Notícias Publicado: 24/07/2026 | 05:19

Cerco tarifário de Trump une trabalhadores e empresários pela soberania



Ofensiva dos EUA aproxima setores produtivos do governo Lula e fortalece aliança nacional em defesa do emprego, da produção e da autonomia do país




por Davi Dmolir


A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, em vigor desde quarta-feira (22), pode se transformar no combustível de uma ampla frente nacional. Em vez de isolar o governo, a ofensiva unilateral de Washington – explicitamente vinculada à articulação do clã Bolsonaro – aproxima setores produtivos historicamente refratários ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva de uma postura unificada em defesa da soberania nacional, do crescimento e da preservação de postos de trabalho.

O Palácio do Planalto classificou o dia 15 de julho como um marco lamentável nas relações bilaterais e apontou a colaboração direta da família Bolsonaro na construção do enredo geopolítico que justificou a aplicação da Seção 301. A diplomacia brasileira ressaltou dados oficiais do comércio bilateral: os EUA acumulam um superávit comercial de US$ 424,5 bilhões com o Brasil nos últimos 15 anos, enquanto o mercado brasileiro cobra uma alíquota média de apenas 3,1% sobre as importações oriundas do país norte-americano. Como resposta, o governo brasileiro colocou na mesa a possibilidade de acionar a Lei de Reciprocidade e retomou os questionamentos na Organização Mundial do Comércio (OMC), mantendo abertos os canais diplomáticos.


Brasil Soberano e o giro dos setores produtivos

Paralelamente à entrada em vigor do tarifaço, o presidente Lula lançou a terceira edição do programa Brasil Soberano, direcionando R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito para mitigar os impactos sobre as empresas afetadas. A medida foi articulada pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, ao lado do secretário-executivo Márcio Elias Rosa, após reuniões estratégicas com representantes da indústria, do agronegócio e do setor exportador.

Durante o anúncio das medidas, a mensagem do Executivo enfatizou o pragmatismo nas relações comerciais globais. Ninguém vai ganhar do Brasil mentindo e o país permanece na mesa de negociação, mas não ficará lamentando o produto que deixou de vender para os Estados Unidos, direcionando esforços para a conquista e consolidação de novos mercados compradores.


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A postura vem reconfigurando a avaliação de setores econômicos. Representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e de federações estaduais, embora estimem o prejuízo imediato no comércio exterior entre US$ 7 bilhões e US$ 11 bilhões, passaram a atuar em coordenação com o governo federal para estruturar garantias de produção e diversificação de destinos de exportação. O diálogo institucional avança de forma semelhante em parcelas do agronegócio.


A mão do clã e o efeito bumerangue

A articulação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em Washington, com participação em audiências perante o Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e pedidos explícitos de adiamento das sanções para o período pós-eleitoral, passou a ser encarada no meio político e diplomático como o uso de ferramentas da política externa estrangeira para fins de disputa política doméstica. A tensão escalou após o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmar que o governo brasileiro priorizou posições pessoais a um acordo comercial. Em resposta, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou as declarações como inaceitáveis e ofensivas, ressaltando que o contrito reflete a contrariedade de Washington diante de um Brasil que recusa imposições externas.

Analistas e especialistas internacionais observam um efeito reverso nas pressões exercidas pela administração de Donald Trump. O cientista político Thomas Traumann apontou ao jornal Washington Post que as medidas protecionistas tornaram-se um trunfo político para o Planalto, considerando a rejeição à figura de Trump no país e a resistência histórica da sociedade brasileira a interferências externas. No mesmo sentido, o professor de Harvard e cientista político Steven Levitsky avaliou que a recusa em ceder a condicionantes políticas externas é a conduta adequada, observando que tentativas de pressão direta costumam gerar reações contrárias na opinião pública, a exemplo de episódios recentes observados no Canadá.

O Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, também analisou o cenário em artigo veiculado no dia 20 de julho. O economista caracterizou os ataques contra o Pix e a infraestrutura financeira brasileira como uma ofensiva contra o avanço tecnológico, prevendo um alcance econômico limitado para as sanções e um eventual fortalecimento da posição política do governo brasileiro.


Soberania como ponto de encontro

Além do contencioso tarifário, o debate abrange temas estruturais do desenvolvimento nacional, como a preservação do Pix como infraestrutura pública digital soberana, a autonomia do Poder Judiciário e a condução de políticas industriais autônomas. A resposta governamental busca evitar retaliações imediatas que possam pressionar a inflação interna, combinando suporte financeiro às empresas prejudicadas, busca por novos parceiros comerciais e firmeza nas negociações internacionais.


Fonte: Portal Vermelho