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Publicado: 1/08/2008 | 09:30
Amigos secretos
| Silvio Queiroz |
| Correio Braziliense |
Revista publica e-mails em que o “chanceler” das Farc, morto em março passado, menciona contatos de alto nível mantidos com o governo Lula. “Embaixador” da guerrilha empregou a mulher em ministério
A revista colombiana Cambio rompeu a discrição com a qual o governo do presidente Álvaro Uribe conduziu, há duas semanas, a entrega ao Brasil de informações reservadas sobre conexões das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) com sindicalistas, políticos e — o principal — peças importantes do governo Lula, inclusive ministros. Em reportagem de capa, a edição que chegou ontem às bancas devassa o que chama de “dossiê Brasil”, a partir de 85 e-mails retirados do computador de Raúl Reyes, chefe da diplomacia das Farc até ser morto, em março passado. Nas mensagens, trocadas entre o fim da década passada e o início de 2007, Reyes e seus representantes no país falam desde tentativas de aproximação política, nos primeiros anos de mandato, até articulações que culminaram com a concessão do status de refugiado ao “embaixador” da guerrilha no Brasil, Francisco Cadena Collazos, padre que em 1983 trocou a batina pelo fuzil, sob o nome de guerra de Olivério Medina.
É justamente de dois meses antes de Medina ser preso, em agosto de 2005, um dos emails mais reveladores sobre a desenvoltura e as preocupações da diplomacia das Farc no Brasil. O recado é assinado por José Luis, um homem que é mencionado como um dos auxiliares do ex-padre no país. Dirigindo-se a Reyes, ele relata um encontro com o jornalista Breno Altman, íntimo da cúpula petista, que teria se apresentado como emissário do então chefe da Casa Civil, José Dirceu. Meses antes do encontro, a polícia secreta colombiana havia capturado na Venezuela, em operação encoberta, o braço direito de Reyes na Comissão Internacional, Rodrigo Granda. “Perguntei se podíamos ficar tranqüilos de que não iam seqüestrá-lo (Medina) ou deportá-lo para a Colômbia, e ele respondeu: ‘Podem ficar tranqüilos’”, escreveu José Luis.
Nos anos anteriores, o foco da ação de Medina foi buscar canais de aproximação com o governo Lula, para que intercedesse junto a Uribe em favor de um acordo humanitário. Uma das mensagens menciona gestões, intermediadas no início de 2004 pelo então dirigente petista Plínio de Arruda Sampaio, para um encontro com o chanceler Celso Amorim.
A lista de personalidades com as quais as Farc teriam mantido contato inclui políticos petistas, como o vereador Albertão, de Guarulhos (SP), e os deputados distritais Erika Kokay e Paulo Tadeu — este mencionado, no primeiro semestre de 2005, como portador de uma doação de US$ 833,33.
Para o governo federal, a passagem mais embaraçosa é a menção a um cargo comissionado conseguido para a pedagoga Angela Slongo, mulher de Olivério Medina. “Para barrar a direita, caso resolvam perturbar, a colocaram na Secretaria de Pesca, no que aqui chamam de cargo de confiança da Presidência da República”, escreveu Medina para Reyes em janeiro de 2007, pouco antes de livrar-se da extradição. Na mensagem mais recente, de abril do mesmo ano, já obrigado pela condição de refugiado a desligar-se das Farc, ele explica que pretende “atuar com cautela”, pelo menos “até obter passaporte brasileiro” — quando, então, visitaria o comando guerrilheiro na Colômbia (leia os trechos abaixo).
Distanciamento
As relações entre as Farc e o PT datam pelo menos de 1990, quando foi criado o Foro de São Paulo, uma articulação entre partidos e movimentos de esquerda latino-americanos. Dez anos mais tarde, em plena guinada para o centro com vistas à eleição presidencial de 2002, a cúpula petista já era vista com claro distanciamento e algum desprezo pelo hoje comandante máximo das Farc, Alfonso Cano. Em entrevista concedida durante negociações de paz com o então presidente Andrés Pastrana, Cano deixou clara a preferência pelo MST em relação ao “partido de Lula”.
O PT, representado durante anos por Marco Aurélio Garcia, atual assessor internacional de Lula, foi um dos responsáveis pela exclusão das Farc nas últimas reuniões tanto do Foro de São Paulo quanto do Fórum Social Mundial. No início deste ano, coube ao próprio Cano, ainda como responsável pela frente política clandestina da guerrilha, dirigir mensagem ao foro, na qual questionou o veto.
