antigas Publicado: 27/08/2007 | 10:46

Com crise, governo revive plano para limitar gasto pessoal

VALDO CRUZ
Folha de S. Paulo

Em troca da aprovação da medida no Congresso, governo elevaria o limite para aumento dessas despesas para 2%

Medida, uma das poucas de cunho fiscal do PAC, foi deixada de lado em detrimento de outras que tratam de investimentos

Diante da crise no mercado financeiro e a conseqüente necessidade de mostrar austeridade fiscal, o governo Lula topa aumentar o limite para o crescimento da folha de pagamento do funcionalismo público em troca da aprovação da medida, praticamente parada no Congresso Nacional.
Projeto da equipe econômica, que sofre resistências dos servidores e da própria base aliada, prevê a criação de uma trava no crescimento do gasto com pessoal, que não poderia subir além da variação do IPCA, mais 1,5% de ganho real.
Segundo a Folha apurou, o governo aceitaria subir esse ganho real para 2% na tentativa de aprovar o projeto até o fim do ano e sinalizar ao mercado financeiro que os gastos do governo nessa área entrariam numa rota decrescente.
Na avaliação de técnicos do Ministério da Fazenda, o aumento no limite seria o preço a pagar para fixar um teto para o crescimento da folha de pessoal. Segundo a Folha apurou, outras propostas podem ser avaliadas, desde que se busque o objetivo de fazer com que a despesa com pessoal suba bem abaixo do crescimento do PIB.
No governo Lula, até hoje, a prática tem sido diferente da proposta pela equipe econômica. Os gastos têm subido mais do que o PIB, provocando críticas de economistas, que alertam para o risco de uma fragilidade fiscal no futuro.
Em 2003, a despesa com pessoal da União ficou em 4,9% do PIB, atingindo 5,2% no fim do primeiro mandato, quando o crescimento da economia foi de 3,7% do PIB. Neste ano, a previsão é que aumente ainda mais, podendo ficar acima de 5,5%. Ou seja, ainda superior à taxa de crescimento do PIB, cuja previsão otimista é de 5%.
Projeções do economista Raul Velloso indicam que a mudança do limite não afetaria tanto o ajuste proposto pelo governo. Com a trava de 1,5%, por exemplo, o gasto da União com pessoal pode representar 4,6% do PIB em 2010. Com 2%, subiria apenas para 4,7%.

Tímido
Ao lançar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o governo foi criticado pela timidez das medidas fiscais, basicamente duas. A do limite para o gasto com pessoal, elogiada por economistas e oposição, e a que cria regra para o aumento do salário mínimo -variação do IPCA, mais a taxa de crescimento do PIB de dois anos anteriores.
Só que, desde o envio das medidas ao Congresso no início do ano, o governo priorizou a votação das medidas provisórias do PAC voltadas para acelerar os gastos com investimento público, mas não os dois projetos que, segundo a equipe, dariam a "consistência fiscal" ao plano por representarem redução de despesas.
Apenas agora, com as turbulências na economia internacional, o governo quer rapidez na tramitação dessas propostas por entender que elas, associadas ao superávit primário de 3,8% do PIB, podem garantir uma queda na dívida pública, um dos principais indicadores analisados pelo mercado para verificar a estabilidade econômica de um país.

Gradual
Além da aprovação das "medidas fiscais" do PAC, a equipe econômica avalia que não precisa adotar nenhuma medida "heróica" ou "drástica", como no início do governo Lula, e que o caminho é um ajuste fiscal gradual. Caso a crise se agrave, a saída seria basicamente tornar oficial ao mercado o que já deve ocorrer na prática no fim do ano: o superávit primário ficará em torno de 3,8%, já que o PAC ainda não deslanchou no lado financeiro e não será necessário usar o instrumento que permite abater até 0,4 ponto percentual do resultado por conta de investimentos em obras de infra-estrutura.
Em outras palavras, vai sobrar mais dinheiro para o governo destinar ao pagamento de juros da dívida pública, medida que pode ser essencial na hipótese de o BC suspender o processo de queda dos juros na próxima reunião do Copom, no início de setembro.
Essa, por enquanto, não é a expectativa no Ministério da Fazenda, que não enxerga pressão inflacionária nem dificuldades cambiais para isso. Segundo auxiliares de Guido Mantega, um dólar valendo até R$ 2,10 não trará mais inflação, garantindo espaço para o BC manter a queda dos juros.
A equipe do ministro da Fazenda, por outro lado, já dá como certo que o ritmo de queda dos juros será desacelerado, com o Banco Central promovendo um corte de 0,25 ponto percentual em vez do 0,50 das últimas reuniões.
Ainda do ponto de vista fiscal, o governo acredita que está se criando um consenso no país de que é necessário estabelecer um limite para a aposentadoria no setor privado, medida que ajudaria a sinalizar melhora nas contas da Previdência no futuro. Já a sempre falada desvinculação do reajuste dos benefícios previdenciários do aumento do salário mínimo está definitivamente engavetada.

