antigas Publicado: 20/09/2007 | 11:57

Fim da miséria só com mais R$ 20,6 bilhões

Marcelo Tokarski
Correio Braziliense

País precisaria investir o equivalente a 2,5 vezes o Bolsa Família para que 36,1 milhões de brasileiros ultrapassassem a linha de extrema pobreza
 
Para erradicar a miséria, que no ano passado atingia dois em cada 10 brasileiros — conforme o Correio antecipou em sua edição de ontem —, seriam necessários R$ 20,6 bilhões. O montante, suficiente para aumentar a renda mensal média dos miseráveis em 63% e fazer com que eles ultrapassassem a linha que define a extrema pobreza (R$ 125 por mês), equivale a 2,5 vezes o orçamento do Bolsa Família. Em 2007, o principal programa social do governo Lula destinará R$ 8,6 bilhões a 11,1 milhões de famílias em todo o país. Se os R$ 20,6 bilhões fossem divididos por todas as pessoas não-miseráveis, cada brasileiro precisaria desembolsar R$ 11,62 por mês, ou 39 centavos por dia, para acabar com a miséria no país.

Os cálculos são do economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base em dados da Pesquisa por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo Miséria, desigualdade e políticas de renda: o Real do Lula mostra que o exército de miseráveis encolheu 15% no ano passado, um recorde histórico. O índice, que em 2005 estava em 22,77%, caiu para 19,31%. Se comparado aos 35,16% registrados em 1992, a redução é de 45% (veja quadro). Significa dizer que mais de 6 milhões de pessoas cruzaram a linha de miséria — segundo a FGV, os R$ 125 são suficientes para comprar uma cesta de alimentos capaz de garantir a ingestão diária de 2.228 calorias, conforme preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Para o autor do estudo, a forte queda na miséria se deve aos aumentos reais concedidos ao salário mínimo, ao Bolsa Família e à melhora do mercado de trabalho. Segundo Marcelo Neri, cada R$ 1 gasto com o programa social reduz 2,5 vezes mais pobreza do que R$ 1 destinado ao aumento do salário mínimo. Embora afirme que o maior responsável pela melhora dos indicadores é mesmo o Bolsa Família, o economista ressalta que o aumento na geração de empregos contribuiu muito. “Com mais empregos, a renda aumenta e ajuda a reduzir a pobreza. E é justamente esse fenômeno que vai sustentar uma melhora ainda mais sólida no futuro”, acredita.

Segundo Neri, a década de 1980 foi marcada pela democratização e a de 1990 pela estabilização monetária. “Os anos 2000 serão os da redução da desigualdade”, garante. Simulações feitas pela FGV mostram que, caso a renda per capita média do brasileiro cresça 3% neste ano, a miséria cairia dos atuais 19,31% para 18,06% da população, uma melhora de 6,5%. “Se o crescimento (da renda) fosse semelhante ao de 2006, de 9,1%, a taxa de miséria cairia para 16,57%, uma redução de 14,22%”, explicou Neri. Segundo ele, se nos próximos quatro anos a renda crescer em média 4% ao ano, a miséria cairá 28,21% no segundo mandato do presidente Lula, acima dos 27,7% registrados em seus primeiros quatro anos.

Ontem, durante um discurso para prefeitos e representantes de comunidades quilombolas e indígenas, Lula comemorou o comportamento dos indicadores socioeconômicos. Segundo ele, os resultados são fruto da política econômica. “Os números da Pnad que demonstram que a semente plantada e adubada dá resultado”, afirmou.

Disparidades
Embora o país tenha melhorado na foto, o estudo da FGV mostra que o Brasil ainda tem um exército de 36,1 milhões de miseráveis, o equivalente a 19,31% da sua população. Os dados revelam também a continuidade das desigualdades regionais. No estado mais miserável do país, o indicador é mais de duas vezes superior ao nacional. Segundo o levantamento, em Alagoas 44,44% dos habitantes são considerados miseráveis. No Maranhão, são 44,23%. Na outra ponta, está o estado de Santa Catarina, com um índice quatro vezes inferior ao nacional: 4,68%. O Distrito Federal detém o quinto menor índice de miséria do país, com 11,8%.