Plínio de Arruda Sampaio
Veterano da esquerda católica anterior ao golpe de 1964, petista histórico, integra o PSol desde 2005.
Luiz Francisco de Souza
Procurador da República, famoso pela investigação sobre a violação do painel de votação do Senado, que custou o cargo a Antônio Carlos Magalhães.
Raúl Reyes
Chefiava a Comissão Internacional das Farc até ser morto, em 1º de março, em um acampamento bombardeado pelos militares no Equador.
Olivério Medina
Nome de guerra de Francisco Cadena Collazos, que representou as Farc no Brasil desde 1997. Foi preso em agosto de 2005 e pedido em extradição pela Colômbia, mas em março de 2007 obteve status de refugiado — sob a condição de renunciar à atividade na guerrilha.
Marco Aurélio Garcia
Assessor internacional do presidente Lula, foi antes secretário de Relações Internacionais do PT e um dos articuladores do Fórum de São Paulo, que já incluiu as Farc.
Breno Altman
Jornalista, fundador do PT e próximo ao ex-ministro José Dirceu, é mencionado também como colaborador da Secretaria de Relações Internacionais do partido.
Trechos - E-mails das Farc
Por intermédio do legendário líder do PT Plínio de Arruda Sampaio, chegamos a Celso Amorim, o atual ministro de Relações Exteriores. Plínio mandou dizer por Albertão (vereador de Guarulhos) que o ministro está disposto a receber-nos, que tão logo tenha espaço na agenda nos recebe em Brasília.
22/2/2004, mensagem de José Luis para Raúl Reyes
Ele (o procurador federal Luiz Francisco de Souza) deu o seguinte conselho: andar com uma máquina fotográfica e, se possível, um gravador, para, no caso de ser novamente parado por um agente de informação, fotografá-lo e gravá-lo, tendo cuidado para ele não tomar a câmara e o gravador. E que, em relação ao sucedido, façamos uma denúncia dirigida a ele, como procurador, para que faça chegar à Polícia Federal e à Agência Brasileira de Informação (sic).
22/8/2004, de José Luis e Olivério Medina para Raúl Reyes e Rodrigo Granda
Veio um jovem de uns 30 anos e se apresentou como Breno Altman, dirigente do PT. Disse que vinha da parte do ministro José Dirceu , que por motivos de segurança eles concordaram em que as relações não passarão pela Secretaria de Relações Internacionais, mas diretamente através do ministro, representado por Breno.
(…) Perguntei a ele se podíamos ficar tranqüilos de que não iam seqüestrá-lo (Medina) ou deportá-lo para a Colômbia, e ele respondeu: “Podem ficar tranqüilos”.
4/6/2005, José Luis para Reyes
Você tem que convidar o porta-voz do Brasil a nos visitar aqui, explicar a ele que na função de construir definições se faz imprescindível a conversa dele com o secretariado.
Diga a ele que temos formas seguras para recebê-lo em nossos acampamentos sem que seja registrado pelas autoridades colombianas.
12/6/2005, Reyes para José Luis
Existe no Brasil um importante grupo de amigos solidários conosco, entre eles sindicalistas, professores, congressistas, ministros, advogados e personalidades que se ocupam de pressionar pela liberdade imediata de Camilo (Olivério Medina).
17/9/2005, Reyes para Roque
A defensoria pública está organizando um encontro da Mona (Angela Maria Slongo, mulher de Medina) com o ministro, o vice-ministro e o principal assessor da Secretaria de Direitos Humanos, vinculada à Presidência. Pela ordem, Paulo Vannuchi, Perly Cipriano e Dalma de Abreu Dalasi (Dalmo de Abreu Dallari), que é um jurista prestigioso de quem o ministro relator tem pavor.
23/2/2007, Medina para Reyes
Devo atuar com cautela para não facilitar para o inimigo argumentos que levem a questionar o refúgio. (…) Manterei esse baixo perfil até a neutralização (aparentemente, naturalização). Uma vez obtida, terei passaporte brasileiro e a primeira coisa em que devo pensar é em ir vê-los.14/4/2007, Medina para Reyes
Diplomacia sem cintura
Recém-nomeado para substituir Raúl Reyes à frente da diplomacia das Farc, Iván Márquez (E) já recusou publicamente os apelos de aliados, como o presidente Hugo Chávez, para que a guerrilha deponha as armas. O mesmo tom permeia mensagens de seu braço direito, Rodrigo Granda (D).
