antigas Publicado: 2/08/2007 | 09:50

CPI ABRE A CAIXA-PRETA

Fernanda Odilla e Sandro Lima
Correio Braziliense

Aeronáutica busca manetes do Airbus da TAM para explicar o que ocorreu na pista de Congonhas
 
Em uma tumultuada sessão na CPI do Apagão Aéreo da Câmara dos Deputados, vieram a público os instantes finais do vôo 3054 da TAM, que protagonizou o mais grave acidente aéreo do país, em 17 de julho. Foram 25 segundos entre o toque na pista, a tentativa desesperada de desacelerar e virar o avião até a explosão. Os diálogos do piloto e do co-piloto foram lidos ontem, antes dos deputados se reunirem a portas fechadas com o chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), brigadeiro Jorge Kersul Filho. Enquanto mostrava gráficos sobre o funcionamento de equipamentos como as turbinas e freios registrados por uma das caixas-pretas, o brigadeiro revelou que investigadores do acidente estão revirando os escombros em São Paulo, em busca dos manetes do Airbus A-320 que explodiu com 187 pessoas a bordo.

Os manetes são considerados hoje a chave para explicar por que o avião não conseguiu parar na pista. A caixa-preta dos diálogos revelou a tentativa dos pilotos de frear a aeronave, sem um reverso e com os spoilers — freio aerodinâmico localizado nas asas — inoperantes. A outra caixa-preta, com análise dos equipamentos, indica que a turbina direita estava acelerada e que um dos manetes não estava no ponto neutro (idle), posição obrigatória para pouso. Revela ainda, de acordo com os deputados, que o piloto tentou usar os pés para frear.

Na sessão secreta, Kersul admitiu que os computadores podem não ter registrado a verdadeira posição dos manetes, por uma eventual falha de comunicação. Por isso, procura-se o que restou das alavancas, em busca de algum registro ou a marca da última posição. Ele disse ainda que as condições da pista também continuam sendo analisadas. Durante os minutos finais do pouso, os controladores da torre informam duas vezes que a pista estava molhada e escorregadia.

A transcrição dos diálogos mostra que o piloto tentou frear o avião, mas não conseguiu reduzir a velocidade. “Desacelera, desacelera”, disse o co-piloto. O comandante respondeu: “Não consigo, não consigo”. Antes, a caixa-preta registrou o manuseio do manete e o aumento do barulho do motor. Antes dos registros de gritos e de uma voz feminina, o comandante tentou virar o avião. A decisão de divulgar o material não agradou ao chefe do Cenipa, que defendia o sigilo das informações.

Responsabilidade
O deputado Miguel Martini (PHS-MG) levantou a dúvida se o piloto, sabendo que estava com o reverso direito inoperante, deixaria o manete daquela turbina em posição para acelerar. Às 18h43, depois de informar uma comissária de bordo que o pouso seria em Congonhas, o piloto lembrou ao co-piloto que a aeronave estava apenas com o reverso da esquerda funcionando. Vinte e oito minutos depois, durante o procedimento de aterrissagem , o co-piloto confirma que somente um reverso foi acionado. “Isso me parece mais pane da aeronave que falha dos pilotos”, opinou Martini, ex-controlador de vôo. A interpretação de Carlos William (PTC-MG) é oposta. Para ele, “a falha foi humana”.

Mas a maioria dos integrantes da CPI preferiu a cautela ao falar das causas do acidente. “Qualquer avaliação de que houve apenas falha humana é precipitação e não condiz com a realidade da investigação”, avaliou Marco Maia (PT-RS), relator da CPI. O presidente interino da comissão, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse que é preciso mais informações. “Não dá para ter conclusão de nada. Qualquer hipótese é prematura”, comentou.

A sessão foi interrompida para os deputados homenagearem o colega Julio Redecker (PSDB-RS), uma das vítimas do acidente. Os deputados queriam marcar o retorno do brigadeiro Jorge Kerson, na próxima terça-feira, para que ele continuasse a explicar as possíveis causas do acidente e para ouvirem o áudio dos últimos minutos na cabine do avião da TAM. Kersul pediu mais tempo para trabalhar. “Nos deram prazo de 48 horas, cumprimos a ordem pois havia até ameaça de busca e apreensão. Apresentamos o que temos”, disse o brigadeiro, ao tentar justificar por que não levou o sistema para os deputados ouvirem o diálogo nem apresentou dados mais detalhados.

