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Publicado: 7/04/2009 | 10:24
O capitalismo e as finanças
O equívoco de diagnóstico e o viés ideológico devem ser evitados neste momento em que se pretende, em rápidas reuniões onde sobra poder e escasseiam ideias, reformar a "arquitetura do capitalismo", como se ele fosse uma coisa e não um processo. "Capitalismo" é o nome que se dá a uma organização social extremamente adaptativa que o homem descobriu no seu longo caminho desde que algumas famílias, há 200.000 anos, tocadas pela falta de alimentos, deixaram a África. Chegou-se a ela pela seleção histórica dentre as inúmeras formas de organização percorridas pelo homem na sua procura de uma que permitisse acomodar, simultaneamente, a eficácia produtiva e a liberdade individual. Ela tem três características: 1) não é plenamente satisfatória porque, quando deixada a si mesma, o nível de atividade (e, portanto, o nível de produção e do emprego) não é estável e, sendo um mecanismo que explora fortemente a competição, tende a acentuar a desigualdade entre os homens; 2) não é natural, isto é, não tem nada a ver com a "natureza humana" (seja lá o que isso for); e 3) felizmente, não é imortal. É, portanto, passível de aperfeiçoamentos. A história do século XX mostra um fato trágico. Cada vez que se tentou melhorá-la utilizando as ideias de cérebros peregrinos que imaginaram construir uma "sociedade solidária com um novo homem", a experiência terminou muito mal. Primeiro, perdeu-se a eficácia produtiva. Depois, atribuindo o fracasso à resistência do homem, tomou-se dele a liberdade. O desenrolar dessas experiências foi sempre o mesmo. O poder centralizado que não consegue impor sua "organização" pela resistência dos homens que se recusam a ir ao paraíso, não vê nela suas dificuldades e, logo, exige mais poder para convencê-los. O resultado final foi sempre a ineficiência econômica precedida por um regime de terror político. Hoje a América Latina está no "estado da arte" na generosa busca de novas formas de organização social. Experiências se realizam com os Castros, com Chavez, com Correa e com Morales (e talvez com Lugo). Por que recusar "a priori" a hipótese que talvez um deles passará à história como tendo "descoberto" a "sociedade solidária e construído o novo homem" que o mundo copiará? Infelizmente, nenhum deles estará no G-20. Logo, este há de contentar-se com projetos menos ambiciosos: consertar os males que a intermediação financeira produziu no sistema produtivo ao qual deveria servir. Desde meados do século XVII é evidente que cada vez que as finanças dominaram a produção, em lugar de servi-la, produziu-se o caos. O mundo vive hoje uma crise profunda que encerrou um ciclo de rapidíssima expansão. Entre 2003 e 2007 o PIB mundial real cresceu à taxa de 4,6% ao ano (contra 2,9% entre 1990-2002), a taxa de inflação nos países desenvolvidos caiu para 2,0% (contra 2,4% entre 1990-2002) e o volume de comércio cresceu 8% ao ano (contra 6,2% entre 1990-2002). Simplificando ao máximo a origem dessa expansão podemos dizer que ela foi produzida: 1) pela disposição dos EUA de absorver os excedentes produzidos pelo resto do mundo, acumulando, entre 2003 e 2008, um déficit comercial de US$ 4,5 trilhões; 2) pela expansão dos países emergentes beneficiados pelo enorme aumento de preços das matérias primas (alimentos, petróleo) produzido pela desvalorização do dólar (que é a unidade de medida no comércio internacional), pela transformação da China de importante exportadora em substancial importadora daqueles produtos e pelo rápido crescimento da demanda frente a uma oferta relativamente inelástica no curto prazo; e 3) pela criação de enorme liquidez para financiar todo esse movimento através de "inovações" financeiras, supostamente capazes de estimar os "riscos" de qualquer papel e diluí-los em "derivativos". As consequências destas "inovações", no caso de uma quebra abrupta de confiança, nunca despertou o menor interesse nos órgãos supostamente reguladores (Bancos Centrais, agências de risco e auditores privados). É preciso reconhecer que, enquanto durou, o processo foi imensamente benéfico aos países emergentes. Suas frequentes dificuldades externas foram resolvidas pela expansão dos preços de suas exportações nominadas em dólares desvalorizados, pelo aumento da quantidade exportada e pela baixa taxa de juros incidente sobre suas dívidas externas fixadas em dólares nominalmente constantes. O caso brasileiro é paradigmático. Em 2002 estávamos "quebrados" (fomos ao FMI para não declarar um "default" durante o processo eleitoral). A dívida externa do governo era igual a 22 meses de exportação e as reservas não chegavam a US$ 20 bilhões. Em 2008 a dívida do governo era igual a quanto meses de exportação e tínhamos quase US$ 200 bilhões de reservas! Foi isso o resultado de um significativo esforço exportador do Brasil? Claramente não, como se vê na tabela ao lado, onde se registra a participação do valor de nossas exportações com relação às exportações mundiais e se compara com a China, onde o esforço foi extraordinário. Esses números são trágicos: fingimos estar correndo apenas para ficar no mesmo lugar... Antes de tentar mudar a arquitetura do "capitalismo" é preciso alertar que não se deve confundi-lo com as patifarias do setor financeiro. Estas foram feitas sob o nariz de um Estado omisso e é este que deve ser ativado para o controle mais eficiente das finanças. Ele, entretanto, não deve inibir as "inovações" que foram e são fundamentais para a expansão da economia real. A eficácia da economia de mercado (o capitalismo) continua a mesma e os seus problemas também. Estes não serão resolvidos pelo G-20, mas pela própria evolução histórica... Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.
