antigas Publicado: 27/07/2007 | 09:11

Bolsa desaba e dólar sobe para R$ 1,92

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Crise no setor imobiliário norte-americano derruba as bolsas de valores em todo o mundo. No Brasil, a Bovespa fecha o dia em queda de 3,76%, a maior do ano, o dólar dispara e o risco-país sobe 20%

Um rastro de desconfiança detonado na Austrália, tendo como pano de fundo o mercado imobiliário dos Estados Unidos, provocou um forte terremoto nos mercados financeiros mundiais, especialmente no Brasil. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que acumulou mais de 30 recordes de valorização neste ano, chegou a cair mais de 6% no início da tarde de ontem, mas encerrou o dia nos 53.893 pontos, com perdas de 3,76% — a maior de 2007. Os preços do dólar, que andavam próximos de R$ 1,80, dispararam 3,27%, a mais forte alta em um único dia em mais de um ano. A moeda americana foi cotada a R$ 1,928 para venda, depois de compras maciças de investidores interessados em deixar o país. O risco Brasil, que mede o humor dos estrangeiros em relação à economia local, bateu nos 221 pontos, subindo 20,9%, resultado inferior somente ao registrado em 27 de agosto de 1998, quanto saltou 23%. Desde o início de julho, o risco-país, que voltou ao patamar do final de 2006, acumula alta de 50,1%.

“Já na abertura dos mercados, o que se via era um efeito manada. Todos interessados em se desfazer do kit Brasil, independentemente dos bons fundamentos da economia brasileira”, disse o economista-chefe da Corretora López Leon, Flávio Serrano. A onda de incerteza, explicou ele, começou com a decisão de dois fundos de investimentos australianos, o Absolute Yield Strategies e o Capital Yield Strategies Fund NZD, de proibirem saques de seus cotistas pelo menos até outubro. O patrimônio desses fundos está quase que integralmente aplicado em títulos do subprime, referentes a dívidas de alto risco do mercado imobiliário americano. Como não havia ninguém disposto a comprar esses papéis, os fundos australianos ficaram sem dinheiro em caixa para atender a clientela. “O calote que todos temiam se tornou real”, acrescentou.

As primeiras a sentirem o baque foram as bolsas de valores européias, que cravaram as maiores baixas do ano. Em Londres, o índice FTSE-100, cedeu 3,15%, para os 6.251 pontos. Em Paris, o índice CAC-40 despencou 2,78%, para os 5.675 pontos. Em Frankfurt, o DAX perdeu 2,39% de seu valor, cravando os 7.508 pontos. Nos Estados Unidos, a Bolsa de Nova York recuou 2,26%, a segunda maior queda do ano. A Nasdaq, a bolsa de tecnologia dos EUA, computou baixa de 1,84%. O mercado acionário americano ainda sofreu com a nova alta do petróleo e com a divulgação do New Home Sales, índice que mede a venda de imóveis novos naquele país. O número de junho, de 834 mil, ficou aquém do projetado pelos analistas (900 mil), e abriu especulações de que, com a construção civil mais fraca, o crescimento da economia americana será muito fraco e o risco de calote que ronda o subprime pode se estender a outros setores.

Aversão ao risco


Já com prejuízos consolidados no exterior, muitos investidores optaram por zerar negócios em mercados onde haviam acumulado lucros expressivos. A opção foi, principalmente, pelo Brasil. A venda de ações na Bovespa fez com que, durante quase toda a quinta-feira, todos os papéis que compõem o Ibovespa registrassem queda, alguns com recuo de até 9%. Com os reais arrecadados nessas operações, os investidores foram ao mercado de câmbio comprar dólares para sair do país. A demanda foi tamanha, que logo os preços da moeda superaram o patamar de R$ 1,90.

Os investidores também se desfizeram de títulos da dívida externa brasileira, que haviam se valorizado muito. Os mais negociados, o Global 40, caíram 2,14%. A saída dos estrangeiros desses papéis foi tão forte, que impactou o mercado interno de títulos e elevou as taxas de juros, a ponto de o Tesouro Nacional suspender seu tradicional leilão semanal. “Estamos assistindo a uma aversão maior ao risco. Os investidores estão ficando mais seletivos e optando por títulos do governo americano”, afirmou Eduardo Roche, analista do Banco Modal. Para ele, o fato de o Brasil ter sido usado como ponto de realização de lucros não significa dizer que o país saiu da rota do capital estrangeiro. “O Brasil continua sendo uma boa aposta para os investidores. Os fundamentos da economia brasileira estão muito mais sólidos para enfrentar turbulências externas”, acrescentou.

