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Publicado: 7/11/2007 | 09:14
Educar é preciso
Artigo - Augusto Marzagão
Correio Braziliense
Correio Braziliense
O ensino formal no Brasil, ministrado, vive grave situação de precariedade. As lamentáveis características negativas que apresenta constituem verdadeiro cemitério de cruzes que assinalam a morte cultural de sucessivas gerações. São os índices de exclusão do ensino básico de crianças de sete a 14 anos, que deixam as salas de aulas para engrossar uma das vergonhas nacionais, que é a população dos meninos de rua. É a repetência contumaz, que é uma das causas do êxodo escolar. É a insuficiência de professores nas escolas, que põe centenas de crianças nas ruas, soltas, livres, ao alcance de todas as seduções de que se serve a marginalidade para atraí-las. Em resumo, é o mau aproveitamento escolar em todos os níveis e ângulos, cuja conseqüência é o número assustador de delinqüentes infantis e o elevado percentual de adultos analfabetos ou semi-alfabetizados.
Esse é o quadro que as estatísticas apresentam, que é real, que transtorna o nosso cotidiano, mas que não identifica todos os fatores agravantes da situação. Fatores impalpáveis, é verdade, mas ativos, que atingem em cheio, e de forma demolidora, principalmente aquela população sem letras ou de poucas letras. São os contingentes que chegam pela via do ensino informal, aquele que nos vem através dos fatos do dia, pelos jornais e por alguns programas de televisão e rádio. É o “ensino” aspeado, que massacra insidiosamente o recado que dá e penetra pelos poros, pelo ar, no ambiente, por meio das palavras doces de ídolos que se exibem, mas que a rigor não são vistos em suas intimidades, que não mostram seus valores morais. Entram em nossas casas mesmo sem convite.
São simpáticos, belos, limpos, talentosos. Aparecem nas revistas de variedades ao lado dos seus bens materiais e com filhos, namorados ou namoradas, amigos. Freqüentam as telinhas das TVs incorporando personagens que nos encantam, que nos emocionam, mas que se esvaem, ao fim do programa, deixando no ar, para nossa ansiedade, apenas cenas capitais de um próximo capítulo. São heróis e/ou vilões da ficção, mas que marcam o telespectador no seu dia-a-dia como se fossem reais. E se é verdade que, enquanto seres adultos e bem formados, podemos distinguir a ficção da realidade, enquanto seres por completar, estamos sujeitos às mais perigosas mensagens desses heróis e/ou vilões, cujos conteúdos são claramente danosos, principalmente à estruturação das crianças.
Grande e legítima — quase sempre cômoda — é a cobrança que fazem os veículos de comunicação ao setor público e à rede privada no tocante à deficiência do ensino. No entanto, esses veículos parecem esquecer o próprio potencial de eficácia para participar do esforço educacional, potencial que muitas vezes dirigem para o boicote ao penoso trabalho do educador.
Também é cômodo, embora falacioso e até mesmo irresponsável, atribuir-se aos pais o poder de polícia na seleção de programas e horários aconselháveis a cada faixa etária. Como se a classe média, desdobrando-se em dois, três empregos, ou simplesmente sem qualquer emprego, tivesse a disponibilidade de controlar, dia e noite, o que as crianças vêem na TV...
Ao longo dos últimos anos tenho afirmado, em entrevistas e artigos, que alguns desses programas estão arranhando a simetria moral do país. Hoje, digo que, na realidade, estão destruindo o sistema de valores em que se estabelece essa simetria moral. Basta que se mostre o exemplo de jovens atores e atrizes, alguns recém-saídos da puberdade, que confundem, eles próprios, ficção com realidade, protagonizando tragédias, dramas e até comédias passionais que só a ausência de parâmetros morais confiáveis e coerentes podem explicar. São atos e fatos estimulantes para aqueles que chamei de “seres por completar”. Atos e fatos que despertam nos adolescentes o desejo incontido de imitá-los, isto é, de fazer o mesmo, sem noção, por ignorância, por inexperiência, por deficiente formação doméstica e escolar, dos males que descarrega em si próprio.
Não desconheço que todos os meios de comunicação dispõem de quadros competentes para fazer reportagens de alto nível. No caso das televisões, existem programas muito bem feitos, de interesse didático e científico, nas áreas do meio ambiente, da saúde, da informação agrícola, entre outras. E não tenho dúvidas de que os líderes das grandes redes, os escritores e produtores das emissoras de rádio e TV têm talento e capacidade suficientes para redirecionar suas programações, para se tornarem poderosos instrumentos de revigoramento moral da infância e adolescência.
Todos os profissionais envolvidos nas diversas etapas de produção de rádio e TV podem ter certeza de que qualquer iniciativa que venham a tomar nessa direção receberá muitos aplausos. Sem contar com a satisfação pessoal que deve ser a consciência de estar contribuindo para a constituição ou o restabelecimento de valores básicos e saudáveis para a família brasileira. De estar educando.
