antigas Publicado: 23/07/2007 | 09:39

Mais pesados que o ar

Luiz Carlos Azedo - Nas entrelinhas
Correio Braziliense

O governo não consegue gastar o dinheiro que tem onde deve e esbanja recursos onde há um cluster bem organizado mamando no Orçamento da União

Por mais que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva procure fugir às suas responsabilidades de governante, depois dos dois acidentes aéreos que comoveram o país, e também das tentativas de seus assessores em interditar o debate sobre o apagão aéreo acusando a oposição de se aproveitar das tragédias, essa tarefa é inútil. Simplesmente porque os fatos são teimosos. O congestionamento do aeroporto de Congonhas e os riscos inerentes aos pousos e decolagens lá realizados são conhecidos desde o acidente com o Fokker-100 da Tam em 1996. Todo mundo já sabe que um acidente como o que ocorreu era previsível.

Desbalanceamento
Uma velha estratégia da tecnocracia brasileira para expandir o setor produtivo estatal durante o regime militar foi o “desbalanceamento” da produção. Na siderurgia funcionava mais ou menos assim: fazia-se a expansão da laminação muito além da capacidade do alto-forno; depois, se investia na construção do novo alto-forno, reproduzindo a mesma estratégia. Ou seja, com o novo alto-forno maior do que o necessário, novamente era preciso ampliar a laminação. Essa estratégia foi tão bem-sucedida para a expansão do setor que, com as privatizações, o país há quase 25 anos bate recordes de produção sem inaugurar um novo um alto-forno.

A Infraero é uma remanescente de tipo de “capitalismo de Estado”, com todos os ingredientes que tornaram o velho setor produtivo estatal ineficiente e deficitário, até ser desmantelado pelas privatizações. A tecnocracia da Infraero é viciada na expansão desbalanceada do setor e que se aproveita de toda ou qualquer oportunidade para crescer. E aliou-se à burocracia dirigente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que é incompetente, partidarizada e mancomunada com o cluster do setor aéreo, principalmente as empresas de aviação. Um brutal erro de conceito cometido já no governo de Fernando Henrique Cardoso – a idéia de que os aeroportos são centros de negócios – foi a chave para a transformação dos aeroportos em aeroshoppings, com dezenas de lojas e até salas de cinema, durante o governo Lula. Nem mesmo o patrimônio artístico e cultural foi levado em conta. O que se fez com Congonhas e está sendo feito no Santos Dumont, aeroportos pequenos, charmosos e funcionais, foi uma violência contra os paulistas e os cariocas. Dos tempos da Panair, hoje só escapou o aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte (MG).

Infalibilidade
O presidente Lula levou três dias para chover no molhado e chegar à conclusão de que era preciso rever o conceito adotado pela Infraero e respeitar as características naturais dos principais aeroportos do país, ao reiterar a velha vocação de Congonhas: ponte aérea e aviação regional. Na véspera, assessores graduados comemoraram com gestos obscenos as informações de que poderia haver uma falha mecânica como causa do acidente do Airbus 320 da Tam que se acidentou no pouso e explodiu. Para o estado maior do presidente da República, mais importante do que reconhecer o erro de conceito e rever a política do setor é cultivar a imagem de “pai da nação” e isentá-lo de qualquer responsabilidade. Há uma explicação para isso: a estratégia de preservação de poder não se baseia na qualidade da gestão, mas no mito da infalibilidade do presidente Lula. A culpa é de todos. A solução é do presidente da República. Esse foi o eixo de seu tardio pronunciamento à nação.

Porém , todas as pesquisas de opinião demonstram uma defasagem entre o prestígio do presidente Lula e o desempenho de seu governo. Até aqui, sua imagem serviu de âncora para a administração federal e mascara deficiências já diagnosticadas pelo próprio governo. É gritante a incapacidade de “governança” na área mais crítica para a retomada do crescimento: a infra-estrutura. O apagão aéreo é a ponta desse iceberg porque a aviação está diretamente ligada aos setores mais dinâmicos da economia. E porque o aumento do fluxo de passageiros mostrou o estrangulamento do setor em áreas diversas, a partir de uma malha aérea bipolarizada por São Paulo e Brasília. Resultado: Uma pane no radar de Manaus pode atrasar todos os vôos, inclusive internacionais; dois aparelhos de raio X para todo o embarque doméstico de Cumbica, com suas filas absurdas, revelam o descaso com os passageiros no maior aeroporto do país.

Essa deficiência de “governança” está em todos os lugares: construção de hidrelétricas, privatização de rodovias, modernização dos portos, programas habitacionais, política de saneamento. O governo não consegue gastar o dinheiro que tem onde deve gastar e esbanja recursos onde há um cluster bem organizado mamando no Orçamento da União. O governo Lula anda mais rápido onde há políticas setoriais voltadas para atender interesses privados politicamente bem articulados, mas que na maioria dos casos não mais urgentes e prioritários.

