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Publicado: 14/01/2019 | 06:28
Fenapef: A polícia que o Brasil precisa
"O que a população refuta é a ineficiência e as ações condenáveis. E, a bem da verdade, a nossa polícia parece ainda presa a um modelo do século XIX. Sim, são fatos. No entanto, cabe avaliarmos em quais contextos nossa polícia opera e por que existe um abismo entre suas práticas e o ideal que a sociedade exige na sua pressa por mudanças necessárias"

por Luiz Carlos Cavalcante
No Brasil, nem sempre trabalho policial rima com preferência nacional. Isso não significa que os cidadãos não queiram ver as investigações bem-sucedidas e os crimes solucionados com provas irrefutáveis para que culpados sejam condenados sem macular as instituições.
O que a população refuta é a ineficiência e as ações condenáveis. E, a bem da verdade, a nossa polícia parece ainda presa a um modelo do século XIX. Sim, são fatos. No entanto, cabe avaliarmos em quais contextos nossa polícia opera e por que existe um abismo entre suas práticas e o ideal que a sociedade exige na sua pressa por mudanças necessárias.
Observando a máxima de que política de segurança pública se faz seguindo exemplos de sucesso, miremos o exemplo dos Estados Unidos. Até praticamente a Segunda Guerra Mundial, não é exagero dizer que a polícia americana era ineficiente, brutal, racista, corrupta e assassina. Poucos em suas fileiras poderiam ser enquadrados em um perfil profissional de excelência e definidos como servidores públicos dotados de competência técnica e administrativa. Mas, ainda que poucos, eles existiam e, ao longo dos anos, mostraram que poderiam fazer uma grande diferença.
O ponto de ruptura entre passado e futuro para as instituições públicas daquele país ocorreu após uma grande iniciativa de modernização do aparelho estatal, em todas suas instâncias, tomando-se como princípio que os homens que iriam gerir a nação, os estados e os municípios deveriam ter competência e formação para fazê-lo. Foi um salto qualitativo nos quadros do funcionalismo público americano e a polícia se beneficiou muito com isso.
Mas, na medida em que se exigiu uma maior qualificação daqueles homens e mulheres que ingressavam nas forças policiais, também se concederam oportunidades, traduzidas em crescimento profissional por mérito, treinamento, equipamento moderno, carreira única, ciclo completo e salários dignos (a média salarial anual de um policial americano é hoje de US$ 66 mil, algo em torno de R$ 250 mil). Investe-se na formação de um policial americano US$ 650 mil (R$ 2,04 milhões). De um efetivo total de 750 mil, divididos por 19 mil agências policiais privadas, municipais, dos condados, estaduais, federais e secretas, 83% têm o ensimo médio e 45% graduação universitária, percentual que cresce a cada ano.
O processo seletivo é rigorosíssimo e elimina mais de 90% dos candidatos. A especialização é estimulada e praticada.
Hoje, a polícia americana é considerada uma das mais eficientes do mundo. Tem um nível técnico sofisticado, que faz frente ao moderno crime organizado. Aliou, em sua estrutura corporativa, o trabalho policial à pesquisa científica.
Organizações como o Force Science Institute (Instituto de Ciência da Força, em tradução literal), financiado por entidades da classe, desenvolvem estudos com equipes multidisciplinares, que reúnem psicólogos, juristas, antropólogos, físicos, matemáticos e tudo mais que há de melhor no campo das ciências. O objetivo é aprimorar a atividade policial nas ruas, no setor de inteligência ou na apresentação dos casos à Justiça.
A polícia americana adotou alguns princípios básicos para administrar e selecionar suas unidades na área de pessoal, que são: vocação, perfil, personalidade, gestão, perspectiva de crescimento e valorização; e, como doutrina, abraçou as chamadas cinco verdades: humanos são mais importantes que equipamentos; qualidade é melhor que quantidade; bons policiais não podem ser produzidos em massa; forças policiais competentes não podem ser imediatamente criadas após uma emergência; e os policiais precisam de apoio em seu trabalho.
O novo governo brasileiro já sinalizou que pretende uma aproximação maior com os Estados Unidos. Portanto, alguns modelos de sucesso implementados naquele país podem servir de exemplo à administração pública brasileira, e um deles certamente é a reestruturação aplicada à polícia americana.
Guardando-se algumas características que são parte da nossa inegociável soberania, e adaptando-as, claro, às condições brasileiras.
* Luiz Carlos Cavalcante é vice-presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais - Fenapef
Fonte: O Globo
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