar mais conveniente para seu próprio futuro.

Esses eleitores tornam as previsões impossíveis. Ao passar por Renan no plenário, lhe dão um abraço e uma palavra animadora. Minutos depois, juram fidelidade aos líderes do partido, que defendem a cassação.

A falta de confiança é tanta que os dois lados escalaram “olheiros” para espiar o voto dos colegas. Espiões serão colocados perto dos senadores sob suspeita, para criar constrangimento e tornar mais difícil a dissidência. Mas certeza mesmo, só quando o resultado aparecer no painel eletrônico.

Gustavo Krieger
Correio Braziliense

A poucas horas da votação que vai decidir seu futuro, Renan investe pesado para convencer colegas a absolvê-lo no plenário. Aos adversários, manda um recado: não renuncia à Presidência do Senado
 
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), passou o dia ontem longe do Congresso. Fez da residência oficial o quartel-general da luta para preservar o mandato. A escolha de local é estratégica. Renan aposta no voto secreto para conseguir a absolvição na sessão plenária de amanhã. E para ganhar os votos que precisa, a discrição é fundamental. Ele baseia suas esperanças em dois tipos de eleitores envergonhados. O primeiro, são senadores da base governista que temem desgastar-se com suas bases se for revelado que votaram pela absolvição. O segundo, parlamentares da oposição que terão de trair a orientação das lideranças , que indicam o voto pela cassação.

Renan não revela sua lista de votos, embora não tenha trabalhado em outras coisa nas últimas semanas. Teme que qualquer vazamento reforce a pressão sobre os senadores. Seus aliados prevêem a vitória, mas por uma margem apertada. E também se preocupam com a possibilidade de traições. Reservadamente, reconhecem que o clima piorou muito nos últimos dias.

Ontem o senador mandou avisar mais uma vez que não pretende renunciar ou mesmo licenciar-se da Presidência do Senado. “Renunciar (à Presidência) seria uma confissão de culpa e uma traição aos 51 votos que recebi dos senadores quando fui reeleito para comandar a Casa”, avisou. As pressões pela renúncia aumentaram muito nos últimos dias e vieram também de senadores aliados. Parte da bancada do PT e mesmo senadores do PMDB temem que a crise continue caso Renan seja absolvido. Já há mais três representações contra Renan no Conselho de Ética e a imprensa mantém investigações, à procura de novas denúncias. Aos poucos, a crise respinga em outros senadores e ameaça a agenda legislativa do Palácio do Planalto. O afastamento dele da Presidência poderia desviar o foco do Senado e esfriar a crise.

Até aqui, Renan não quer discutir o assunto. Acha que a renúncia seria um sinal de fraqueza e poderia prejudicá-lo no julgamento. A aliados, tem dito que só continua vivo politicamente porque não se afastou da Presidência. Nas conversas de ontem com senadores, deixou clara sua preocupação com o resultado. Acha que mais que vencer, precisa fazê-lo com uma margem que lhe garanta condições de permanecer à frente do Senado e encerrar as outras representações.

Discursos
Para sobreviver, o presidente do Senado adotou diferentes estratégias e discursos para cada tipo de eleitor. Uma de suas preocupações é o PT. O partido tem 12 senadores e é fundamental para a definição do resultado. Pelo menos dois petistas votarão pela cassação e as especulações são que esse número poderá chegar a cinco. Ontem, a líder do partido, Ideli Salvatti (SC), admitiu que as defecções são inevitáveis. “Os únicos partidos que votarão unidos no julgamento de Renan são os que só têm um senador”, disse. Mas ela não quer que o PT seja considerado o fiel da balança nessa decisão. “Se vai haver traições em todos os partidos, por que são as do PT que vão decidir?”

Renan aposta na influência do Palácio do Planalto para dobrar os petistas mais resistentes. Argumenta que seu caso tornou-se uma disputa da oposição contra o governo. Confia que os petistas vão apoiá-lo no voto secreto. Espera que eles estejam jogando para a platéia. Aceitou que o senador João Pedro (AM) apoiasse sua condenação em voto aberto no Conselho de Ética em troca da promessa de ter o apoio dele no voto secreto.

Ao mesmo tempo em que pede apoio do Planalto contra a oposição, cultiva votos entre os oposicionistas. Nessa situação, o argumento não é político. Em alguns casos, baseia-se em relações pessoais, como as que mantém com Heráclito Fortes (DEM-PI). Em outros, no apoio de aliados, como a influência do senador José Sarney (PMDB-AP) junto a senadores do DEM, como Edson Lobão (MA) (leia mais na página 3). Outra aposta é no espírito de corpo. Confia que alguns senadores da oposição não vão sacrificá-lo porque correm o risco de ser alvos de denúncias mais adiante e precisarão do apoio do PMDB. 
 
Ameaças e palavrões

O clima de nervosismo contamina a família de Renan Calheiros. Ontem, Rodolfo, um dos filhos do senador, deu várias demonstrações de descontrole diante dos repórteres fotográficos que faziam plantão em frente à residência oficial da Presidência do Senado. Ao chegar em casa, virou o carro em direção aos fotógrafos que estavam sentados no meio-fio. Só desviou na última hora. Mais tarde, ao sair novamente, ofendeu os jornalistas com palavras e gestos obscenos. 
 
Análise da notícia
Todos de olho no painel

Todos os prognósticos sobre o julgamento de Renan Calheiros amanhã do Senado não passam de palpites. A verdade é que ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. Nem mesmo Renan ou seus adversários. O voto secreto é um convite à traição e os motivos que podem pesar na hora da decisão são muitos. Tome-se o instinto de sobrevivência, por exemplo. Um senador pode achar que o melhor é um acordo de proteção mútua pelo qual ninguém cassa ninguém, tanto faz quais sejam as acusações. Outro pode pensar que a melhor forma de preservar-se é livrar-se logo de Renan e mandar a crise e os holofotes para longe do Senado.

Um velho ditado no Congresso diz que lá “o mais bobo elegeu-se senador”. Com tantos suplentes em evidência, a frase foi atualizada. Diz-se que “o mais bobo virou senador sem ter nenhum voto”. Na verdade, os bobos estão longe do Senado. Quem julgará Renan são políticos experientes e cada um apertará o botão que achar mais conveniente para seu próprio futuro.

Esses eleitores tornam as previsões impossíveis. Ao passar por Renan no plenário, lhe dão um abraço e uma palavra animadora. Minutos depois, juram fidelidade aos líderes do partido, que defendem a cassação.

A falta de confiança é tanta que os dois lados escalaram “olheiros” para espiar o voto dos colegas. Espiões serão colocados perto dos senadores sob suspeita, para criar constrangimento e tornar mais difícil a dissidência. Mas certeza mesmo, só quando o resultado aparecer no painel eletrônico.