antigas Publicado: 27/09/2007 | 08:51

O infiel PMDB dá rasteira no governo

Leandro Colon e Marcelo Rocha
Correio Braziliense

Insatisfeitos com o tratamento que vêm recebendo nas negociações por postos no segundo escalão, peemebistas barram secretaria de Mangabeira Unger e ameaçam votação da CPMF no Senado

O PMDB mostrou ontem ao governo que não está para brincadeira e que o PT não pode se considerar o fiel da balança no Senado. Os senadores do partido usaram sua força para derrubar a medida provisória que criou em junho a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo e 660 cargos comissionados em órgãos do governo. Com status de ministério, a secretaria é comandada por Roberto Mangabeira Unger, filiado ao PRB do vice-presidente da República, José Alencar.

O PMDB mandou dois recados ao governo: o PT tem que parar com a cobrança pela saída de Renan Calheiros (PMDB-AL) da Presidência do Senado e é preciso atender imediatamente a reivindicação de deputados e senadores por cargos no governo para que a prorrogação da CPMF seja aprovada no Congresso (leia mais na página 4). Caso contrário, não terá mais maioria em plenário. A MP rejeitada ontem já havia sido aprovada pela Câmara. Com o resultado no Senado, a secretaria deixa de existir.

O Palácio do Planalto foi pego de surpresa com a votação. E terá que encontrar uma saída já que o órgão e os cargos já ocupados agora estão extintos. O governo começa a pensar hoje como resolver o impasse. O ministro de Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, marcou uma conversa com o líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR). Procurado, Magabeira preferiu não se pronunciar.

Senadores da base aliada ficaram perdidos após a votação, sem saber explicar como o Palácio vai agir. “Não sei o que vai acontecer”, disse a líder do PT, Ideli Salvatti (SC). A Constituição impede que sejam editadas, num mesmo ano, duas MPs sobre o mesmo assunto.

Essa medida aliás, não foi escolhida por acaso. Mangabeira Unger foi indicado pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. A ministra dirige com rigor as nomeações nos primeiros escalões do governo. A derrota imposta pelo PMDB foi um aviso a Dilma; ou atende aos pedidos do partido, ou o governo terá que trabalhar duro para aprovar a CPMF e outras matérias no Congresso.

Na votação de ontem, foram 46 votos a 22 contra a MP. Dos 19 senadores do PMDB, 13 votaram para derrubar a secretaria. Votos que seriam suficientes para aprová-la. Ficaram com o governo apenas Jucá, Roseana Sarney (PMDB-MA) e José Sarney (PMDB-MA). Dois estavam ausentes. Jucá e Roseana lideram a bancada governista no Senado e no Congresso, respectivamente. Já Sarney não quis explicitar sua insatisfação no voto. Deixou a missão com seus aliados no partido, como Gilvan Borges (PMDB-AP), e o próprio líder do PMDB, Valdir Raupp (RO). Renan assistiu passivamente à traição do PMDB. Presidiu a sessão e recebia recados de Jucá e Roseana.

A sessão, aliás, fazia parte de um acordo entre governo e oposição para votar MPs que trancavam a pauta e o fim da sessão secreta para casos de cassação. Até o líder do partido na Câmara, Henrique Alves (RN), deu as caras no Senado. E não escondia a satisfação de ver o governo derrotado na Casa. Já o PT partiu para o ataque. “O PMDB fez isso a vida toda e hoje novamente. O partido não é uma caixa de surpresas, mas uma caixa aberta”, disse Tião Viana (PT-AC), vice-presidente do Senado. “Estão desconstituindo um núcleo estratégico do país”, reclamou Aloizio Mercadante (PT-SP), principal defensor da bancada petista pelo afastamento de Renan.

A oposição sorria no plenário. E não disfarçou o contentamento de ver um racha na base do governo justamente na hora em que a crise em torno de Renan Calheiros começava a esfriar. “É um recado do PMDB ao Palácio do Planalto. Só pode”, afirmou o líder do DEM, José Agripino (RN). Pressionado e cobrado pelos colegas de partido, Romero Jucá ficou em cima do muro da crise entre governo e PMDB. “Se houve recado do PMDB, não sei dizer. Quem fala é o líder do partido”, disse. “Nós estamos num governo de coalizão em que o PMDB é peça importante. Temos que afirmar essa relação”, ressaltou.

Jantar
Procurado, Raupp sustentou a posição da bancada. “Há insatisfações pontuais decorrentes de problemas nos estados”, disse, citando reclamações dos senadores Gerson Camata (PMDB-ES) e Valter Pereira (PMDB-MS). Esse último, aliás, foi quem iniciou a rebelião da bancada. Pereira recebeu na noite de terça-feira nove senadores do PMDB em sua casa. Roseana Sarney e Romero Jucá foram excluídos desse encontro.

Na reunião, esses senadores listaram queixas sobre o tratamento que estão recebendo do governo nos últimos meses. Eles reclamaram, entre outras coisas, que não participaram das decisões no plenário, criticaram a demora em conseguir audiência com ministros, e disseram que não são informados da demissão de aliados em estatais.

A estratégia foi agir em plenário hoje e inviabilizar uma secretaria com status de ministério. Deu certo. Professor de direito em Havard, nos Estados Unidos, Mangabeira foi alvo de críticas do PT na época em que foi convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir o cargo. O partido resistia ao seu nome. Agora, o partido não pode reclamar. O PMDB se encarregou de satisfazer o desejo petista.

