Notícias Publicado: 30/04/2026 | 05:21

Fenasppen: Enfraquecer a Polícia Penal abre as portas do Estado para o crime organizado



“O crime organizado não invade o governo por magia ou falta de coragem da segurança pública. Ele chega porque o Estado deixa a porta aberta. E a chave dessa porta está no desmonte acelerado da Polícia Penal” 

Foto: Keila Oliveira/AGEPEN-MS 

por Fábio Jabá  
 

Vinte e seis anos dentro de presídios me ensinaram algo que poucos fora dessa realidade conseguem enxergar. O crime organizado não invade o governo por magia ou falta de coragem da segurança pública. Ele chega porque o Estado deixa a porta aberta. E a chave dessa porta está no desmonte acelerado da Polícia Penal. 

A operação desta semana que desmantelou a estratégia de infiltração do PCC em prefeituras paulistas e o uso do heliponto do Palácio dos Bandeirantes por um suposto chefe da facção deve soar como um alerta vermelho. Mas o que ninguém fala é que essa investigação nasceu justamente dentro dos presídios, nos ouvidos atentos de policiais penais que capturam movimentações que escapam aos olhos de quem fica do lado de fora. O policial penal não é um burocrata, ele vive no fio da navalha, é um agente de inteligência natural. Não é à toa que a profissão é a mais perigosa da segurança pública. O policial penal lida diretamente com o que a sociedade produz de pior. E usa isso como arma para combater a criminalidade. Inúmeras operações policiais têm início nos relatórios produzidos pela inteligência da Polícia Penal.  

Nos últimos tempos, temos visto como a infiltração do crime no governo não é um fenômeno isolado. Na gestão anterior, João Gabriel de Melo Yamawaki, operador da 4TBank suspeito de lavar bilhões para a facção, conseguiu autorização em seis horas para pousar helicóptero no Palácio dos Bandeirantes. Mais recentemente, o coronel José Augusto Coutinho saiu do comando geral da Polícia Militar envolto em uma conivência que ninguém quer nomear. Um sargento preso detalhou como Coutinho tinha conhecimento de policiais fazendo bico para a Transwolff, empresa acusada de injetar R$ 54 milhões do PCC em licitações. Mas o revelador foi constatar que tentou manter na Rota um policial suspeito de prestar segurança para criminosos e ignorou alertas do promotor Lincoln Gakyia sobre vazamento de informações sigilosas que protegiam membros da facção na zona leste da capital paulista, conforme divulgado na imprensa. Quando um comandante escolhe proteger a infiltração do crime em vez de combatê-la, fica claro que o problema não é falta de conhecimento. É indiferença deliberada. 

Não há improviso quando o PCC cria um núcleo político para lançar candidatos nas eleições municipais de 2024, quando tenta colocar sua financeira para gerenciar tributos públicos dentro das prefeituras, quando move bilhões através de empresas de fachada para dominar a máquina estatal. Tudo isso só funciona porque há um vácuo de vigilância proposital. 

E onde está esse vácuo? Exatamente onde o governo cortou 2.225 cargos e deixa um déficit de 38% de servidores: a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). Quando um policial penal trabalha exausto demais para observar, o criminoso respira aliviado. Operações históricas como Ethos e Echelon não saíram do nada. Nasceram da inteligência colhida dentro das unidades. A própria investigação contra a Transwolff, que forçou a saída do coronel José Augusto Coutinho do comando geral da Polícia Militar, começou com levantamentos da Polícia Penal. 

Sucatear o sistema prisional só beneficia o crime organizado. Fechar os olhos para a defasagem de policiais e passar quatro anos sem contratar um policial penal sequer só favorece a criminalidade e a insegurança. Tudo que está acontecendo agora em São Paulo é previsível para quem trabalha há décadas vendo a facção se estruturar. Os sinais estão lá. Mas só quem está dentro consegue enxergá-los. O coronel que ignora alertas de promotores sobre vazamento de informações sigilosas protegendo membros da facção, não faz isso por acaso. O ex-vereador que consegue autorização de helicóptero usando contatos políticos não age sozinho. A empresa de transporte que injeta R$ 54 milhões do PCC em licitações públicas não inventa esse esquema no fim de semana. 

Tudo funciona porque há uma engrenagem funcionando nos bastidores. E quando o governo retira a capacidade de observação de quem trabalha 24 horas por dia dentro dessa engrenagem, ele escolhe um lado. Escolhe deixar que o crime organize sua infiltração em paz. 

A segurança pública de São Paulo depende de uma Polícia Penal fortalecida. Não porque seja romântico ou heroico falar isso. Mas porque é a realidade operacional. Quando o policial penal enfraquece, o crime respira. Quando a vigilância diminui, a infiltração prospera. Quando o estado recua, o crime avança. O vácuo deixado pelo Estado nos presídios fez surgir o PCC. Agora, a omissão deliberada o fortalece

 
* Fábio Jabá é policial penal há 26 anos e presidente do Sindicato dos Policiais Penais do Estado de São Paulo (Sinppenal) e dirigente sindical da Fenasppen 
 


Fonte: Federação Sindical Nacional dos Servidores Penitenciários e Policiais Penais - Fenasppen 
 
 

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