No entender de Mário Battistel, diretor da Corretora Novação, o estrago no mercado brasileiro foi grande porque parte do capital de curto prazo, que havia aportado aqui para se beneficiar das altas taxas de juros, decidiu voltar aos países de origem, temendo que as turbulências de ontem se prolonguem pelas próximas semanas, elevando ainda mais os preços do dólar, o que encarecerá a saída de recursos. “Mas creio que, aos poucos, o mercado voltará à normalidade, e as cotações do dólar vão ceder, oscilando entre R$ 1,85 e R$ 1,90”, destacou. Ele contou que, apesar do nervosismo, o Banco Central fez leilão de compra de dólar, mas aceitou quatro propostas, retirando apenas US$ 34 milhões do sistema.

Vôo para a qualidade


Para o economista Carlos Thadeu Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a seletividade maior do capital estrangeiro vai exigir um esforço adicional do governo para manter a credibilidade do país. Mesmo com todos os indicadores mostrando que a economia está crescendo de forma sustentada e sem fortes pressões inflacionárias, terá de haver maior coesão entre as ações do Ministério da Fazenda e do Banco Central para evitar ruídos desnecessários.

Tanto ele quanto Flávio Serrano e Mário Battistel não acreditam que uma crise global tenha sido detonada. “Foi um ajuste necessário e esperado, para os investidores se lembrarem de que há riscos nos mercados. Como os últimos anos têm sido de grande euforia, muitos se esqueceram disso”, frisou o economista da UFRJ. “Agora, os mercados viverão o que os investidores chamam de flight to quality, ou vôo para a qualidade. Não há mais espaço para amadores”, complementou Battistel.


CANCELAMENTO


O Tesouro Nacional decidiu cancelar o leilão de venda de títulos públicos de ontem, no qual pretendia oferecer aos investidores papéis prefixados (com juros definidos no momento da operação). Segundo o coordenador de Operações da Dívida Pública, Guilherme Pedras, o cancelamento não se deu por desinteresse dos investidores. “Nossa intenção foi acalmar o mercado, mostrando que o governo está tranqüilo e tem caixa para fazer frente aos compromissos sem precisar captar toda semana”, disse. Segundo ele, as taxas de juros avaliadas como parâmetro para as emissões subiu 0,2 ponto percentual ontem. “Fazer o leilão seria sancionar essas taxas, o que não achamos conveniente.” 


Vicente Nunes
Correio Braziliense

Crise no setor imobiliário norte-americano derruba as bolsas de valores em todo o mundo. No Brasil, a Bovespa fecha o dia em queda de 3,76%, a maior do ano, o dólar dispara e o risco-país sobe 20%

Um rastro de desconfiança detonado na Austrália, tendo como pano de fundo o mercado imobiliário dos Estados Unidos, provocou um forte terremoto nos mercados financeiros mundiais, especialmente no Brasil. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que acumulou mais de 30 recordes de valorização neste ano, chegou a cair mais de 6% no início da tarde de ontem, mas encerrou o dia nos 53.893 pontos, com perdas de 3,76% — a maior de 2007. Os preços do dólar, que andavam próximos de R$ 1,80, dispararam 3,27%, a mais forte alta em um único dia em mais de um ano. A moeda americana foi cotada a R$ 1,928 para venda, depois de compras maciças de investidores interessados em deixar o país. O risco Brasil, que mede o humor dos estrangeiros em relação à economia local, bateu nos 221 pontos, subindo 20,9%, resultado inferior somente ao registrado em 27 de agosto de 1998, quanto saltou 23%. Desde o início de julho, o risco-país, que voltou ao patamar do final de 2006, acumula alta de 50,1%.

“Já na abertura dos mercados, o que se via era um efeito manada. Todos interessados em se desfazer do kit Brasil, independentemente dos bons fundamentos da economia brasileira”, disse o economista-chefe da Corretora López Leon, Flávio Serrano. A onda de incerteza, explicou ele, começou com a decisão de dois fundos de investimentos australianos, o Absolute Yield Strategies e o Capital Yield Strategies Fund NZD, de proibirem saques de seus cotistas pelo menos até outubro. O patrimônio desses fundos está quase que integralmente aplicado em títulos do subprime, referentes a dívidas de alto risco do mercado imobiliário americano. Como não havia ninguém disposto a comprar esses papéis, os fundos australianos ficaram sem dinheiro em caixa para atender a clientela. “O calote que todos temiam se tornou real”, acrescentou.