Avanço
Com o conteúdo da conversa dos pilotos na mão e com as explicações da Aeronáutica, a CPI do Apagão Aéreo espera avançar nas investigações com os depoimentos de hoje. Foram convocados os presidente da empresa aérea, Marco Antonio Bologna, e o representante da Airbus no Brasil, Mário Sampaio. O relator quer saber sobre os procedimentos da TAM ao se deparar com problemas nas aeronaves e pedirá o detalhamento dos serviços de manutenção. Para a fabricante, as perguntas vão girar sobre as causas de acidentes anteriores e sobre o funcionamento dos equipamentos do Airbus A-320.

Antes do depoimento do brigadeiro Kersul, os deputados aprovaram ainda a convocação do ministro da Defesa, Nelson Jobim. A data ainda não foi marcada. A CPI quer que o ministro fale sobre o acidente com o avião da TAM em São Paulo no último dia 17 e também apresente as medidas para conter a crise aérea do país. Ainda falta marcar a data.

18h45

Co-piloto
TAM em aproximação final, a duas milhas de distância, poderia confirmar condições?

18h47

Torre
a pista Está molhada e escorregadia....
Eu relatarei quando a pista 35 estiver livre, 3054


Torre
TAM 3054, 35 à esquerda, autorizado para pousar. A pista está molhada e escorregadia. Pouso está liberado


Co-Piloto
Pouso está liberado. Pouso verde, vôo manual


Co-piloto
Reverso número um apenas. Spoiler (freio aerodinâmico) nada.


Co-piloto
Ai


Piloto
Olhe isso


Co-piloto
Desacelera, desacelera


Piloto
Eu não consigo, eu não consigo
Oh, meu Deus...
Oh, meu Deus


Co-piloto
Vai, vai...
vira, vira
Vira, vira pára...
Não, vira, vira

(Som de barulhos de batida)

Fernanda Odilla e Sandro Lima
Correio Braziliense

Aeronáutica busca manetes do Airbus da TAM para explicar o que ocorreu na pista de Congonhas
 
Em uma tumultuada sessão na CPI do Apagão Aéreo da Câmara dos Deputados, vieram a público os instantes finais do vôo 3054 da TAM, que protagonizou o mais grave acidente aéreo do país, em 17 de julho. Foram 25 segundos entre o toque na pista, a tentativa desesperada de desacelerar e virar o avião até a explosão. Os diálogos do piloto e do co-piloto foram lidos ontem, antes dos deputados se reunirem a portas fechadas com o chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), brigadeiro Jorge Kersul Filho. Enquanto mostrava gráficos sobre o funcionamento de equipamentos como as turbinas e freios registrados por uma das caixas-pretas, o brigadeiro revelou que investigadores do acidente estão revirando os escombros em São Paulo, em busca dos manetes do Airbus A-320 que explodiu com 187 pessoas a bordo.

Os manetes são considerados hoje a chave para explicar por que o avião não conseguiu parar na pista. A caixa-preta dos diálogos revelou a tentativa dos pilotos de frear a aeronave, sem um reverso e com os spoilers — freio aerodinâmico localizado nas asas — inoperantes. A outra caixa-preta, com análise dos equipamentos, indica que a turbina direita estava acelerada e que um dos manetes não estava no ponto neutro (idle), posição obrigatória para pouso. Revela ainda, de acordo com os deputados, que o piloto tentou usar os pés para frear.

Na sessão secreta, Kersul admitiu que os computadores podem não ter registrado a verdadeira posição dos manetes, por uma eventual falha de comunicação. Por isso, procura-se o que restou das alavancas, em busca de algum registro ou a marca da última posição. Ele disse ainda que as condições da pista também continuam sendo analisadas. Durante os minutos finais do pouso, os controladores da torre informam duas vezes que a pista estava molhada e escorregadia.

