antigas Publicado: 4/12/2007 | 08:31

Planalto mira aliados contrários ao imposto

Leandro Colon e Gustavo Krieger
Correio Braziliense

Governo tenta até o último minuto convencer os senadores que insistem em votar contra a contribuição, mas admitem negociar
 
Ciente de que o placar para aprovar a prorrogação da CPMF será apertado, o governo mira um olho na base aliada no Senado, e direciona o outro na oposição. Aposta que pode conseguir um voto aqui outro acolá nesta batalha pelo imposto. No início da noite de ontem, o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, apareceu no Ministério dos Transportes. Motivo: os votos dos senadores do PR.

Múcio reuniu-se com o ministro da pasta, Alfredo Nascimento (PR), e a bancada do partido no Senado: João Ribeiro (TO), Magno Malta (ES), Expedito Júnior (RO) e César Borges (BA). Os dois primeiros já anunciaram voto a favor do imposto. O problema reside nos demais. Expedito e Borges resistem. Ambos disseram aos dois ministros que estão dispostos a votar ao lado da oposição. O primeiro foi mais enfático. Para diminuir o mal-estar, disse que pretende ficar na base do governo, mesmo votando agora contra a orientação do Palácio do Planalto. Já Borges foi mais brando, e manteve uma janela de negociação, apesar de passar o recado de que, por enquanto, votará pelo fim do tributo.

No esforço para ganhar o voto de Expedito Júnior, aliás, Nascimento convidou o governador de Rondônia, Ivo Cassol, para um encontro ontem. Prometeu esforçar-se para “estreitar a relação” dele com o Planalto. Cassol é um dos governadores mais distantes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com a expectativa de votar ainda nesta quinta-feira a CPMF, o governo torce, por exemplo, com a participação de Lula na corrida por votos. Múcio disse ontem que chegou a pedir que Lula tentasse alterar sua agenda da próxima semana, quando viajará ao exterior. Em vão. Mesmo assim, o presidente ficou de ajudar nos próximos dias. Uma reunião entre ele e senadores do Rio Grande do Sul pode ser realizada nesta semana no Planalto. “Ele (Lula) conhece algumas preocupações que nós temos, eu solicitei que nos ajudasse”, afirmou o ministro. “Eu estava querendo que ele não viajasse, mas o chefe resolve. O presidente, de qualquer lugar que estiver do país, pode conversar com as pessoas”, ressaltou.

Negociação
Na reunião de coordenação política feita ontem pela manhã, Lula e ministros avaliaram o cenário da CPMF. Identificaram problemas na base aliada, como César Borges e Romeu Tuma (PTB-SP), e estudaram os mecanismos para convencê-los a votar pela CPMF. Múcio contou, por exemplo, que já conversou com Tuma. Admitiu que a negociação no Senado é mais trabalhosa do que na Câmara, onde a prorrogação do imposto passou com tranqüilidade. “A margem é muito pequena de um lado e do outro (pela aprovação da CPMF). Eu estou acostumado com as margens da Câmara (o ministro é deputado), nunca na minha vida fiz conta de um voto, dois votos. No Senado é completamente diferente. Até lá, vamos ter muitas preocupações”, afirmou.

Além de garimpar votos ao pé do ouvido, o palácio espera que a pressão dos governadores influencie nos votos de alguns senadores. Aliado de Lula, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), por exemplo, deve desembarcar entre hoje e amanhã em Brasília. Ele é considerado peça fundamental na negociação com o PR. Outro apelo é aos prefeitos. Boa parte da arrecadação da CPMF é repassada aos municípios. Se o imposto cair, esse repasse pode acabar, alegam governistas.

Outra arma é o lançamento do chamado PAC da Saúde amanhã no Palácio do Planalto, conforme antecipou o Correio na última sexta-feira. O programa prevê um investimento de R$ 24 bilhões na saúde até 2011. Parte do dinheiro vem da CPMF. O governo quer usar o evento de amanhã como pressão final em cima dos indecisos. Para isso, convidou governadores, inclusive os do PSDB, em busca de ainda conquistar alguns votos na bancada tucana. 
 
Skaf reage a Mantega
O presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, rebateu ontem as afirmações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o apoio da entidade ao fim da cobrança da CPMF seria um “tiro no pé”. “A CPMF é que é um tiro no peito da sociedade”, afirmou.

Skaf criticou o adiamento do anúncio da nova política industrial do governo por conta das incertezas da prorrogação da contribuição. “De que política estamos falando, de uma que saiu da cartola às vésperas da votação da CPMF?”, questionou. O presidente da Fiesp argumentou que o assunto não pode ser usado como moeda de troca nesse momento.

“A política industrial é para o país, não para os empresários”, destacou. Ele negou, porém, ter interpretado as declarações do ministro sobre o “tiro no pé” como uma ameaça ao setor. “Eu diria que se trata de uma posição infeliz”, contemporizou.

Segundo Skaf, a extinção da CPMF será a única oportunidade de se obter uma desoneração fiscal, já que a proposta de reforma do governo não contempla a redução da carga tributária. “O projeto trata de temas importantes, como o fim da guerra fiscal e a simplificação, mas o fim da CPMF é talvez a única chance de a sociedade conseguir a redução de impostos”, defendeu.

O presidente da Fiesp também respondeu às insinuações de Mantega de que não teria representatividade para tratar da questão. “Fui reeleito com 99,5% de apoio e tenho um mandato de quatro anos”, ressaltou. De acordo com Skaf, a posição da entidade sobre a eliminação da CPMF foi debatida e aprovada por unanimidade.