Artigo - Augusto Marzagão
Correio Braziliense
Correio Braziliense
O ensino formal no Brasil, ministrado, vive grave situação de precariedade. As lamentáveis características negativas que apresenta constituem verdadeiro cemitério de cruzes que assinalam a morte cultural de sucessivas gerações. São os índices de exclusão do ensino básico de crianças de sete a 14 anos, que deixam as salas de aulas para engrossar uma das vergonhas nacionais, que é a população dos meninos de rua. É a repetência contumaz, que é uma das causas do êxodo escolar. É a insuficiência de professores nas escolas, que põe centenas de crianças nas ruas, soltas, livres, ao alcance de todas as seduções de que se serve a marginalidade para atraí-las. Em resumo, é o mau aproveitamento escolar em todos os níveis e ângulos, cuja conseqüência é o número assustador de delinqüentes infantis e o elevado percentual de adultos analfabetos ou semi-alfabetizados.
Esse é o quadro que as estatísticas apresentam, que é real, que transtorna o nosso cotidiano, mas que não identifica todos os fatores agravantes da situação. Fatores impalpáveis, é verdade, mas ativos, que atingem em cheio, e de forma demolidora, principalmente aquela população sem letras ou de poucas letras. São os contingentes que chegam pela via do ensino informal, aquele que nos vem através dos fatos do dia, pelos jornais e por alguns programas de televisão e rádio. É o “ensino” aspeado, que massacra insidiosamente o recado que dá e penetra pelos poros, pelo ar, no ambiente, por meio das palavras doces de ídolos que se exibem, mas que a rigor não são vistos em suas intimidades, que não mostram seus valores morais. Entram em nossas casas mesmo sem convite.
São simpáticos, belos, limpos, talentosos. Aparecem nas revistas de variedades ao lado dos seus bens materiais e com filhos, namorados ou namoradas, amigos. Freqüentam as telinhas das TVs incorporando personagens que nos encantam, que nos emocionam, mas que se esvaem, ao fim do programa, deixando no ar, para nossa ansiedade, apenas cenas capitais de um próximo capítulo. São heróis e/ou vilões da ficção, mas que marcam o telespectador no seu dia-a-dia como se fossem reais. E se é verdade que, enquanto seres adultos e bem formados, podemos distinguir a ficção da realidade, enquanto seres por completar, estamos sujeitos às mais perigosas mensagens desses heróis e/ou vilões, cujos conteúdos são claramente danosos, principalmente à estruturação das crianças.
Grande e legítima — quase sempre cômoda — é a cobrança que fazem os veículos de comunicação ao setor público e à rede privada no tocante à deficiência do ensino. No entanto, esses veículos parecem esquecer o próprio potencial de eficácia para participar do esforço educacional, potencial que muitas vezes dirigem para o boicote ao penoso trabalho do educador.
Também é cômodo, embora falacioso e até mesmo irresponsável, atribuir-se aos pais o poder de polícia na seleção de programas e horários aconselháveis a cada faixa etária. Como se a classe média, desdobrando-se em dois, três empregos, ou simplesmente sem qualquer emprego, tivesse a disponibilidade de controlar, dia e noite, o que as crianças vêem na TV...
Ao longo dos últimos anos tenho afirmado, em entrevistas e artigos, que alguns desses programas estão arranhando a simetria moral do país. Hoje, digo que, na realidade, estão destruindo o sistema de valores em que se estabelece essa simetria moral. Basta que se mostre o exemplo de jovens atores e atrizes, alguns recém-saídos da puberdade, que confundem, eles próprios, ficção com realidade, protagonizando tragédias, dramas e até comédias passionais que só a ausência de parâmetros morais confiáveis e coerentes podem explicar. São atos e fatos estimulantes para aqueles que chamei de “seres por completar”. Atos e fatos que despertam nos adolescentes o desejo incontido de imitá-los, isto é, de fazer o mesmo, sem noção, por ignorância, por inexperiência, por deficiente formação doméstica e escolar, dos males que descarrega em si próprio.
Não desconheço que todos os meios de comunicação dispõem de quadros competentes para fazer reportagens de alto nível. No caso das televisões, existem programas muito bem feitos, de interesse didático e científico, nas áreas do meio ambiente, da saúde, da informação agrícola, entre outras. E não tenho dúvidas de que os líderes das grandes redes, os escritores e produtores das emissoras de rádio e TV têm talento e capacidade suficientes para redirecionar suas programações, para se tornarem poderosos instrumentos de revigoramento moral da infância e adolescência.
Todos os profissionais envolvidos nas diversas etapas de produção de rádio e TV podem ter certeza de que qualquer iniciativa que venham a tomar nessa direção receberá muitos aplausos. Sem contar com a satisfação pessoal que deve ser a consciência de estar contribuindo para a constituição ou o restabelecimento de valores básicos e saudáveis para a família brasileira. De estar educando.