A transcrição dos diálogos mostra que o piloto tentou frear o avião, mas não conseguiu reduzir a velocidade. “Desacelera, desacelera”, disse o co-piloto. O comandante respondeu: “Não consigo, não consigo”. Antes, a caixa-preta registrou o manuseio do manete e o aumento do barulho do motor. Antes dos registros de gritos e de uma voz feminina, o comandante tentou virar o avião. A decisão de divulgar o material não agradou ao chefe do Cenipa, que defendia o sigilo das informações.

Responsabilidade
O deputado Miguel Martini (PHS-MG) levantou a dúvida se o piloto, sabendo que estava com o reverso direito inoperante, deixaria o manete daquela turbina em posição para acelerar. Às 18h43, depois de informar uma comissária de bordo que o pouso seria em Congonhas, o piloto lembrou ao co-piloto que a aeronave estava apenas com o reverso da esquerda funcionando. Vinte e oito minutos depois, durante o procedimento de aterrissagem , o co-piloto confirma que somente um reverso foi acionado. “Isso me parece mais pane da aeronave que falha dos pilotos”, opinou Martini, ex-controlador de vôo. A interpretação de Carlos William (PTC-MG) é oposta. Para ele, “a falha foi humana”.

Mas a maioria dos integrantes da CPI preferiu a cautela ao falar das causas do acidente. “Qualquer avaliação de que houve apenas falha humana é precipitação e não condiz com a realidade da investigação”, avaliou Marco Maia (PT-RS), relator da CPI. O presidente interino da comissão, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse que é preciso mais informações. “Não dá para ter conclusão de nada. Qualquer hipótese é prematura”, comentou.

A sessão foi interrompida para os deputados homenagearem o colega Julio Redecker (PSDB-RS), uma das vítimas do acidente. Os deputados queriam marcar o retorno do brigadeiro Jorge Kerson, na próxima terça-feira, para que ele continuasse a explicar as possíveis causas do acidente e para ouvirem o áudio dos últimos minutos na cabine do avião da TAM. Kersul pediu mais tempo para trabalhar. “Nos deram prazo de 48 horas, cumprimos a ordem pois havia até ameaça de busca e apreensão. Apresentamos o que temos”, disse o brigadeiro, ao tentar justificar por que não levou o sistema para os deputados ouvirem o diálogo nem apresentou dados mais detalhados.

Avanço
Com o conteúdo da conversa dos pilotos na mão e com as explicações da Aeronáutica, a CPI do Apagão Aéreo espera avançar nas investigações com os depoimentos de hoje. Foram convocados os presidente da empresa aérea, Marco Antonio Bologna, e o representante da Airbus no Brasil, Mário Sampaio. O relator quer saber sobre os procedimentos da TAM ao se deparar com problemas nas aeronaves e pedirá o detalhamento dos serviços de manutenção. Para a fabricante, as perguntas vão girar sobre as causas de acidentes anteriores e sobre o funcionamento dos equipamentos do Airbus A-320.

Antes do depoimento do brigadeiro Kersul, os deputados aprovaram ainda a convocação do ministro da Defesa, Nelson Jobim. A data ainda não foi marcada. A CPI quer que o ministro fale sobre o acidente com o avião da TAM em São Paulo no último dia 17 e também apresente as medidas para conter a crise aérea do país. Ainda falta marcar a data.

18h45

Co-piloto
TAM em aproximação final, a duas milhas de distância, poderia confirmar condições?

18h47

Torre
a pista Está molhada e escorregadia....
Eu relatarei quando a pista 35 estiver livre, 3054


Torre
TAM 3054, 35 à esquerda, autorizado para pousar. A pista está molhada e escorregadia. Pouso está liberado


Co-Piloto
Pouso está liberado. Pouso verde, vôo manual


Co-piloto
Reverso número um apenas. Spoiler (freio aerodinâmico) nada.


Co-piloto
Ai


Piloto
Olhe isso


Co-piloto
Desacelera, desacelera


Piloto
Eu não consigo, eu não consigo
Oh, meu Deus...
Oh, meu Deus


Co-piloto
Vai, vai...
vira, vira
Vira, vira pára...
Não, vira, vira

(Som de barulhos de batida)