Notícias Publicado: 2/12/2021 | 09:46

‘Consultório na Rua’, dez anos, e a urgência de ampliação do programa



Com aumento da miséria e explosão da população sem teto, atenção básica em saúde promovida por essa política pública do SUS, implementada em 2011, se faz ainda mais importante


Com aumento da miséria e explosão da população sem teto, atenção básica em saúde promovida por essa política pública do SUS, implementada em 2011, se faz ainda mais importante

 
As equipes do programa do SUS atuam como unidades avançadas em campo e têm sido fundamentais para levar a vacina contra a covid-19 a pessoas em situação de rua.


por Wagner de Alcântara Aragão


Uma reportagem recente da Revista Radis, da Fundação Oswaldo Cruz, faz a gente mergulhar na rotina das equipes do ‘Consultório na Rua’, do Sistema Único de Saúde (SUS) que completa dez anos em 2021. Faz, também, a gente ter esta reivindicação em pauta: a ampliação do programa.

De acordo com a matéria, assinada por Ana Cláudia Peres e com registros fotográficos de Daniel de Souza, o ‘Consultório na Rua’ conta com 158 equipes em todo o Brasil. Como temos, no país, 5.568 municípios, não carece de calculadora para constatar que o número é pequeno, ínfimo. Contudo, onde consegue alcançar, o programa é de importância sem igual.

A reportagem destaca que o ‘Consultório na Rua’ não se restringe a assistência social ou a ações voltadas à saúde mental. Não. Trata-se de atenção básica completa. Também não se limita à chamada busca ativa, ou seja, fazer encaminhamento para as unidades de saúde. Tampouco a fazer visitas sazonais. Não.

As equipes do ‘Consultório na Rua’ atuam como unidades avançadas, em campo. Têm sido fundamentais, por exemplo, para levar vacina contra a covid-19 aos moradores de rua. Quebrar resistência inicial, adquirir a confiança e manter vínculo, de modo que tratamentos possam ser acompanhados e mantidos, estão entre os principais desafios do trabalho cotidiano.

O êxito dessa política pública começa a ser comprovado pela ciência. Uma pesquisa feita pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, da Fiocruz, confirma a abrangência do programa, para além da saúde mental ou combate às drogas, como superficialmente o ‘Consultório na Rua’ é entendido. Intitulado ‘Análise das Práticas das Equipes de Consultório na Rua no Município do Rio de Janeiro’, o estudo foi coordenado pelas pesquisadoras Elyne Engstron e Mirna Teixeira.

O ‘Consultório na Rua’ atende à população sem teto no tratamento da diabetes, hipertensão, tuberculose, HIV/aids, hanseníase, câncer; promove pré-natal e saúde bucal, entre outros acompanhamentos. “O Consultório na Rua é um caminho, pela via do SUS, para o reconhecimento de direitos e o acesso ao cuidado e à cidadania para essa população”, afirmaram as pesquisadoras, à reportagem.

Com o aumento da miséria, consequência sobretudo da combinação política econômica de exclusão e retirada de direitos em curso desde o golpe de 2016, explodiu a população sem teto e a presença das equipes do ‘Consultório na Rua’ se faz ainda mais imprescindível. A ampliação do programa depende de uma série de fatores – entre eles termos um governo de fato comprometido com as agruras do povo.

Teremos, daqui a menos de um ano, eleições para o Legislativo e o Executivo, em âmbito estadual e nacional. Quantos dos que se colocam desde já como candidatos conhecem o programa e, mais que isso, estão dispostos a lutar pela sua expansão? Quantos se comprometem a defender a revogação do congelamento dos investimentos públicos (a falácia do “teto de gastos”), para que tenhamos dinheiro do povo destinado ao Consultório na Rua, e não ao pagamento de juros para o mercado financeiro? Respostas a perguntas como essas sinalizam com quem poderemos contar.


* Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor. Mestre em estudos de linguagens. Licenciado em geografia. Bacharel em comunicação. Mantém e edita a Rede Macuco



Fonte: Brasil Debate