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Publicado: 9/11/2016 | 12:26
Artigo: Do rabo da égua e dos filhos dela
" Em homenagem ao aniversário do meu companheiro e irmão de lutas, Joao Domingos, sempre com as mãos cheias de esperança". Sebastião Soares.

por Sebastião Soares
Mais uma vez a história nacional encontra-se no movimento da roda quadrada. Parou, estagnou e vai retroceder com a maldosa investida dos dominadores ultraliberais contra direitos sociais e liberdades civis. Outra vez a ganância insaciável das elites dominantes apodera-se da Nação para transformá-la em repasto dos seus vorazes apetites financeiros. Mais uma vez as forças democráticas, populares e progressistas são convocadas à luta contra o poder das trevas do capitalismo destrutivo e do seu deus mercado. De novo, é preciso ousar lutar e ousar vencer, acreditando: mesmo no escuro é preciso saudar a esperança de que “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.
Nós que viemos de longe, na voz invisível do velho Brizola, dado que os nossos mortos não desaparecem, apenas se tornam invisíveis, podemos lembrar que estivemos nas ruas, junto com a CSPB, pela anistia ampla, geral e irrestrita; pelas diretas já e em comemoração pelo restabelecimento das liberdades democráticas, na aurora da Constituição Cidadã, hoje destroçada pela ganância perversa dos abutres neoliberais.
Passamos pelo mesquinho e breve período do governo Collor de Melo, quando a CSPB se posicionou na vanguarda das lutas sindicais com a gloriosa campanha do “Remendão é retrocesso”, denunciando e combatendo os ajustes da pauta regressiva da então ministra Zélia Cardoso (um Meirelles de saia), e, ao mesmo tempo, saindo às ruas para efetivar o “Fora Collor”.
Enfrentamos a razão cínica dos tempos de FHC, no maior roubo de patrimônio público da história do Brasil, com as escandalosas privatizações, que passaram à história como a narrativa das “privatarias tucanas”; quando, também, invadimos o Congresso Nacional com a bandeira da CSPB, sendo por várias expulsos das galerias pela covarde repressão conjunta de polícias e seguranças, para enfrentar, especialmente, as Emendas Constitucionais 19 e 20, além da malfadada Lei de Responsabilidade Fiscal, ancestral financeira da PEC 241, cuja finalidade, como agora, era de instalar o Estado mínimo, arrochar salários e cortar direitos dos servidores públicos para fazer superávit primário em garantia do pagamento de juros das dívidas interna e externa.
Participamos e comemoramos a vitória de um operário progressista e sindicalista para a presidência da República, que, logo depois da posse, apresentou a suas credenciais com a reforma da previdência do setor público, levando a CSPB, de novo, às ruas. Novamente estávamos na Esplanada dos Ministérios e no Congresso Nacional, com a memorável campanha “Agora é Luta”, contra as injustas reformas do governo petista cujos malefícios para a aposentadoria do funcionalismo público ainda são sentidos. Da mesma forma, atuávamos com vigor em defesa do sistema sindical confederativo, ameaçado de extinção pela equivocada pauta do FNT, o “Fórum Chapa Branca”, que derrotamos na luta.
O ciclo petista, com avanços importantes em programas de inclusão social, na inserção soberana do Brasil entre as demais Nações, na conquista de uma política de valorização do salário mínimo, de melhor distribuição da renda nacional, do reconhecimento das centrais sindicais, de políticas de inclusão social, entre outros, acreditando ser possível fazer gemada sem bater os ovos, deixou de lado reformas estruturantes que pudessem mudar, de fato, o País, em questões centrais como a política de juros, a reforma tributária, a democratização dos meios de comunicação, a reforma agrária, a reforma política etc. foi abatido no seu voo de galinha.
Caiu, também, pelos seus próprios erros, escorregando no precipício das transgressões éticas de seus quadros dirigentes e, em segundo momento, na arrogância equivocada do governo Dilma Rousseff, afastado dos movimentos sociais, distante do movimento sindical e isolado em articulações políticas. Atravessado por crises internas e externas, recaindo em projetos neoliberais de ajustes fiscais pelo lado das despesas, acossado pelo desastre moral do PT, tornou-se presa fácil para os seus adversários, que foram eficientes na construção do imaginário social da corrupção, ao feitio de Hitler, cuja horda nazista dizia, também, combater a corrupção para salvar a Alemanha, ganhando os aplausos e a adesão de multidões alienadas e manipuladas. Aqui, como lá, fascistas e até nazistas há.
O desfecho trágico veio com o golpe constitucional, legal, mas ilegítimo, colocando no poder uma súcia de oportunistas, notórios corruptos indiciados criminalmente, a serviço do mercado, dos mercadores da agiotagem financeira e dos seus próprios interesses escusos.
O governo Temer se apresenta como a farsa democrática de uma ditadura econômica que aponta para uma época de graves retrocessos econômicos, sociais, políticos e culturais, com respaldo e proteção das capas pretas da mais alta corte do Judiciário, da súcia esfomeada e vingativa do novo Centrão e o alarido peçonhento da imprensa neoliberal. Suas políticas fiscais, focadas nas despesas, já postas em prática, apontam para o abismo. Arranjos fiscais pelo lado das despesas é, sempre, arrojo salarial, corte de direitos e redução do estado em detrimento da Nação. Nesse quadro, o desenvolvimento do País tem a feição da síndrome do rabo da égua, crescendo para baixo, com o indicativo de uma nova fase de brutal concentração de renda.
Sabe-se que as conquistas sociais são comemoradas como vitórias pelos necessitados, mas são vistas como insultos pelos privilegiados. E assim ocorre no Brasil. Os senhores da casa grande não aceitam nenhuma distribuição, ainda que sejam migalhas, para aquelas populações que precisam ser levantadas do chão. Por isso, vão querer vingar-se dos insultos que consideram terem sofrido durante os governos Lula-Dilma. E o povo trabalhador vai arcar com os custos dessa vingança.
Mas, atrás de morro vem morro, na astuta sabedoria do roceiro; se comemoramos o aurorescer da democracia após a queda da ditadura militar, se festejamos nas ruas a deposição do senhor de engenho das Alagoas, se acompanhamos com esperança a vinda de um governo de trabalhadores após a derrota da década perdida do desmanche tucano, também, agora, podemos e devemos acreditar que só poderá ver a luz quem se acostumar com a escuridão. É na noite das trevas do atraso e do retrocesso que, mais uma vez, vamos tecer a nossa história para um novo amanhecer. Há duas alternativas, lutar ou correr, quanto a mim, digo: não tenho mais idade para corridas.
Tempos duros, de angústias, traições, ameaças e perseguições. Mas, como faz a CSPB, é preciso matar o medo para hastear, aqui, ali, acolá e em qualquer lugar, a bandeira da rejeição ao governo intruso, com propostas e alternativas, para restaurar a justiça social em um novo estado social, democrático e popular, rompendo com a síndrome do rabo da égua e desapeando do poder os filhos desta.
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