antigas Publicado: 25/07/2008 | 09:28

Um alívio nas emergências

Helena Mader
Correio Braziliense

Médicos e enfermeiras afirmam que atendimento a vítimas de acidentes na rede pública caiu, em média, 30% após motoristas serem proibidos de beber qualquer quantidade de álcool

A redução dos acidentes causados por motoristas embriagados é um alívio para médicos, enfermeiros e auxiliares que trabalham na emergência de hospitais públicos do Distrito Federal. Para esses profissionais de saúde, que lidam diariamente com vítimas da violência no trânsito, a queda no movimento de pacientes no pronto-socorro é facilmente perceptível e representa mais qualidade no serviço prestado à população. Em algumas unidades, como os hospitais de Base e Regional do Gama, funcionários estimam em cerca de 30% a redução do fluxo diário de pessoas atendidas nos setores de ortopedia e de politraumatizados.

No fim deste mês, a Secretaria de Saúde divulgará um balanço dos atendimentos nos hospitais públicos da cidade depois que a lei seca entrou em vigor. Mas os profissionais que atuam nas emergências não precisam de estatística para comprovar o que os olhos vêem diariamente nas salas de cirurgia e nas entradas dos hospitais: o número de leitos ocupados por vítimas de acidentes diminuiu.

A chefe de equipe do Hospital Regional da Ceilândia, Vânia Lúcia Malta, defende a fiscalização mais rígida para flagrar motoristas embriagados. Para ela, a medida trouxe impacto positivo no dia-a-dia da emergência. “Depois da lei seca, a queda do movimento na cirurgia e na ortopedia foi enorme. Mesmo nos fins de semana, a quantidade de pacientes está caindo. Os colegas não param de falar sobre essa mudança e comentam como os motoristas estão mais conscientes”, comentou.

Na unidade, são realizadas por mês cerca de 143 cirurgias de emergência e 7 mil atendimentos no pronto-socorro ortopédico. Com a redução no número de acidentados no trânsito, os médicos do Hospital Regional de Ceilândia deixam de realizar uma média de 42 operações emergenciais e 2,1 mil atendimentos de ortopedia todos os meses.

No Hospital Regional do Gama, onde cerca de 7,2 mil pacientes são recebidos mensalmente na emergência do setor de traumato-ortopedia, o diretor Sebastião Gomes Pedrosa estima a redução de atendimento a vítimas de trânsito entre 20% e 30%. “Nossa demanda é muito grande, mas é fácil notar uma queda na quantidade de acidentados que chegam ao hospital. Para nossa unidade, que já tem uma carência de pessoal grande, essa redução é muito positiva”, disse Pedrosa.

Tempo para pacientes
Os profissionais de saúde que lidam com o drama dos acidentados, muitos deles em estado grave, elogiam a lei seca. Para a diretora do Hospital Regional de Taguatinga, Sônia Salviano, a redução do fluxo de vítimas de acidentes de trânsito foi visível desde os primeiros dias de aplicação da lei seca. “No setor de ortopedia, onde às vezes precisávamos colocar macas para ter espaço para todos os pacientes, há vários leitos vazios”, destacou. “Muitos acidentados de trânsito ficavam internados aguardando para fazer cirurgia e, enquanto isso, ocupavam um leito. Depois da lei seca, o número de pacientes diminuiu e os médicos têm mais tempo para se dedicar a outros tipos de emergência”.

No Hospital de Base, referência da cidade para atendimento de politraumatizados, a estimativa também é de queda de 30% nos atendimentos da emergência. O anestesista Geraldo Gutemberg Soares, vice-presidente regional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) e funcionário do Base, conta que a lei seca tem mudado a rotina dos médicos e enfermeiros. “A maioria dos profissionais de saúde apóia a medida porque ela trouxe uma queda expressiva no número de atendimentos na emergência”, contou ele, que é um defensor da fiscalização mais rígida para impedir que motoristas alcoolizados dirijam pelas ruas da cidade.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) já divulgou balanço dos atendimentos realizados pelos funcionários no Distrito Federal. Desde o início da lei seca, a queda dos serviços prestados pelo Samu chegou a 40%. No Corpo de Bombeiros, a redução dos atendimentos de emergência chegou a 14%.

Com a lei em vigor, a fiscalização continua firme nas ruas do DF. Na noite de quarta-feira, mais dois motoristas não passaram pelo teste do bafômetro em uma blitz montada no Eixo Rodoviário Sul. Na terça-feira, foram três. O Departamento de Trânsito do DF acredita que, neste fim de semana, o total de motoristas flagrados dirigindo depois de ingerir bebida alcoólica em 2008 chegue a mil.