| Silvio Queiroz |
| Correio Braziliense |
Revista publica e-mails em que o “chanceler” das Farc, morto em março passado, menciona contatos de alto nível mantidos com o governo Lula. “Embaixador” da guerrilha empregou a mulher em ministério
A revista colombiana Cambio rompeu a discrição com a qual o governo do presidente Álvaro Uribe conduziu, há duas semanas, a entrega ao Brasil de informações reservadas sobre conexões das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) com sindicalistas, políticos e — o principal — peças importantes do governo Lula, inclusive ministros. Em reportagem de capa, a edição que chegou ontem às bancas devassa o que chama de “dossiê Brasil”, a partir de 85 e-mails retirados do computador de Raúl Reyes, chefe da diplomacia das Farc até ser morto, em março passado. Nas mensagens, trocadas entre o fim da década passada e o início de 2007, Reyes e seus representantes no país falam desde tentativas de aproximação política, nos primeiros anos de mandato, até articulações que culminaram com a concessão do status de refugiado ao “embaixador” da guerrilha no Brasil, Francisco Cadena Collazos, padre que em 1983 trocou a batina pelo fuzil, sob o nome de guerra de Olivério Medina.
É justamente de dois meses antes de Medina ser preso, em agosto de 2005, um dos emails mais reveladores sobre a desenvoltura e as preocupações da diplomacia das Farc no Brasil. O recado é assinado por José Luis, um homem que é mencionado como um dos auxiliares do ex-padre no país. Dirigindo-se a Reyes, ele relata um encontro com o jornalista Breno Altman, íntimo da cúpula petista, que teria se apresentado como emissário do então chefe da Casa Civil, José Dirceu. Meses antes do encontro, a polícia secreta colombiana havia capturado na Venezuela, em operação encoberta, o braço direito de Reyes na Comissão Internacional, Rodrigo Granda. “Perguntei se podíamos ficar tranqüilos de que não iam seqüestrá-lo (Medina) ou deportá-lo para a Colômbia, e ele respondeu: ‘Podem ficar tranqüilos’”, escreveu José Luis.
Nos anos anteriores, o foco da ação de Medina foi buscar canais de aproximação com o governo Lula, para que intercedesse junto a Uribe em favor de um acordo humanitário. Uma das mensagens menciona gestões, intermediadas no início de 2004 pelo então dirigente petista Plínio de Arruda Sampaio, para um encontro com o chanceler Celso Amorim.
A lista de personalidades com as quais as Farc teriam mantido contato inclui políticos petistas, como o vereador Albertão, de Guarulhos (SP), e os deputados distritais Erika Kokay e Paulo Tadeu — este mencionado, no primeiro semestre de 2005, como portador de uma doação de US$ 833,33.
Para o governo federal, a passagem mais embaraçosa é a menção a um cargo comissionado conseguido para a pedagoga Angela Slongo, mulher de Olivério Medina. “Para barrar a direita, caso resolvam perturbar, a colocaram na Secretaria de Pesca, no que aqui chamam de cargo de confiança da Presidência da República”, escreveu Medina para Reyes em janeiro de 2007, pouco antes de livrar-se da extradição. Na mensagem mais recente, de abril do mesmo ano, já obrigado pela condição de refugiado a desligar-se das Farc, ele explica que pretende “atuar com cautela”, pelo menos “até obter passaporte brasileiro” — quando, então, visitaria o comando guerrilheiro na Colômbia (leia os trechos abaixo).
Distanciamento
As relações entre as Farc e o PT datam pelo menos de 1990, quando foi criado o Foro de São Paulo, uma articulação entre partidos e movimentos de esquerda latino-americanos. Dez anos mais tarde, em plena guinada para o centro com vistas à eleição presidencial de 2002, a cúpula petista já era vista com claro distanciamento e algum desprezo pelo hoje comandante máximo das Farc, Alfonso Cano. Em entrevista concedida durante negociações de paz com o então presidente Andrés Pastrana, Cano deixou clara a preferência pelo MST em relação ao “partido de Lula”.
O PT, representado durante anos por Marco Aurélio Garcia, atual assessor internacional de Lula, foi um dos responsáveis pela exclusão das Farc nas últimas reuniões tanto do Foro de São Paulo quanto do Fórum Social Mundial. No início deste ano, coube ao próprio Cano, ainda como responsável pela frente política clandestina da guerrilha, dirigir mensagem ao foro, na qual questionou o veto.
