Notícias Publicado: 8/03/2022 | 06:57

Artigo: Federalismo sabotado



"O governo federal promove um drástico corte no IPI, sob o falso pretexto de beneficiar o consumidor final e estimular a atividade econômica, mas que não passa de mais um perverso mecanismo de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos"

Charles Alcântara, presidente da Fenafisco


por Charles Alcântara


Poucos dias antes de o governo federal operar, via decreto, um corte linear de 25% no IPI, o Brasil foi assaltado por três notícias reveladoras da trágica realidade de um país que integra o rol dos mais desiguais do planeta: o lucro nominal recorde de R$ 81,63 bilhões auferido pelos quatro maiores bancos brasileiros em 2021; o gigantesco lucro líquido de R$ 106 bilhões da Petrobras em 2021; e o lucro recorde de R$ 121,2 bilhões da mineradora Vale, também em 2021.

Dos R$ 106 bilhões de lucros da Petrobras, quase a totalidade (R$ 101 bilhões) foram distribuídos aos acionistas, dos quais R$ 41 bilhões aos acionistas privados estrangeiros, R$ 22,9 bilhões aos acionistas privados nacionais e R$ 37 bilhões ao acionista público, o governo federal.

A Petrobras, embora (ainda) seja uma empresa pública, é escancaradamente gerida como se privada fosse, porque voltada a priorizar ganhos aos acionistas privados em detrimento dos interesses da economia nacional e da sociedade brasileira.

A Vale, sozinha, lucrou o equivalente a quatro orçamentos anuais do estado brasileiro mais explorado pela mineradora, o Pará, que é também um dos mais desiguais do país, com mais de 1 milhão de famintos e metade da população dependente do Auxílio-Brasil.

Os bancos e, por extensão, os rentistas, ganham sempre e cada vez mais, apesar da crise e até mesmo em razão da crise.

O que faz o governo federal, diante dessa realidade?

Tributa adequadamente os super ricos e os lucros exorbitantes dos bancos, mineradoras e grandes corporações, de modo a capacitar financeiramente o Estado para enfrentar e sair da crise? Nada disso!
O governo federal promove um drástico corte no IPI, sob o falso pretexto de beneficiar o consumidor final e estimular a atividade econômica, mas que não passa de mais um perverso mecanismo de transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos. De um lado, retira-se pelo menos R$ 4,5 bilhões (FPE) de estados e R$ 5,3 bilhões (FPM) dos municípios; do outro, aumentam-se as margens de lucros de alguns segmentos empresariais.

A infeliz benesse fiscal é o mais do mesmo de um governo que tem optado sistematicamente por atacar os cofres públicos de estados e municípios e comprometer o financiamento de serviços públicos, em prejuízo da população mais pobre e mais depende do Estado.

Confesso-me incapaz de compreender o que leva o atual presidente a sabotar permanentemente as iniciativas e necessidades de estados e municípios.

Na Constituição, o Brasil é uma república federativa; na cabeça de Bolsonaro, um Estado unitário

.
* Charles Alcântara é presidente da Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital - Fenafisco




Fonte: Congresso em Foco