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 Depois da lei seca, o número de pacientes diminuiu
e os médicos têm mais tempo para se dedicar a outros tipos de emergência 


Contran não mudará a lei

Diego Amorim
A lei seca continuará como está. Por ora, a reclamação dos donos de bares não sensibilizou as autoridades que cuidam da regulamentação da norma. Na próxima terça-feira, a cúpula do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) analisará a nota técnica elaborada pelo Ministério da Saúde. O documento manteve em 0,2 decigrama por litro de sangue a margem de tolerância em exames de alcoolemia — índice que está em vigor desde 20 de junho. A assessoria do Contran adiantou ontem ao Correio que o parecer do ministério será confirmado e, assim, a legislação não será flexibilizada nem abrirá exceções.

A decisão do Contran significa que o rigor imposto até aqui se manterá. A equipe responsável por analisar o conteúdo da lei no Ministério da Saúde não considerou necessário elaborar uma lista com remédios ou alimentos que tenham álcool em sua composição e, por isso, possam interferir no resultado dos exames de alcoolemia. Segundo a assessoria do Contran, a regulamentação também não trará essa lista. Apenas confirmará os limites estabelecidos.

Segundo a nota do ministério, os índices em vigor são semelhantes aos de países como Noruega, Polônia e Suécia. O texto classifica a lei seca como “instrumento eficaz de política pública no enfrentamento da grave epidemia de acidentes de trânsito associados ao consumo de bebidas alcoólicas”. No primeiro mês de legislação o número de ocorrências com mortes no DF caiu 20,5%. O total de óbitos, 6%.

O diretor-geral do Departamento de Trânsito do DF, Jair Tedeschi, acredita que a lei seca só tem possibilidade de ser alterada ou mesmo derrubada no Congresso Nacional ou no Supremo Tribunal Federal (STF), que já analisa uma ação nesse sentido. “No âmbito do Executivo, ela está mantida com essa decisão do Contran”, afirmou. Ele voltou a dizer que os agentes de trânsito estão preparados para diferenciar uma pessoa embriagada de quem ingeriu remédio ou alimento com álcool.

Helena Mader
Correio Braziliense

Médicos e enfermeiras afirmam que atendimento a vítimas de acidentes na rede pública caiu, em média, 30% após motoristas serem proibidos de beber qualquer quantidade de álcool

A redução dos acidentes causados por motoristas embriagados é um alívio para médicos, enfermeiros e auxiliares que trabalham na emergência de hospitais públicos do Distrito Federal. Para esses profissionais de saúde, que lidam diariamente com vítimas da violência no trânsito, a queda no movimento de pacientes no pronto-socorro é facilmente perceptível e representa mais qualidade no serviço prestado à população. Em algumas unidades, como os hospitais de Base e Regional do Gama, funcionários estimam em cerca de 30% a redução do fluxo diário de pessoas atendidas nos setores de ortopedia e de politraumatizados.

No fim deste mês, a Secretaria de Saúde divulgará um balanço dos atendimentos nos hospitais públicos da cidade depois que a lei seca entrou em vigor. Mas os profissionais que atuam nas emergências não precisam de estatística para comprovar o que os olhos vêem diariamente nas salas de cirurgia e nas entradas dos hospitais: o número de leitos ocupados por vítimas de acidentes diminuiu.

A chefe de equipe do Hospital Regional da Ceilândia, Vânia Lúcia Malta, defende a fiscalização mais rígida para flagrar motoristas embriagados. Para ela, a medida trouxe impacto positivo no dia-a-dia da emergência. “Depois da lei seca, a queda do movimento na cirurgia e na ortopedia foi enorme. Mesmo nos fins de semana, a quantidade de pacientes está caindo. Os colegas não param de falar sobre essa mudança e comentam como os motoristas estão mais conscientes”, comentou.

Na unidade, são realizadas por mês cerca de 143 cirurgias de emergência e 7 mil atendimentos no pronto-socorro ortopédico. Com a redução no número de acidentados no trânsito, os médicos do Hospital Regional de Ceilândia deixam de realizar uma média de 42 operações emergenciais e 2,1 mil atendimentos de ortopedia todos os meses.

