antigas Publicado: 24/04/2009 | 09:57

Denúncias no Congresso podem ser didáticas para eleitor, opinam

 A sucessão de escândalos que atinge o Congresso Nacional intensifica a descrença na instituição. Apesar da proliferação de denúncias, a crise de confiança pode ser didática para o cidadão.

Para intelectuais e analistas ouvidos pela Reuters, o cidadão tanto pode tirar proveito e escolher com mais critério seus representantes quanto preferir chegar ao limite de um sistema centralizado e pretensamente moralizador.

O professor de Ética e Filosofia da Unicamp, Roberto Romano, acredita que o conceito de fé pública é o principal atingido pela prática negativa dos parlamentares. Ele explica que só com o uso da fé pública o cidadão aceita o arbítrio de um juiz, o dinheiro de um país, e até a demarcação da faixa de pedestres nas vias públicas.

"O índice da fé pública está diminuindo perigosamente. Nesses momentos, aparece o desejo do totalitarismo. O cidadão quer que alguém ponha ordem no país", acredita o professor. "Todos os (movimentos) que têm desconfiança no Parlamento, sejam de direita ou de esquerda, querem um sistema centralizado", reforçou.

Patrimonialismo
Ecoando outros analistas, Romano afirma que o cerne do comportamento negativo dos congressistas está na apropriação de instituições que pertencem à sociedade. É este patrimonialismo que faz com que deputados façam uso da verba de passagens aéreas para levar parentes, amigos e namorados em viagens pelo Brasil e ao exterior.

Levantamento realizado pelo site Congresso em Foco mostra que em quase dois anos os deputados utilizaram a cota de passagens da Câmara para fazer 1.885 viagens internacionais, ou 89,8 viagens internacionais por mês. As verbas, no entanto, são destinadas a vôos entre Brasília e os estados de origem.

O Senado aprovou regras que restringem a emissão de passagens aéreas, enquanto a Câmara anunciou medidas semelhantes que pretende colocar em prática.

Mexendo nos privilégios
A reação do veterano senador Epitácio Cafeteira (PTB/MA) às novas regras é reveladora. Após saber das medidas, ele ironizou: "Daqui a pouco, estamos recebendo vale-transporte". Como se pode ver, essas práticas estão internalizadas e, portanto, são aceitas como normais.

Declarações do deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM/BA), corregedor da Câmara, também estarreceram analistas. Para ele, que teria usado passagens da Câmara para viajar com a mulher a Paris, "está na hora de a Casa ter coragem de se defender... Acho que a imprensa quer fechar o Congresso".

Sem surpresa com os escândalos da vez, o cientista político da UnB, David Fleischer, pontua que a má fama do Congresso é antiga.

"A credibilidade do Congresso sempre andou muito baixa. Não é de hoje que existe uma crise de descrédito", afirmou. Para ele, "o Congresso está tentando limpar sua barra com as novas medidas".

Crise na representação
O deputado Chico Alencar (PSol/RJ) chama isso de crise do sistema representativo. Nesse sentido, a crise que se abate no Congresso pode ser pedagógica e mostrar ao eleitor, que em última instância ele é co-responsável, pois é quem elege os representantes do povo.

Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha em março indica que para 37% dos brasileiros a atuação do Congresso tem sido ruim ou péssima.

O índice subiu seis pontos percentuais em relação ao levantamento de novembro, quando era de 31%. Para 39%, o trabalho dos parlamentares é regular e apenas 16% consideram o desempenho do Congresso ótimo ou bom. Apesar do resultado, o sociólogo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, se diz otimista em relação ao comportamento do eleitor frente à série de denúncias e não vê clima para regimes totalitários, ao contrário do comentário de Roberto Romano.

"Acompanhei a redemocratização. Hoje o País não elegeria um presidente que tivesse dúvidas de sua integridade. A cultura política melhorou com as Diretas, com o impeachment do (ex-presidente) Fernando Collor, a eleição a cada dois anos. Tudo isso é muito educativo, amplia a conscientização política", opinou.

