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Setembro Amarelo: mais de 30 policiais federais se suicidaram nos últimos dez anos

11/09/2019 | 06:58




Fenapef pede audiência com ministro Sérgio Moro, promove bate-papo sobre o tema, alerta sobre cenário alarmante e aponta carência de política de saúde para prevenção ao problema.







Atenta ao crescimento da quantidade de suicídios entre profissionais da segurança pública e aos registros deste tipo de ocorrência na Polícia Federal (PF), a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) está dedicada ao tema durante este Setembro Amarelo. Pesquisa divulgada no final de agosto pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (Gepesp), ligado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), aponta que o número de agentes que se suicidaram mais que dobrou: os casos saltaram de 28, em 2017, para 67 no ano passado – um crescimento de 140%. Só na PF, levantamentos mostram que nos últimos dez anos (de 2009 a 2019) foram 32 suicídios.

A pesquisa do Gepesp e os dados consolidados pela Fenapef sobre suicídios na Polícia Federal revelam fatos semelhantes: a ampla maioria dos casos é registrada entre homens e a quantidade de tentativas de suicídios tem aumentado (de acordo com o Grupo de Estudo, dobrou de um ano para o outro, passando de seis tentativas, em 2017, para 14 em 2018).

Em 20 anos – de 1999 até 2019 – foram 49 suicídios mais 7 tentativas, na PF. Dos 49 casos, 27 foram de agentes. A maior quantidade de suicídios ocorreu no Distrito Federal (sete) e no Rio de Janeiro (sete), seguidos de Santa Catarina (seis) e Paraná (quatro).

Quando analisada a questão do gênero, do total de mortes (49) na Polícia Federal, apenas uma foi de mulher. E entre as sete tentativas de suicídio, cinco foram de homens e duas de mulheres.

“É um cenário extremamente triste e preocupante”, lamenta o presidente da Fenapef, Luís Antônio Boudens. Segundo ele, a Polícia Federal carece de políticas permanentes direcionadas a esta problemática.

“Não há ações de saúde e de acolhimento eficazes para policiais que já apresentam sinais de adoecimento – como depressão e ansiedade – nem iniciativas específicas durante os processos seletivos para ingresso na instituição, tampouco programas de bem-estar e melhoria da qualidade de vida no ambiente de trabalho”, pontua.

Conforme destaca o presidente da federação, 30% do quadro utiliza algum tipo de medicamento relacionado a questões psicoemocionais, segundo enquete realizada pela entidade em 2016. Boudens também observa que é grande o número de afastamentos em regiões de fronteira.

“Áreas geralmente violentas e onde são lotados muitos dos recém-aprovados nos concursos da PF, sem treinamento adequado e suporte para se adaptarem a estes locais”, acrescenta.

AUDIÊNCIA COM MINISTRO – Preocupada com este cenário alarmante, a diretoria executiva da Fenapef solicitou no final de agosto, logo após a divulgação dos dados do Gepesp, audiência com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, ao qual a Polícia Federal é vinculada.

O objetivo da federação é reforçar para o ministro os pedidos de providências feitos pela entidade durante diferentes gestões da PF, especialmente o cumprimento de ações já previstas em portaria do próprio ministério.

Publicada em dezembro de 2010, a Portaria Interministerial SEDH/MJ nº 2 estabelece as Diretrizes Nacionais de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos dos Profissionais de Segurança Pública. O documento aponta dez medidas específicas de saúde que deveriam ser oferecidas aos servidores.

Entre elas, assegurar o acesso ao atendimento independente e especializado em saúde mental; desenvolver programas de acompanhamento e tratamento destinados aos profissionais de segurança pública envolvidos em ações com resultado letal ou alto nível de estresse; implementar políticas de prevenção, apoio e tratamento do alcoolismo, tabagismo ou outras formas de drogadição e dependência química; desenvolver programas de prevenção ao suicídio, disponibilizando atendimento psiquiátrico, núcleos terapêuticos de apoio e divulgação de informações sobre o assunto; criar núcleos terapêuticos de apoio voltados ao enfrentamento da depressão, estresse e outras alterações psíquicas.

“Medidas que a Direção Geral da PF (DG/PF) nunca executou de forma constante, efetiva”, alerta o presidente da Fenapef. “Só para se ter uma ideia da carência de ações eficazes de cuidado à saúde dos policiais, a DG/PF, em Brasília, conta com apenas seis psicólogos; número claramente insuficiente para o atual quadro e uma demanda crescente”, acrescenta Boudens.

Atualmente, em todo o país, são cerca de dez mil servidores em atividade na Polícia Federal, entre agentes, delegados, escrivães, papiloscopistas e peritos.
 
BATE-PAPO SEM TABU – Outra medida tomada pela Fenapef é a realização nesta próxima quinta-feira (12), em Brasília, da palestra “Felicidade e Produtividade no Ambiente de Trabalho”. O bate-papo é aberto à corporação e será realizado às 9h no Auditório do Instituto Nacional de Criminalística (INC) da Polícia Federal (Setor Policial), sob a condução do professor Wander Cléber Silva, da Universidade de Brasília (UnB).

“É preciso falarmos sobre este tema sem tabu, sem estigma”, defende Luís Antônio Boudens. “Antes de sermos policiais, somos seres humanos e não estamos imunes aos diferentes tipos de adoecimento; ainda mais em uma profissão com tão elevado nível de estresse”, completa.

A palestra “Felicidade e Produtividade no Ambiente de Trabalho” será realizada em parceria com o Sindicato dos Policiais Federais no Distrito Federal (Sindipol-DF), a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), a Superintendência da PF no Distrito Federal e a Diretoria de Gestão de Pessoal (DGP) da Polícia Federal.
 
SETEMBRO AMARELO – Nesta segunda-feira (9) – véspera do dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, estabelecido pela Organização Mundial da Saúde – a OMS divulgou relatório mostrando que é insuficiente a quantidade de países que contam com estratégias de prevenção ao suicídio. O Brasil está entre as 38 nações analisadas pela Organização que desenvolvem ações nacionais de enfrentamento ao problema. De acordo com a OMS, uma pessoa se suicida a cada 40 segundos no mundo.
 
PESQUISAS – Pesquisas encomendadas pela Fenapef e realizadas pela UnB nos anos de 2012/2013 e 2015/2016 mostraram que:

2012/2013:

- A depressão e a síndrome do pânico estavam entre as doenças que atingiam um em cada cinco agentes da Polícia Federal ouvidos no estudo. 
- 73 policiais foram questionados sobre os motivos das licenças médicas e 35% deles responderam que os afastamentos eram decorrentes de transtornos mentais, como depressão e ansiedade.
- Policiais entrevistados afirmaram estar desmotivados, com acúmulo de trabalho e passando por “terror psicológico” e/ou assédio moral.
 
2015/2016:

- 48% dos policiais entrevistados apresentaram “desânimo em relação ao futuro”. Destes:
- 47% tinham ideia de se matar;
- 49% manifestaram sintomas de depressão;
- 58% relataram desesperança.




Fonte: Federação Nacional dos Policiais Federais - Fenapef

 
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