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Publicado: 3/02/2016 | 08:13
MG: Chega de mimimi - o Estado é o responsável pela Previdência de Minas
"É verdade que os servidores sofreram um golpe dos gestores públicos do Estado no final de 2013. Todo o dinheiro descontado durante 2003 a 2013 do contracheque dos servidores, mais de R$ 3 bilhões foram descapitalizados pelo governo do PSDB."

por Viviane Queiroz
Recente matéria publicada na imprensa mineira intitulada “Rombo no Ipsemg engole investimentos em Minas” demonstra um discurso tendencioso do Governo em desvirtuar a realidade dos fatos e de se fazer de vítima.
A previdência dos servidores públicos é diferente dos trabalhadores que prestam serviços para a iniciativa privada, no entanto, o que pouca gente sabe é que os requisitos para um servidor público hoje se aposentar são mais rígidos, inclusive que os dos trabalhadores da iniciativa privada, mudanças ocasionadas pelas reformas previdenciárias dos anos 90 a início de 2000.
Além disso, as formas dos cálculos das aposentadorias também sofreram alterações. Assim servidores que tomaram posse a partir de janeiro de 2004, passaram a ter seus proventos calculados pelo resultado da média dos salários que serviram como base para a contribuição previdenciária. Dessa forma a aposentadoria do servidor público não ficou mais vinculada ao valor da remuneração do cargo e sim à média das contribuições, pondo fim à paridade e integralidade aos servidores empossados a partir de 2004.
O grande problema, como nos explica o professor Marcelo Barroso, é que “Uma característica marcante dos regimes de previdência dos servidores públicos consiste no fato de que a proteção social, desde o início, sempre foi tratada como extensão da política de pessoal.” A administração pública brasileira demorou a perceber que era necessário fazer reservas financeiras para garantir o direito de aposentadoria dos servidores.
Assim, desde o final da década de 90 existe previsão legal de desconto previdenciário diretamente no contracheque do servidor. Esse desconto visa financiar a aposentadoria do servidor quando cumprido todos os requisitos exigidos na Constituição Federal. Como para todo trabalhador o patrão também deve contribuir com um percentual para a previdência.
No caso dos servidores públicos de Minas, o patrão é o Estado, que deve contribuir também com uma parte da previdência do servidor para garantir a aposentadoria prevista para todos.
A propósito, a filiação do servidor público na previdência do Estado é obrigatória, não cabendo a ele optar pelo plano de previdência gerido pelo IPSEMG, ou um outro plano. Assim, de forma compulsória o desconto de 11% configura mensalmente no contracheque de todos.
Mas afinal quem gere esse dinheiro descontado mensalmente de todos os servidores do Estado? Todo esse dinheiro, tanto a parte do servidor, quanto a parte do patrão deve ser gerida sob a responsabilidade do Estado. Sendo, inclusive o cargo de Presidente do Instituto de indicação do Governador, além de aprovado por comissão de deputados da Assembleia Legislativa do Estado de Minas.
Sendo assim, o que se espera do Governo é uma gestão competente em cima do dinheiro da previdência dos servidores. Chega de mimimi.
É verdade que os servidores sofreram um golpe dos gestores públicos do Estado no final de 2013. Todo o dinheiro descontado durante 2003 a 2013 do contracheque dos servidores, mais de R$ 3 bilhões foram descapitalizados pelo governo do PSDB. Tendo sido os representantes do PT os maiores defensores contra esse golpe.
E agora o Governador Fernando Pimentel já com mais de um ano no governo teve tempo suficiente para apresentar saídas previdenciárias capazes de tornar a previdência dos servidores sustentável. Mas o Presidente do Ipsemg prefere jogar a culpa no crescimento da expectativa de vida da população em geral.
Sim, os servidores do Estado envelhecem na mesma proporção que a sociedade brasileira. Por isso o estado deve se pautar em estudos sobre equilíbrio atuarial do fundo de previdência, que já preveem esse impacto e a capacidade do sistema honrar os compromissos assumidos. Mecanismos existem, o que falta é vontade política e diálogo.
O Estado deve apresentar saídas sobre o tema, mas tem preferido se fazer de vítima, fingindo esquecer que ele é o responsável por gerir a previdência dos servidores.
Na matéria citada, veiculada em 13/01/2016, o Estado anuncia que Minas não terá investimentos por causa do déficit previdenciário, mas se esquece de falar que para 2016, a desoneração fiscal concedida em sua maioria a grandes empresas, como mineradoras, custará aos cofres públicos entorno de R$ 11 bilhões, conforme previsto no Projeto de Lei de Diretrizes encaminhado à ALMG. Esses recursos poderiam ser investidos no Estado, mas o Governo e os deputados preferem “beneficiar” grandes empresas.
A definição de políticas públicas e de investimentos requer a prévia definição das prioridades pelo gestor. O Governo de Minas tem preferido aumentar os impostos dos trabalhadores como o ICMS e a energia elétrica a cobrar o que é devido pelas grandes empresas e comete esse absurdo em conceder benefícios fiscais como os citados no parágrafo anterior.
Retomando a questão da Previdência dos Servidores do Estado, as entidades sindicais representativas da categoria já apresentaram um documento com várias propostas para os representantes governo em reunião ocorrida na ALMG. O documento é resultado de 02 dias do Fórum Técnico “103 anos do IPSEMG: reorganização e valorização”, ocorrido no final do ano de 2015. Entre as propostas apresentadas pelos sindicalistas está a redução da terceirização e do recrutamento amplo no serviço público além de parte da taxação de minérios a ser destinada para cobrir o rombo da má gestão na previdência dos servidores.
Assim, se o desequilíbrio é previsto, devem ser tomadas medidas que invertam essa tendência. É importante a sociedade saber quanto paga, o que recebe e como é administrado todo o recurso arrecadado pelo Estado. Como ensina Rosanvallon, “tornar o social mais compreensível, a sociedade mais visível a si mesma, permite a formação de relações de solidariedade mais reais”.
Dessa forma, deve ser afastada a existência do déficit previdenciário, o déficit é criado por escolhas políticas, econômicas e sociais.
Por hora, uma mudança de discurso dos representantes do Estado é esperada pelos servidores. Além da apresentação de ações capazes de garantir uma previdência sem riscos para os aposentados e pensionistas atuais e para os futuros beneficiários da previdência de Minas. Chega de lamentações é chegado o momento de agir.
* Viviane Queiroz é especialista em processo e direito previdenciário, servidora pública do Judiciário e dirigente sindical.
Fonte: Jornal “O Tempo”
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