Ainda assim, Paulino vê "um longo caminho pela frente" para os políticos e os eleitores. (Com Reuters)

 A sucessão de escândalos que atinge o Congresso Nacional intensifica a descrença na instituição. Apesar da proliferação de denúncias, a crise de confiança pode ser didática para o cidadão.

Para intelectuais e analistas ouvidos pela Reuters, o cidadão tanto pode tirar proveito e escolher com mais critério seus representantes quanto preferir chegar ao limite de um sistema centralizado e pretensamente moralizador.

O professor de Ética e Filosofia da Unicamp, Roberto Romano, acredita que o conceito de fé pública é o principal atingido pela prática negativa dos parlamentares. Ele explica que só com o uso da fé pública o cidadão aceita o arbítrio de um juiz, o dinheiro de um país, e até a demarcação da faixa de pedestres nas vias públicas.

"O índice da fé pública está diminuindo perigosamente. Nesses momentos, aparece o desejo do totalitarismo. O cidadão quer que alguém ponha ordem no país", acredita o professor. "Todos os (movimentos) que têm desconfiança no Parlamento, sejam de direita ou de esquerda, querem um sistema centralizado", reforçou.

Patrimonialismo
Ecoando outros analistas, Romano afirma que o cerne do comportamento negativo dos congressistas está na apropriação de instituições que pertencem à sociedade. É este patrimonialismo que faz com que deputados façam uso da verba de passagens aéreas para levar parentes, amigos e namorados em viagens pelo Brasil e ao exterior.

Levantamento realizado pelo site Congresso em Foco mostra que em quase dois anos os deputados utilizaram a cota de passagens da Câmara para fazer 1.885 viagens internacionais, ou 89,8 viagens internacionais por mês. As verbas, no entanto, são destinadas a vôos entre Brasília e os estados de origem.

O Senado aprovou regras que restringem a emissão de passagens aéreas, enquanto a Câmara anunciou medidas semelhantes que pretende colocar em prática.

Mexendo nos privilégios
A reação do veterano senador Epitácio Cafeteira (PTB/MA) às novas regras é reveladora. Após saber das medidas, ele ironizou: "Daqui a pouco, estamos recebendo vale-transporte". Como se pode ver, essas práticas estão internalizadas e, portanto, são aceitas como normais.

Declarações do deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM/BA), corregedor da Câmara, também estarreceram analistas. Para ele, que teria usado passagens da Câmara para viajar com a mulher a Paris, "está na hora de a Casa ter coragem de se defender... Acho que a imprensa quer fechar o Congresso".

Sem surpresa com os escândalos da vez, o cientista político da UnB, David Fleischer, pontua que a má fama do Congresso é antiga.

"A credibilidade do Congresso sempre andou muito baixa. Não é de hoje que existe uma crise de descrédito", afirmou. Para ele, "o Congresso está tentando limpar sua barra com as novas medidas".

Crise na representação
O deputado Chico Alencar (PSol/RJ) chama isso de crise do sistema representativo. Nesse sentido, a crise que se abate no Congresso pode ser pedagógica e mostrar ao eleitor, que em última instância ele é co-responsável, pois é quem elege os representantes do povo.

Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha em março indica que para 37% dos brasileiros a atuação do Congresso tem sido ruim ou péssima.

O índice subiu seis pontos percentuais em relação ao levantamento de novembro, quando era de 31%. Para 39%, o trabalho dos parlamentares é regular e apenas 16% consideram o desempenho do Congresso ótimo ou bom. Apesar do resultado, o sociólogo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, se diz otimista em relação ao comportamento do eleitor frente à série de denúncias e não vê clima para regimes totalitários, ao contrário do comentário de Roberto Romano.

"Acompanhei a redemocratização. Hoje o País não elegeria um presidente que tivesse dúvidas de sua integridade. A cultura política melhorou com as Diretas, com o impeachment do (ex-presidente) Fernando Collor, a eleição a cada dois anos. Tudo isso é muito educativo, amplia a conscientização política", opinou.

Ainda assim, Paulino vê "um longo caminho pela frente" para os políticos e os eleitores. (Com Reuters)