antigas Publicado: 11/08/2008 | 09:21

Periferia concentra trabalhador privado

Mariana Flores
Correio Braziliense

Com salários médios menores que os dos servidores, funcionários de empresas ocupam, principalmente, as cidades próximas ao Plano Piloto, onde os imóveis valem menos e os aluguéis são mais baratos

 
A geografia do Distrito Federal divide os trabalhadores em dois grandes blocos. Nas regiões centrais (principalmente Plano Piloto e Sudoeste), moram os servidores públicos que, apesar de equivalerem a 22% do total de pessoas empregadas no DF, representam 51% dos ocupados residentes em Brasília. Nas demais cidades, aumenta a participação dos funcionários das empresas privadas e das pessoas que trabalham por conta própria.

Nas nove cidades de renda intermediária, entre elas Taguatinga, Cruzeiro, Guará e Núcleo Bandeirante, 43,8% dos trabalhadores são funcionários de empresas particulares. A proporção é ainda maior entre os ocupados das regiões administrativas de rendimento mais baixo, como Ceilândia, Samambaia , São Sebastião e Recanto das Emas, onde mais da metade, 51,9%, recebe salários pagos por empregadores privados (veja quadro).
 
Uma das explicações para a maior concentração de trabalhadores do setor privado nas cidades do DF está nos preços dos imóveis. No Plano Piloto e nos lagos estão os imóveis mais caros da capital. Um levantamento feito pelo Correio mostra que enquanto um imóvel de dois quartos pode custar R$ 45 mil em São Sebastião ou R$ 85 mil em Taguatinga, no Lago Norte chega a R$ 348 mil, na Asa Norte a R$ 350 mil, e até R$ 530 mil no Sudoeste.

Paralelamente, a iniciativa privada, em média, paga pior do que o governo. O último dado disponível da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que o rendimento médio do servidor está em R$ 3.970, enquanto o dos ocupados no setor privado fica em R$ 961. “Além de serem menores, os salários da iniciativa privada subiram menos que os dos servidores, com isso o funcionalismo tem mais condições de alugar e comprar os imóveis mais caros, que estão no Plano Piloto”, afirma o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do DF (Ademi-DF), Adalberto Valadão.

Mobilidade
“A maior parte dos funcionários de empresas prestadoras de serviços e do comércio — principais empregadores da iniciativa privada —, reside nas cidades próximas ao Plano Piloto ou no Entorno. É muito difícil para quem tem comércio conseguir contratar um morador da Asa Norte, por exemplo. Não temos essa oferta de mão-de-obra porque os aluguéis são muito caros para os salários que o comércio paga”, afirma o vice-presidente da Federação do Comércio do Distrito Federal (Fecomércio-DF), Miguel Setembrino. O preço médio do aluguel de uma quitinete no Plano Piloto é de R$ 500 e o piso da categoria de comerciário é de R$ 515.

A maioria dos empregos, no entanto, está no próprio Plano Piloto, apesar de os trabalhadores residirem em outras regiões administrativas. “É intensa a mobilidade. Quase metade da População Economicamente Ativa (PEA) do DF trabalha no centro. O Plano e Taguatinga têm apenas 25% da PEA, mas empregam 70%”, afirma o economista Júlio Miragaya, do Conselho Regional de Economia (Corecon).

A falta de emprego na cidade em que mora é o motivo que leva a recepcionista Polyana Ferreira, de 20 anos, a se deslocar todos os dias de Sobradinho até um shopping na Asa Norte. Por dia, ela passa cerca de três horas em deslocamentos de ônibus, incluindo o trajeto que faz até a Asa Sul para cursar a faculdade de fisioterapia. “Em Sobradinho não tem emprego e, quando tem, o salário não é bom”, conta a brasiliense que ganha R$ 640 para trabalhar seis horas por dia.

Carteira
Apesar dos salários menores, os moradores das cidades do DF têm maior garantia de direitos trabalhistas. A pesquisa mostra que quanto mais carente a região onde o trabalhador mora, maior é a formalização da relação de trabalho. Para cada trabalhador sem carteira assinada em todo o DF, há quatro que têm os direitos trabalhistas garantidos. No Plano Piloto a proporção é de cinco formais para cada dois informais. Nas cidades mais pobres, no entanto, é de oito regularizados para cada dois sem carteira assinada. “A formalização é um reflexo do comportamento do mercado brasileiro nos últimos anos e é bom que tenha sido maior nos grupos de cidades mais pobres porque são as pessoas que mais necessitam da garantia dos direitos”, afirma o coordenador da PED, Antônio Ibarra, técnico do Dieese.

Por outro lado, os moradores das cidades fora do Plano Piloto convivem mais com o desemprego. A taxa nas cidades de renda mais pobre é de 20% da PEA, enquanto nas cidades de rendimento intermediário cai para 15,4%. Nas asas e nos lagos Sul e Norte, o desemprego atinge apenas 8,8% dos trabalhadores. Para fugir do desemprego é maior o número de pessoas que se aventuram em negócios próprios nas regiões mais carentes. O número de trabalhadores por conta própria no Paranoá é quatro vezes superior ao volume do Lago Sul. Já a quantidade de domésticos que moram no Lago Sul e no Lago Norte é grande, o que reflete, segundo Ibarra, a grande proporção de empregados que moram na casa do patrão. 