VALDO CRUZ
Folha de S. Paulo

Em troca da aprovação da medida no Congresso, governo elevaria o limite para aumento dessas despesas para 2%

Medida, uma das poucas de cunho fiscal do PAC, foi deixada de lado em detrimento de outras que tratam de investimentos

Diante da crise no mercado financeiro e a conseqüente necessidade de mostrar austeridade fiscal, o governo Lula topa aumentar o limite para o crescimento da folha de pagamento do funcionalismo público em troca da aprovação da medida, praticamente parada no Congresso Nacional.
Projeto da equipe econômica, que sofre resistências dos servidores e da própria base aliada, prevê a criação de uma trava no crescimento do gasto com pessoal, que não poderia subir além da variação do IPCA, mais 1,5% de ganho real.
Segundo a Folha apurou, o governo aceitaria subir esse ganho real para 2% na tentativa de aprovar o projeto até o fim do ano e sinalizar ao mercado financeiro que os gastos do governo nessa área entrariam numa rota decrescente.
Na avaliação de técnicos do Ministério da Fazenda, o aumento no limite seria o preço a pagar para fixar um teto para o crescimento da folha de pessoal. Segundo a Folha apurou, outras propostas podem ser avaliadas, desde que se busque o objetivo de fazer com que a despesa com pessoal suba bem abaixo do crescimento do PIB.
No governo Lula, até hoje, a prática tem sido diferente da proposta pela equipe econômica. Os gastos têm subido mais do que o PIB, provocando críticas de economistas, que alertam para o risco de uma fragilidade fiscal no futuro.
Em 2003, a despesa com pessoal da União ficou em 4,9% do PIB, atingindo 5,2% no fim do primeiro mandato, quando o crescimento da economia foi de 3,7% do PIB. Neste ano, a previsão é que aumente ainda mais, podendo ficar acima de 5,5%. Ou seja, ainda superior à taxa de crescimento do PIB, cuja previsão otimista é de 5%.
Projeções do economista Raul Velloso indicam que a mudança do limite não afetaria tanto o ajuste proposto pelo governo. Com a trava de 1,5%, por exemplo, o gasto da União com pessoal pode representar 4,6% do PIB em 2010. Com 2%, subiria apenas para 4,7%.

Tímido
Ao lançar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o governo foi criticado pela timidez das medidas fiscais, basicamente duas. A do limite para o gasto com pessoal, elogiada por economistas e oposição, e a que cria regra para o aumento do salário mínimo -variação do IPCA, mais a taxa de crescimento do PIB de dois anos anteriores.
Só que, desde o envio das medidas ao Congresso no início do ano, o governo priorizou a votação das medidas provisórias do PAC voltadas para acelerar os gastos com investimento público, mas não os dois projetos que, segundo a equipe, dariam a "consistência fiscal" ao plano por representarem redução de despesas.
Apenas agora, com as turbulências na economia internacional, o governo quer rapidez na tramitação dessas propostas por entender que elas, associadas ao superávit primário de 3,8% do PIB, podem garantir uma queda na dívida pública, um dos principais indicadores analisados pelo mercado para verificar a estabilidade econômica de um país.

Gradual
Além da aprovação das "medidas fiscais" do PAC, a equipe econômica avalia que não precisa adotar nenhuma medida "heróica" ou "drástica", como no início do governo Lula, e que o caminho é um ajuste fiscal gradual. Caso a crise se agrave, a saída seria basicamente tornar oficial ao mercado o que já deve ocorrer na prática no fim do ano: o superávit primário ficará em torno de 3,8%, já que o PAC ainda não deslanchou no lado financeiro e não será necessário usar o instrumento que permite abater até 0,4 ponto percentual do resultado por conta de investimentos em obras de infra-estrutura.
Em outras palavras, vai sobrar mais dinheiro para o governo destinar ao pagamento de juros da dívida pública, medida que pode ser essencial na hipótese de o BC suspender o processo de queda dos juros na próxima reunião do Copom, no início de setembro.
Essa, por enquanto, não é a expectativa no Ministério da Fazenda, que não enxerga pressão inflacionária nem dificuldades cambiais para isso. Segundo auxiliares de Guido Mantega, um dólar valendo até R$ 2,10 não trará mais inflação, garantindo espaço para o BC manter a queda dos juros.
A equipe do ministro da Fazenda, por outro lado, já dá como certo que o ritmo de queda dos juros será desacelerado, com o Banco Central promovendo um corte de 0,25 ponto percentual em vez do 0,50 das últimas reuniões.
Ainda do ponto de vista fiscal, o governo acredita que está se criando um consenso no país de que é necessário estabelecer um limite para a aposentadoria no setor privado, medida que ajudaria a sinalizar melhora nas contas da Previdência no futuro. Já a sempre falada desvinculação do reajuste dos benefícios previdenciários do aumento do salário mínimo está definitivamente engavetada.