No Hospital Regional do Gama, onde cerca de 7,2 mil pacientes são recebidos mensalmente na emergência do setor de traumato-ortopedia, o diretor Sebastião Gomes Pedrosa estima a redução de atendimento a vítimas de trânsito entre 20% e 30%. “Nossa demanda é muito grande, mas é fácil notar uma queda na quantidade de acidentados que chegam ao hospital. Para nossa unidade, que já tem uma carência de pessoal grande, essa redução é muito positiva”, disse Pedrosa.

Tempo para pacientes
Os profissionais de saúde que lidam com o drama dos acidentados, muitos deles em estado grave, elogiam a lei seca. Para a diretora do Hospital Regional de Taguatinga, Sônia Salviano, a redução do fluxo de vítimas de acidentes de trânsito foi visível desde os primeiros dias de aplicação da lei seca. “No setor de ortopedia, onde às vezes precisávamos colocar macas para ter espaço para todos os pacientes, há vários leitos vazios”, destacou. “Muitos acidentados de trânsito ficavam internados aguardando para fazer cirurgia e, enquanto isso, ocupavam um leito. Depois da lei seca, o número de pacientes diminuiu e os médicos têm mais tempo para se dedicar a outros tipos de emergência”.

No Hospital de Base, referência da cidade para atendimento de politraumatizados, a estimativa também é de queda de 30% nos atendimentos da emergência. O anestesista Geraldo Gutemberg Soares, vice-presidente regional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) e funcionário do Base, conta que a lei seca tem mudado a rotina dos médicos e enfermeiros. “A maioria dos profissionais de saúde apóia a medida porque ela trouxe uma queda expressiva no número de atendimentos na emergência”, contou ele, que é um defensor da fiscalização mais rígida para impedir que motoristas alcoolizados dirijam pelas ruas da cidade.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) já divulgou balanço dos atendimentos realizados pelos funcionários no Distrito Federal. Desde o início da lei seca, a queda dos serviços prestados pelo Samu chegou a 40%. No Corpo de Bombeiros, a redução dos atendimentos de emergência chegou a 14%.

Com a lei em vigor, a fiscalização continua firme nas ruas do DF. Na noite de quarta-feira, mais dois motoristas não passaram pelo teste do bafômetro em uma blitz montada no Eixo Rodoviário Sul. Na terça-feira, foram três. O Departamento de Trânsito do DF acredita que, neste fim de semana, o total de motoristas flagrados dirigindo depois de ingerir bebida alcoólica em 2008 chegue a mil.


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 Depois da lei seca, o número de pacientes diminuiu
e os médicos têm mais tempo para se dedicar a outros tipos de emergência 


Contran não mudará a lei

Diego Amorim
A lei seca continuará como está. Por ora, a reclamação dos donos de bares não sensibilizou as autoridades que cuidam da regulamentação da norma. Na próxima terça-feira, a cúpula do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) analisará a nota técnica elaborada pelo Ministério da Saúde. O documento manteve em 0,2 decigrama por litro de sangue a margem de tolerância em exames de alcoolemia — índice que está em vigor desde 20 de junho. A assessoria do Contran adiantou ontem ao Correio que o parecer do ministério será confirmado e, assim, a legislação não será flexibilizada nem abrirá exceções.

A decisão do Contran significa que o rigor imposto até aqui se manterá. A equipe responsável por analisar o conteúdo da lei no Ministério da Saúde não considerou necessário elaborar uma lista com remédios ou alimentos que tenham álcool em sua composição e, por isso, possam interferir no resultado dos exames de alcoolemia. Segundo a assessoria do Contran, a regulamentação também não trará essa lista. Apenas confirmará os limites estabelecidos.

Segundo a nota do ministério, os índices em vigor são semelhantes aos de países como Noruega, Polônia e Suécia. O texto classifica a lei seca como “instrumento eficaz de política pública no enfrentamento da grave epidemia de acidentes de trânsito associados ao consumo de bebidas alcoólicas”. No primeiro mês de legislação o número de ocorrências com mortes no DF caiu 20,5%. O total de óbitos, 6%.

O diretor-geral do Departamento de Trânsito do DF, Jair Tedeschi, acredita que a lei seca só tem possibilidade de ser alterada ou mesmo derrubada no Congresso Nacional ou no Supremo Tribunal Federal (STF), que já analisa uma ação nesse sentido. “No âmbito do Executivo, ela está mantida com essa decisão do Contran”, afirmou. Ele voltou a dizer que os agentes de trânsito estão preparados para diferenciar uma pessoa embriagada de quem ingeriu remédio ou alimento com álcool.