Luiz Carlos Azedo - Nas entrelinhas
Correio Braziliense

O governo não consegue gastar o dinheiro que tem onde deve e esbanja recursos onde há um cluster bem organizado mamando no Orçamento da União

Por mais que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva procure fugir às suas responsabilidades de governante, depois dos dois acidentes aéreos que comoveram o país, e também das tentativas de seus assessores em interditar o debate sobre o apagão aéreo acusando a oposição de se aproveitar das tragédias, essa tarefa é inútil. Simplesmente porque os fatos são teimosos. O congestionamento do aeroporto de Congonhas e os riscos inerentes aos pousos e decolagens lá realizados são conhecidos desde o acidente com o Fokker-100 da Tam em 1996. Todo mundo já sabe que um acidente como o que ocorreu era previsível.

Desbalanceamento
Uma velha estratégia da tecnocracia brasileira para expandir o setor produtivo estatal durante o regime militar foi o “desbalanceamento” da produção. Na siderurgia funcionava mais ou menos assim: fazia-se a expansão da laminação muito além da capacidade do alto-forno; depois, se investia na construção do novo alto-forno, reproduzindo a mesma estratégia. Ou seja, com o novo alto-forno maior do que o necessário, novamente era preciso ampliar a laminação. Essa estratégia foi tão bem-sucedida para a expansão do setor que, com as privatizações, o país há quase 25 anos bate recordes de produção sem inaugurar um novo um alto-forno.

A Infraero é uma remanescente de tipo de “capitalismo de Estado”, com todos os ingredientes que tornaram o velho setor produtivo estatal ineficiente e deficitário, até ser desmantelado pelas privatizações. A tecnocracia da Infraero é viciada na expansão desbalanceada do setor e que se aproveita de toda ou qualquer oportunidade para crescer. E aliou-se à burocracia dirigente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que é incompetente, partidarizada e mancomunada com o cluster do setor aéreo, principalmente as empresas de aviação. Um brutal erro de conceito cometido já no governo de Fernando Henrique Cardoso – a idéia de que os aeroportos são centros de negócios – foi a chave para a transformação dos aeroportos em aeroshoppings, com dezenas de lojas e até salas de cinema, durante o governo Lula. Nem mesmo o patrimônio artístico e cultural foi levado em conta. O que se fez com Congonhas e está sendo feito no Santos Dumont, aeroportos pequenos, charmosos e funcionais, foi uma violência contra os paulistas e os cariocas. Dos tempos da Panair, hoje só escapou o aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte (MG).

Infalibilidade
O presidente Lula levou três dias para chover no molhado e chegar à conclusão de que era preciso rever o conceito adotado pela Infraero e respeitar as características naturais dos principais aeroportos do país, ao reiterar a velha vocação de Congonhas: ponte aérea e aviação regional. Na véspera, assessores graduados comemoraram com gestos obscenos as informações de que poderia haver uma falha mecânica como causa do acidente do Airbus 320 da Tam que se acidentou no pouso e explodiu. Para o estado maior do presidente da República, mais importante do que reconhecer o erro de conceito e rever a política do setor é cultivar a imagem de “pai da nação” e isentá-lo de qualquer responsabilidade. Há uma explicação para isso: a estratégia de preservação de poder não se baseia na qualidade da gestão, mas no mito da infalibilidade do presidente Lula. A culpa é de todos. A solução é do presidente da República. Esse foi o eixo de seu tardio pronunciamento à nação.

Porém , todas as pesquisas de opinião demonstram uma defasagem entre o prestígio do presidente Lula e o desempenho de seu governo. Até aqui, sua imagem serviu de âncora para a administração federal e mascara deficiências já diagnosticadas pelo próprio governo. É gritante a incapacidade de “governança” na área mais crítica para a retomada do crescimento: a infra-estrutura. O apagão aéreo é a ponta desse iceberg porque a aviação está diretamente ligada aos setores mais dinâmicos da economia. E porque o aumento do fluxo de passageiros mostrou o estrangulamento do setor em áreas diversas, a partir de uma malha aérea bipolarizada por São Paulo e Brasília. Resultado: Uma pane no radar de Manaus pode atrasar todos os vôos, inclusive internacionais; dois aparelhos de raio X para todo o embarque doméstico de Cumbica, com suas filas absurdas, revelam o descaso com os passageiros no maior aeroporto do país.

Essa deficiência de “governança” está em todos os lugares: construção de hidrelétricas, privatização de rodovias, modernização dos portos, programas habitacionais, política de saneamento. O governo não consegue gastar o dinheiro que tem onde deve gastar e esbanja recursos onde há um cluster bem organizado mamando no Orçamento da União. O governo Lula anda mais rápido onde há políticas setoriais voltadas para atender interesses privados politicamente bem articulados, mas que na maioria dos casos não mais urgentes e prioritários.