Segundo estado mais miserável do país, o Maranhão foi o que registrou a menor recuperação no ano passado. O índice do estado recuou apenas 9,73%. Alagoas, o primeiro no ranking de pobreza, teve o segundo menor recuo (11,34%).

Distribuição de renda melhora
Além de reduzir sensivelmente os índices de miséria, os reajustes concedidos ao salário mínimo e a expansão do Bolsa Família ajudaram a melhorar a má distribuição de renda do país no ano passado. De acordo com os cálculos da FGV, a participação dos 50% mais pobres no rendimento total da população cresceu 2,8% em 2006, enquanto os 10% mais ricos recuaram 1,3% (veja quadro). Nos últimos 15 anos, a fatia dos mais pobres na riqueza brasileira avançou 16%, enquanto os mais ricos perderam 5,7% dos rendimentos totais. “É uma redução nada desprezível na desigualdade, que caiu duas vezes mais do que em 2005”, afirmou o economista Marcelo Neri, autor do estudo.

Segundo ele, enquanto a renda média do brasileiro cresceu 9,1% no ano passado, a remuneração dos 50% mais pobres avançou 12% e a dos mais riscos, apenas 7,8%. Os 40% intermediários, que detêm 41% da renda do país, apresentaram alta de 9,66%. “Foi o melhor ano da década para todos os segmentos da distribuição de renda. O bolo cresceu para todos, mas com mais fermento para a metade mais pobre da população”, reforçou. Apesar de mais bem distribuída, a riqueza nacional continua bastante concentrada. Os 50% mais pobres ficaram no ano passado com apenas 14,5% dos rendimentos, enquanto os 10% mais ricos embolsaram 44,5%.

Marcelo Neri também constatou que a renda média do brasileiro cresce mais em anos eleitorais, como foi 2006, para recuar no ano seguinte. Desde 1980, nos anos de eleição o crescimento médio foi de 12,52%, com uma queda média de 11,87% nos anos seguintes. Na mesma comparação, a miséria cai em 7,69% em anos eleitorais, para depois crescer 3,75% nos pós-eleição. “As políticas de renda são usadas em sintonia com o calendário eleitoral ”, definiu Neri.

Marcelo Tokarski
Correio Braziliense

País precisaria investir o equivalente a 2,5 vezes o Bolsa Família para que 36,1 milhões de brasileiros ultrapassassem a linha de extrema pobreza
 
Para erradicar a miséria, que no ano passado atingia dois em cada 10 brasileiros — conforme o Correio antecipou em sua edição de ontem —, seriam necessários R$ 20,6 bilhões. O montante, suficiente para aumentar a renda mensal média dos miseráveis em 63% e fazer com que eles ultrapassassem a linha que define a extrema pobreza (R$ 125 por mês), equivale a 2,5 vezes o orçamento do Bolsa Família. Em 2007, o principal programa social do governo Lula destinará R$ 8,6 bilhões a 11,1 milhões de famílias em todo o país. Se os R$ 20,6 bilhões fossem divididos por todas as pessoas não-miseráveis, cada brasileiro precisaria desembolsar R$ 11,62 por mês, ou 39 centavos por dia, para acabar com a miséria no país.

Os cálculos são do economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base em dados da Pesquisa por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo Miséria, desigualdade e políticas de renda: o Real do Lula mostra que o exército de miseráveis encolheu 15% no ano passado, um recorde histórico. O índice, que em 2005 estava em 22,77%, caiu para 19,31%. Se comparado aos 35,16% registrados em 1992, a redução é de 45% (veja quadro). Significa dizer que mais de 6 milhões de pessoas cruzaram a linha de miséria — segundo a FGV, os R$ 125 são suficientes para comprar uma cesta de alimentos capaz de garantir a ingestão diária de 2.228 calorias, conforme preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Para o autor do estudo, a forte queda na miséria se deve aos aumentos reais concedidos ao salário mínimo, ao Bolsa Família e à melhora do mercado de trabalho. Segundo Marcelo Neri, cada R$ 1 gasto com o programa social reduz 2,5 vezes mais pobreza do que R$ 1 destinado ao aumento do salário mínimo. Embora afirme que o maior responsável pela melhora dos indicadores é mesmo o Bolsa Família, o economista ressalta que o aumento na geração de empregos contribuiu muito. “Com mais empregos, a renda aumenta e ajuda a reduzir a pobreza. E é justamente esse fenômeno que vai sustentar uma melhora ainda mais sólida no futuro”, acredita.