Mariana Flores
Correio Braziliense

Com salários médios menores que os dos servidores, funcionários de empresas ocupam, principalmente, as cidades próximas ao Plano Piloto, onde os imóveis valem menos e os aluguéis são mais baratos

 
A geografia do Distrito Federal divide os trabalhadores em dois grandes blocos. Nas regiões centrais (principalmente Plano Piloto e Sudoeste), moram os servidores públicos que, apesar de equivalerem a 22% do total de pessoas empregadas no DF, representam 51% dos ocupados residentes em Brasília. Nas demais cidades, aumenta a participação dos funcionários das empresas privadas e das pessoas que trabalham por conta própria.

Nas nove cidades de renda intermediária, entre elas Taguatinga, Cruzeiro, Guará e Núcleo Bandeirante, 43,8% dos trabalhadores são funcionários de empresas particulares. A proporção é ainda maior entre os ocupados das regiões administrativas de rendimento mais baixo, como Ceilândia, Samambaia , São Sebastião e Recanto das Emas, onde mais da metade, 51,9%, recebe salários pagos por empregadores privados (veja quadro).
 
Uma das explicações para a maior concentração de trabalhadores do setor privado nas cidades do DF está nos preços dos imóveis. No Plano Piloto e nos lagos estão os imóveis mais caros da capital. Um levantamento feito pelo Correio mostra que enquanto um imóvel de dois quartos pode custar R$ 45 mil em São Sebastião ou R$ 85 mil em Taguatinga, no Lago Norte chega a R$ 348 mil, na Asa Norte a R$ 350 mil, e até R$ 530 mil no Sudoeste.

Paralelamente, a iniciativa privada, em média, paga pior do que o governo. O último dado disponível da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que o rendimento médio do servidor está em R$ 3.970, enquanto o dos ocupados no setor privado fica em R$ 961. “Além de serem menores, os salários da iniciativa privada subiram menos que os dos servidores, com isso o funcionalismo tem mais condições de alugar e comprar os imóveis mais caros, que estão no Plano Piloto”, afirma o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do DF (Ademi-DF), Adalberto Valadão.

Mobilidade
“A maior parte dos funcionários de empresas prestadoras de serviços e do comércio — principais empregadores da iniciativa privada —, reside nas cidades próximas ao Plano Piloto ou no Entorno. É muito difícil para quem tem comércio conseguir contratar um morador da Asa Norte, por exemplo. Não temos essa oferta de mão-de-obra porque os aluguéis são muito caros para os salários que o comércio paga”, afirma o vice-presidente da Federação do Comércio do Distrito Federal (Fecomércio-DF), Miguel Setembrino. O preço médio do aluguel de uma quitinete no Plano Piloto é de R$ 500 e o piso da categoria de comerciário é de R$ 515.

A maioria dos empregos, no entanto, está no próprio Plano Piloto, apesar de os trabalhadores residirem em outras regiões administrativas. “É intensa a mobilidade. Quase metade da População Economicamente Ativa (PEA) do DF trabalha no centro. O Plano e Taguatinga têm apenas 25% da PEA, mas empregam 70%”, afirma o economista Júlio Miragaya, do Conselho Regional de Economia (Corecon).

A falta de emprego na cidade em que mora é o motivo que leva a recepcionista Polyana Ferreira, de 20 anos, a se deslocar todos os dias de Sobradinho até um shopping na Asa Norte. Por dia, ela passa cerca de três horas em deslocamentos de ônibus, incluindo o trajeto que faz até a Asa Sul para cursar a faculdade de fisioterapia. “Em Sobradinho não tem emprego e, quando tem, o salário não é bom”, conta a brasiliense que ganha R$ 640 para trabalhar seis horas por dia.

Carteira
Apesar dos salários menores, os moradores das cidades do DF têm maior garantia de direitos trabalhistas. A pesquisa mostra que quanto mais carente a região onde o trabalhador mora, maior é a formalização da relação de trabalho. Para cada trabalhador sem carteira assinada em todo o DF, há quatro que têm os direitos trabalhistas garantidos. No Plano Piloto a proporção é de cinco formais para cada dois informais. Nas cidades mais pobres, no entanto, é de oito regularizados para cada dois sem carteira assinada. “A formalização é um reflexo do comportamento do mercado brasileiro nos últimos anos e é bom que tenha sido maior nos grupos de cidades mais pobres porque são as pessoas que mais necessitam da garantia dos direitos”, afirma o coordenador da PED, Antônio Ibarra, técnico do Dieese.

Por outro lado, os moradores das cidades fora do Plano Piloto convivem mais com o desemprego. A taxa nas cidades de renda mais pobre é de 20% da PEA, enquanto nas cidades de rendimento intermediário cai para 15,4%. Nas asas e nos lagos Sul e Norte, o desemprego atinge apenas 8,8% dos trabalhadores. Para fugir do desemprego é maior o número de pessoas que se aventuram em negócios próprios nas regiões mais carentes. O número de trabalhadores por conta própria no Paranoá é quatro vezes superior ao volume do Lago Sul. Já a quantidade de domésticos que moram no Lago Sul e no Lago Norte é grande, o que reflete, segundo Ibarra, a grande proporção de empregados que moram na casa do patrão.