Brasil - Claudio de Moura Castro
Brasil
Autor(es): Antonio Delfim Netto
Valor Econômico - 07/04/2009
O equívoco de diagnóstico e o viés ideológico devem ser evitados neste momento em que se pretende, em rápidas reuniões onde sobra poder e escasseiam ideias, reformar a "arquitetura do capitalismo", como se ele fosse uma coisa e não um processo. "Capitalismo" é o nome que se dá a uma organização social extremamente adaptativa que o homem descobriu no seu longo caminho desde que algumas famílias, há 200.000 anos, tocadas pela falta de alimentos, deixaram a África. Chegou-se a ela pela seleção histórica dentre as inúmeras formas de organização percorridas pelo homem na sua procura de uma que permitisse acomodar, simultaneamente, a eficácia produtiva e a liberdade individual. Ela tem três características: 1) não é plenamente satisfatória porque, quando deixada a si mesma, o nível de atividade (e, portanto, o nível de produção e do emprego) não é estável e, sendo um mecanismo que explora fortemente a competição, tende a acentuar a desigualdade entre os homens; 2) não é natural, isto é, não tem nada a ver com a "natureza humana" (seja lá o que isso for); e 3) felizmente, não é imortal. É, portanto, passível de aperfeiçoamentos. A história do século XX mostra um fato trágico. Cada vez que se tentou melhorá-la utilizando as ideias de cérebros peregrinos que imaginaram construir uma "sociedade solidária com um novo homem", a experiência terminou muito mal. Primeiro, perdeu-se a eficácia produtiva. Depois, atribuindo o fracasso à resistência do homem, tomou-se dele a liberdade. O desenrolar dessas experiências foi sempre o mesmo. O poder centralizado que não consegue impor sua "organização" pela resistência dos homens que se recusam a ir ao paraíso, não vê nela suas dificuldades e, logo, exige mais poder para convencê-los. O resultado final foi sempre a ineficiência econômica precedida por um regime de terror político. Hoje a América Latina está no "estado da arte" na generosa busca de novas formas de organização social. Experiências se realizam com os Castros, com Chavez, com Correa e com Morales (e talvez com Lugo). Por que recusar "a priori" a hipótese que talvez um deles passará à história como tendo "descoberto" a "sociedade solidária e construído o novo homem" que o mundo copiará? Infelizmente, nenhum deles estará no G-20. Logo, este há de contentar-se com projetos menos ambiciosos: consertar os males que a intermediação financeira produziu no sistema produtivo ao qual deveria servir. Desde meados do século XVII é evidente que cada vez que as finanças dominaram a produção, em lugar de servi-la, produziu-se o caos. O mundo vive hoje uma crise profunda que encerrou um ciclo de rapidíssima expansão. Entre 2003 e 2007 o PIB mundial real cresceu à taxa de 4,6% ao ano (contra 2,9% entre 1990-2002), a taxa de inflação nos países desenvolvidos caiu para 2,0% (contra 2,4% entre 1990-2002) e o volume de comércio cresceu 8% ao ano (contra 6,2% entre 1990-2002). Simplificando ao máximo a origem dessa expansão podemos dizer que ela foi produzida: 1) pela disposição dos EUA de absorver os excedentes produzidos pelo resto do mundo, acumulando, entre 2003 e 2008, um déficit comercial de US$ 4,5 trilhões; 2) pela expansão dos países emergentes beneficiados pelo enorme aumento de preços das matérias primas (alimentos, petróleo) produzido pela desvalorização do dólar (que é a unidade de medida no comércio internacional), pela transformação da China de importante exportadora em substancial importadora daqueles produtos e pelo rápido crescimento da demanda frente a uma oferta relativamente inelástica no curto prazo; e 3) pela criação de enorme liquidez para financiar todo esse movimento através de "inovações" financeiras, supostamente capazes de estimar os "riscos" de qualquer papel e diluí-los em "derivativos". As consequências destas "inovações", no caso de uma quebra abrupta de confiança, nunca despertou o menor interesse nos órgãos supostamente reguladores (Bancos Centrais, agências de risco e auditores privados). É preciso reconhecer que, enquanto durou, o processo foi imensamente benéfico aos países emergentes. Suas frequentes dificuldades externas foram resolvidas pela expansão dos preços de suas exportações nominadas em dólares desvalorizados, pelo aumento da quantidade exportada e pela baixa taxa de juros incidente sobre suas dívidas externas fixadas em dólares nominalmente constantes. O caso brasileiro é paradigmático. Em 2002 estávamos "quebrados" (fomos ao FMI para não declarar um "default" durante o processo eleitoral). A dívida externa do governo era igual a 22 meses de exportação e as reservas não chegavam a US$ 20 bilhões. Em 2008 a dívida do governo era igual a quanto meses de exportação e tínhamos quase US$ 200 bilhões de reservas! Foi isso o resultado de um significativo esforço exportador do Brasil? Claramente não, como se vê na tabela ao lado, onde se registra a participação do valor de nossas exportações com relação às exportações mundiais e se compara com a China, onde o esforço foi extraordinário. Esses números são trágicos: fingimos estar correndo apenas para ficar no mesmo lugar... Antes de tentar mudar a arquitetura do "capitalismo" é preciso alertar que não se deve confundi-lo com as patifarias do setor financeiro. Estas foram feitas sob o nariz de um Estado omisso e é este que deve ser ativado para o controle mais eficiente das finanças. Ele, entretanto, não deve inibir as "inovações" que foram e são fundamentais para a expansão da economia real. A eficácia da economia de mercado (o capitalismo) continua a mesma e os seus problemas também. Estes não serão resolvidos pelo G-20, mas pela própria evolução histórica... Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.
Brasil - Claudio de Moura Castro
Brasil
Autor(es): Antonio Delfim Netto
Valor Econômico - 07/04/2009