Leandro Colon e Gustavo Krieger
Correio Braziliense

Governo tenta até o último minuto convencer os senadores que insistem em votar contra a contribuição, mas admitem negociar
 
Ciente de que o placar para aprovar a prorrogação da CPMF será apertado, o governo mira um olho na base aliada no Senado, e direciona o outro na oposição. Aposta que pode conseguir um voto aqui outro acolá nesta batalha pelo imposto. No início da noite de ontem, o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, apareceu no Ministério dos Transportes. Motivo: os votos dos senadores do PR.

Múcio reuniu-se com o ministro da pasta, Alfredo Nascimento (PR), e a bancada do partido no Senado: João Ribeiro (TO), Magno Malta (ES), Expedito Júnior (RO) e César Borges (BA). Os dois primeiros já anunciaram voto a favor do imposto. O problema reside nos demais. Expedito e Borges resistem. Ambos disseram aos dois ministros que estão dispostos a votar ao lado da oposição. O primeiro foi mais enfático. Para diminuir o mal-estar, disse que pretende ficar na base do governo, mesmo votando agora contra a orientação do Palácio do Planalto. Já Borges foi mais brando, e manteve uma janela de negociação, apesar de passar o recado de que, por enquanto, votará pelo fim do tributo.

No esforço para ganhar o voto de Expedito Júnior, aliás, Nascimento convidou o governador de Rondônia, Ivo Cassol, para um encontro ontem. Prometeu esforçar-se para “estreitar a relação” dele com o Planalto. Cassol é um dos governadores mais distantes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com a expectativa de votar ainda nesta quinta-feira a CPMF, o governo torce, por exemplo, com a participação de Lula na corrida por votos. Múcio disse ontem que chegou a pedir que Lula tentasse alterar sua agenda da próxima semana, quando viajará ao exterior. Em vão. Mesmo assim, o presidente ficou de ajudar nos próximos dias. Uma reunião entre ele e senadores do Rio Grande do Sul pode ser realizada nesta semana no Planalto. “Ele (Lula) conhece algumas preocupações que nós temos, eu solicitei que nos ajudasse”, afirmou o ministro. “Eu estava querendo que ele não viajasse, mas o chefe resolve. O presidente, de qualquer lugar que estiver do país, pode conversar com as pessoas”, ressaltou.

Negociação
Na reunião de coordenação política feita ontem pela manhã, Lula e ministros avaliaram o cenário da CPMF. Identificaram problemas na base aliada, como César Borges e Romeu Tuma (PTB-SP), e estudaram os mecanismos para convencê-los a votar pela CPMF. Múcio contou, por exemplo, que já conversou com Tuma. Admitiu que a negociação no Senado é mais trabalhosa do que na Câmara, onde a prorrogação do imposto passou com tranqüilidade. “A margem é muito pequena de um lado e do outro (pela aprovação da CPMF). Eu estou acostumado com as margens da Câmara (o ministro é deputado), nunca na minha vida fiz conta de um voto, dois votos. No Senado é completamente diferente. Até lá, vamos ter muitas preocupações”, afirmou.

Além de garimpar votos ao pé do ouvido, o palácio espera que a pressão dos governadores influencie nos votos de alguns senadores. Aliado de Lula, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), por exemplo, deve desembarcar entre hoje e amanhã em Brasília. Ele é considerado peça fundamental na negociação com o PR. Outro apelo é aos prefeitos. Boa parte da arrecadação da CPMF é repassada aos municípios. Se o imposto cair, esse repasse pode acabar, alegam governistas.

Outra arma é o lançamento do chamado PAC da Saúde amanhã no Palácio do Planalto, conforme antecipou o Correio na última sexta-feira. O programa prevê um investimento de R$ 24 bilhões na saúde até 2011. Parte do dinheiro vem da CPMF. O governo quer usar o evento de amanhã como pressão final em cima dos indecisos. Para isso, convidou governadores, inclusive os do PSDB, em busca de ainda conquistar alguns votos na bancada tucana. 
 
Skaf reage a Mantega
O presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, rebateu ontem as afirmações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o apoio da entidade ao fim da cobrança da CPMF seria um “tiro no pé”. “A CPMF é que é um tiro no peito da sociedade”, afirmou.

Skaf criticou o adiamento do anúncio da nova política industrial do governo por conta das incertezas da prorrogação da contribuição. “De que política estamos falando, de uma que saiu da cartola às vésperas da votação da CPMF?”, questionou. O presidente da Fiesp argumentou que o assunto não pode ser usado como moeda de troca nesse momento.

“A política industrial é para o país, não para os empresários”, destacou. Ele negou, porém, ter interpretado as declarações do ministro sobre o “tiro no pé” como uma ameaça ao setor. “Eu diria que se trata de uma posição infeliz”, contemporizou.

Segundo Skaf, a extinção da CPMF será a única oportunidade de se obter uma desoneração fiscal, já que a proposta de reforma do governo não contempla a redução da carga tributária. “O projeto trata de temas importantes, como o fim da guerra fiscal e a simplificação, mas o fim da CPMF é talvez a única chance de a sociedade conseguir a redução de impostos”, defendeu.

O presidente da Fiesp também respondeu às insinuações de Mantega de que não teria representatividade para tratar da questão. “Fui reeleito com 99,5% de apoio e tenho um mandato de quatro anos”, ressaltou. De acordo com Skaf, a posição da entidade sobre a eliminação da CPMF foi debatida e aprovada por unanimidade.