Plínio de Arruda Sampaio
Veterano da esquerda católica anterior ao golpe de 1964, petista histórico, integra o PSol desde 2005.
Luiz Francisco de Souza
Procurador da República, famoso pela investigação sobre a violação do painel de votação do Senado, que custou o cargo a Antônio Carlos Magalhães.
Raúl Reyes
Chefiava a Comissão Internacional das Farc até ser morto, em 1º de março, em um acampamento bombardeado pelos militares no Equador.
Olivério Medina
Nome de guerra de Francisco Cadena Collazos, que representou as Farc no Brasil desde 1997. Foi preso em agosto de 2005 e pedido em extradição pela Colômbia, mas em março de 2007 obteve status de refugiado — sob a condição de renunciar à atividade na guerrilha.
Marco Aurélio Garcia
Assessor internacional do presidente Lula, foi antes secretário de Relações Internacionais do PT e um dos articuladores do Fórum de São Paulo, que já incluiu as Farc.
Breno Altman
Jornalista, fundador do PT e próximo ao ex-ministro José Dirceu, é mencionado também como colaborador da Secretaria de Relações Internacionais do partido.
Trechos - E-mails das Farc
Por intermédio do legendário líder do PT Plínio de Arruda Sampaio, chegamos a Celso Amorim, o atual ministro de Relações Exteriores. Plínio mandou dizer por Albertão (vereador de Guarulhos) que o ministro está disposto a receber-nos, que tão logo tenha espaço na agenda nos recebe em Brasília.
22/2/2004, mensagem de José Luis para Raúl Reyes
Ele (o procurador federal Luiz Francisco de Souza) deu o seguinte conselho: andar com uma máquina fotográfica e, se possível, um gravador, para, no caso de ser novamente parado por um agente de informação, fotografá-lo e gravá-lo, tendo cuidado para ele não tomar a câmara e o gravador. E que, em relação ao sucedido, façamos uma denúncia dirigida a ele, como procurador, para que faça chegar à Polícia Federal e à Agência Brasileira de Informação (sic).
22/8/2004, de José Luis e Olivério Medina para Raúl Reyes e Rodrigo Granda
Veio um jovem de uns 30 anos e se apresentou como Breno Altman, dirigente do PT. Disse que vinha da parte do ministro José Dirceu , que por motivos de segurança eles concordaram em que as relações não passarão pela Secretaria de Relações Internacionais, mas diretamente através do ministro, representado por Breno.
(…) Perguntei a ele se podíamos ficar tranqüilos de que não iam seqüestrá-lo (Medina) ou deportá-lo para a Colômbia, e ele respondeu: “Podem ficar tranqüilos”.
4/6/2005, José Luis para Reyes
Você tem que convidar o porta-voz do Brasil a nos visitar aqui, explicar a ele que na função de construir definições se faz imprescindível a conversa dele com o secretariado.
Diga a ele que temos formas seguras para recebê-lo em nossos acampamentos sem que seja registrado pelas autoridades colombianas.
12/6/2005, Reyes para José Luis
Existe no Brasil um importante grupo de amigos solidários conosco, entre eles sindicalistas, professores, congressistas, ministros, advogados e personalidades que se ocupam de pressionar pela liberdade imediata de Camilo (Olivério Medina).
17/9/2005, Reyes para Roque
A defensoria pública está organizando um encontro da Mona (Angela Maria Slongo, mulher de Medina) com o ministro, o vice-ministro e o principal assessor da Secretaria de Direitos Humanos, vinculada à Presidência. Pela ordem, Paulo Vannuchi, Perly Cipriano e Dalma de Abreu Dalasi (Dalmo de Abreu Dallari), que é um jurista prestigioso de quem o ministro relator tem pavor.
23/2/2007, Medina para Reyes
Devo atuar com cautela para não facilitar para o inimigo argumentos que levem a questionar o refúgio. (…) Manterei esse baixo perfil até a neutralização (aparentemente, naturalização). Uma vez obtida, terei passaporte brasileiro e a primeira coisa em que devo pensar é em ir vê-los.14/4/2007, Medina para Reyes
Diplomacia sem cintura
Recém-nomeado para substituir Raúl Reyes à frente da diplomacia das Farc, Iván Márquez (E) já recusou publicamente os apelos de aliados, como o presidente Hugo Chávez, para que a guerrilha deponha as armas. O mesmo tom permeia mensagens de seu braço direito, Rodrigo Granda (D).