Segundo Neri, a década de 1980 foi marcada pela democratização e a de 1990 pela estabilização monetária. “Os anos 2000 serão os da redução da desigualdade”, garante. Simulações feitas pela FGV mostram que, caso a renda per capita média do brasileiro cresça 3% neste ano, a miséria cairia dos atuais 19,31% para 18,06% da população, uma melhora de 6,5%. “Se o crescimento (da renda) fosse semelhante ao de 2006, de 9,1%, a taxa de miséria cairia para 16,57%, uma redução de 14,22%”, explicou Neri. Segundo ele, se nos próximos quatro anos a renda crescer em média 4% ao ano, a miséria cairá 28,21% no segundo mandato do presidente Lula, acima dos 27,7% registrados em seus primeiros quatro anos.

Ontem, durante um discurso para prefeitos e representantes de comunidades quilombolas e indígenas, Lula comemorou o comportamento dos indicadores socioeconômicos. Segundo ele, os resultados são fruto da política econômica. “Os números da Pnad que demonstram que a semente plantada e adubada dá resultado”, afirmou.

Disparidades
Embora o país tenha melhorado na foto, o estudo da FGV mostra que o Brasil ainda tem um exército de 36,1 milhões de miseráveis, o equivalente a 19,31% da sua população. Os dados revelam também a continuidade das desigualdades regionais. No estado mais miserável do país, o indicador é mais de duas vezes superior ao nacional. Segundo o levantamento, em Alagoas 44,44% dos habitantes são considerados miseráveis. No Maranhão, são 44,23%. Na outra ponta, está o estado de Santa Catarina, com um índice quatro vezes inferior ao nacional: 4,68%. O Distrito Federal detém o quinto menor índice de miséria do país, com 11,8%.

Segundo estado mais miserável do país, o Maranhão foi o que registrou a menor recuperação no ano passado. O índice do estado recuou apenas 9,73%. Alagoas, o primeiro no ranking de pobreza, teve o segundo menor recuo (11,34%).

Distribuição de renda melhora
Além de reduzir sensivelmente os índices de miséria, os reajustes concedidos ao salário mínimo e a expansão do Bolsa Família ajudaram a melhorar a má distribuição de renda do país no ano passado. De acordo com os cálculos da FGV, a participação dos 50% mais pobres no rendimento total da população cresceu 2,8% em 2006, enquanto os 10% mais ricos recuaram 1,3% (veja quadro). Nos últimos 15 anos, a fatia dos mais pobres na riqueza brasileira avançou 16%, enquanto os mais ricos perderam 5,7% dos rendimentos totais. “É uma redução nada desprezível na desigualdade, que caiu duas vezes mais do que em 2005”, afirmou o economista Marcelo Neri, autor do estudo.

Segundo ele, enquanto a renda média do brasileiro cresceu 9,1% no ano passado, a remuneração dos 50% mais pobres avançou 12% e a dos mais riscos, apenas 7,8%. Os 40% intermediários, que detêm 41% da renda do país, apresentaram alta de 9,66%. “Foi o melhor ano da década para todos os segmentos da distribuição de renda. O bolo cresceu para todos, mas com mais fermento para a metade mais pobre da população”, reforçou. Apesar de mais bem distribuída, a riqueza nacional continua bastante concentrada. Os 50% mais pobres ficaram no ano passado com apenas 14,5% dos rendimentos, enquanto os 10% mais ricos embolsaram 44,5%.

Marcelo Neri também constatou que a renda média do brasileiro cresce mais em anos eleitorais, como foi 2006, para recuar no ano seguinte. Desde 1980, nos anos de eleição o crescimento médio foi de 12,52%, com uma queda média de 11,87% nos anos seguintes. Na mesma comparação, a miséria cai em 7,69% em anos eleitorais, para depois crescer 3,75% nos pós-eleição. “As políticas de renda são usadas em sintonia com o calendário eleitoral ”, definiu Neri.