As primeiras a sentirem o baque foram as bolsas de valores européias, que cravaram as maiores baixas do ano. Em Londres, o índice FTSE-100, cedeu 3,15%, para os 6.251 pontos. Em Paris, o índice CAC-40 despencou 2,78%, para os 5.675 pontos. Em Frankfurt, o DAX perdeu 2,39% de seu valor, cravando os 7.508 pontos. Nos Estados Unidos, a Bolsa de Nova York recuou 2,26%, a segunda maior queda do ano. A Nasdaq, a bolsa de tecnologia dos EUA, computou baixa de 1,84%. O mercado acionário americano ainda sofreu com a nova alta do petróleo e com a divulgação do New Home Sales, índice que mede a venda de imóveis novos naquele país. O número de junho, de 834 mil, ficou aquém do projetado pelos analistas (900 mil), e abriu especulações de que, com a construção civil mais fraca, o crescimento da economia americana será muito fraco e o risco de calote que ronda o subprime pode se estender a outros setores.

Aversão ao risco


Já com prejuízos consolidados no exterior, muitos investidores optaram por zerar negócios em mercados onde haviam acumulado lucros expressivos. A opção foi, principalmente, pelo Brasil. A venda de ações na Bovespa fez com que, durante quase toda a quinta-feira, todos os papéis que compõem o Ibovespa registrassem queda, alguns com recuo de até 9%. Com os reais arrecadados nessas operações, os investidores foram ao mercado de câmbio comprar dólares para sair do país. A demanda foi tamanha, que logo os preços da moeda superaram o patamar de R$ 1,90.

Os investidores também se desfizeram de títulos da dívida externa brasileira, que haviam se valorizado muito. Os mais negociados, o Global 40, caíram 2,14%. A saída dos estrangeiros desses papéis foi tão forte, que impactou o mercado interno de títulos e elevou as taxas de juros, a ponto de o Tesouro Nacional suspender seu tradicional leilão semanal. “Estamos assistindo a uma aversão maior ao risco. Os investidores estão ficando mais seletivos e optando por títulos do governo americano”, afirmou Eduardo Roche, analista do Banco Modal. Para ele, o fato de o Brasil ter sido usado como ponto de realização de lucros não significa dizer que o país saiu da rota do capital estrangeiro. “O Brasil continua sendo uma boa aposta para os investidores. Os fundamentos da economia brasileira estão muito mais sólidos para enfrentar turbulências externas”, acrescentou.

No entender de Mário Battistel, diretor da Corretora Novação, o estrago no mercado brasileiro foi grande porque parte do capital de curto prazo, que havia aportado aqui para se beneficiar das altas taxas de juros, decidiu voltar aos países de origem, temendo que as turbulências de ontem se prolonguem pelas próximas semanas, elevando ainda mais os preços do dólar, o que encarecerá a saída de recursos. “Mas creio que, aos poucos, o mercado voltará à normalidade, e as cotações do dólar vão ceder, oscilando entre R$ 1,85 e R$ 1,90”, destacou. Ele contou que, apesar do nervosismo, o Banco Central fez leilão de compra de dólar, mas aceitou quatro propostas, retirando apenas US$ 34 milhões do sistema.

Vôo para a qualidade


Para o economista Carlos Thadeu Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a seletividade maior do capital estrangeiro vai exigir um esforço adicional do governo para manter a credibilidade do país. Mesmo com todos os indicadores mostrando que a economia está crescendo de forma sustentada e sem fortes pressões inflacionárias, terá de haver maior coesão entre as ações do Ministério da Fazenda e do Banco Central para evitar ruídos desnecessários.

Tanto ele quanto Flávio Serrano e Mário Battistel não acreditam que uma crise global tenha sido detonada. “Foi um ajuste necessário e esperado, para os investidores se lembrarem de que há riscos nos mercados. Como os últimos anos têm sido de grande euforia, muitos se esqueceram disso”, frisou o economista da UFRJ. “Agora, os mercados viverão o que os investidores chamam de flight to quality, ou vôo para a qualidade. Não há mais espaço para amadores”, complementou Battistel.


CANCELAMENTO


O Tesouro Nacional decidiu cancelar o leilão de venda de títulos públicos de ontem, no qual pretendia oferecer aos investidores papéis prefixados (com juros definidos no momento da operação). Segundo o coordenador de Operações da Dívida Pública, Guilherme Pedras, o cancelamento não se deu por desinteresse dos investidores. “Nossa intenção foi acalmar o mercado, mostrando que o governo está tranqüilo e tem caixa para fazer frente aos compromissos sem precisar captar toda semana”, disse. Segundo ele, as taxas de juros avaliadas como parâmetro para as emissões subiu 0,2 ponto percentual ontem. “Fazer o leilão seria sancionar essas taxas, o que não achamos conveniente.”