Leandro Colon e Marcelo Rocha
Correio Braziliense

Insatisfeitos com o tratamento que vêm recebendo nas negociações por postos no segundo escalão, peemebistas barram secretaria de Mangabeira Unger e ameaçam votação da CPMF no Senado

O PMDB mostrou ontem ao governo que não está para brincadeira e que o PT não pode se considerar o fiel da balança no Senado. Os senadores do partido usaram sua força para derrubar a medida provisória que criou em junho a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo e 660 cargos comissionados em órgãos do governo. Com status de ministério, a secretaria é comandada por Roberto Mangabeira Unger, filiado ao PRB do vice-presidente da República, José Alencar.

O PMDB mandou dois recados ao governo: o PT tem que parar com a cobrança pela saída de Renan Calheiros (PMDB-AL) da Presidência do Senado e é preciso atender imediatamente a reivindicação de deputados e senadores por cargos no governo para que a prorrogação da CPMF seja aprovada no Congresso (leia mais na página 4). Caso contrário, não terá mais maioria em plenário. A MP rejeitada ontem já havia sido aprovada pela Câmara. Com o resultado no Senado, a secretaria deixa de existir.

O Palácio do Planalto foi pego de surpresa com a votação. E terá que encontrar uma saída já que o órgão e os cargos já ocupados agora estão extintos. O governo começa a pensar hoje como resolver o impasse. O ministro de Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, marcou uma conversa com o líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR). Procurado, Magabeira preferiu não se pronunciar.

Senadores da base aliada ficaram perdidos após a votação, sem saber explicar como o Palácio vai agir. “Não sei o que vai acontecer”, disse a líder do PT, Ideli Salvatti (SC). A Constituição impede que sejam editadas, num mesmo ano, duas MPs sobre o mesmo assunto.

Essa medida aliás, não foi escolhida por acaso. Mangabeira Unger foi indicado pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. A ministra dirige com rigor as nomeações nos primeiros escalões do governo. A derrota imposta pelo PMDB foi um aviso a Dilma; ou atende aos pedidos do partido, ou o governo terá que trabalhar duro para aprovar a CPMF e outras matérias no Congresso.

Na votação de ontem, foram 46 votos a 22 contra a MP. Dos 19 senadores do PMDB, 13 votaram para derrubar a secretaria. Votos que seriam suficientes para aprová-la. Ficaram com o governo apenas Jucá, Roseana Sarney (PMDB-MA) e José Sarney (PMDB-MA). Dois estavam ausentes. Jucá e Roseana lideram a bancada governista no Senado e no Congresso, respectivamente. Já Sarney não quis explicitar sua insatisfação no voto. Deixou a missão com seus aliados no partido, como Gilvan Borges (PMDB-AP), e o próprio líder do PMDB, Valdir Raupp (RO). Renan assistiu passivamente à traição do PMDB. Presidiu a sessão e recebia recados de Jucá e Roseana.

A sessão, aliás, fazia parte de um acordo entre governo e oposição para votar MPs que trancavam a pauta e o fim da sessão secreta para casos de cassação. Até o líder do partido na Câmara, Henrique Alves (RN), deu as caras no Senado. E não escondia a satisfação de ver o governo derrotado na Casa. Já o PT partiu para o ataque. “O PMDB fez isso a vida toda e hoje novamente. O partido não é uma caixa de surpresas, mas uma caixa aberta”, disse Tião Viana (PT-AC), vice-presidente do Senado. “Estão desconstituindo um núcleo estratégico do país”, reclamou Aloizio Mercadante (PT-SP), principal defensor da bancada petista pelo afastamento de Renan.

A oposição sorria no plenário. E não disfarçou o contentamento de ver um racha na base do governo justamente na hora em que a crise em torno de Renan Calheiros começava a esfriar. “É um recado do PMDB ao Palácio do Planalto. Só pode”, afirmou o líder do DEM, José Agripino (RN). Pressionado e cobrado pelos colegas de partido, Romero Jucá ficou em cima do muro da crise entre governo e PMDB. “Se houve recado do PMDB, não sei dizer. Quem fala é o líder do partido”, disse. “Nós estamos num governo de coalizão em que o PMDB é peça importante. Temos que afirmar essa relação”, ressaltou.

Jantar
Procurado, Raupp sustentou a posição da bancada. “Há insatisfações pontuais decorrentes de problemas nos estados”, disse, citando reclamações dos senadores Gerson Camata (PMDB-ES) e Valter Pereira (PMDB-MS). Esse último, aliás, foi quem iniciou a rebelião da bancada. Pereira recebeu na noite de terça-feira nove senadores do PMDB em sua casa. Roseana Sarney e Romero Jucá foram excluídos desse encontro.

Na reunião, esses senadores listaram queixas sobre o tratamento que estão recebendo do governo nos últimos meses. Eles reclamaram, entre outras coisas, que não participaram das decisões no plenário, criticaram a demora em conseguir audiência com ministros, e disseram que não são informados da demissão de aliados em estatais.

A estratégia foi agir em plenário hoje e inviabilizar uma secretaria com status de ministério. Deu certo. Professor de direito em Havard, nos Estados Unidos, Mangabeira foi alvo de críticas do PT na época em que foi convidado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir o cargo. O partido resistia ao seu nome. Agora, o partido não pode reclamar. O PMDB se encarregou de satisfazer o desejo petista.